Quando o poder quer ser adorado
Por Mariângela Borba*
Há algo mais perigoso do que um líder autoritário: é quando
ele começa a flertar com o sagrado.
Nos últimos anos, vimos figuras como Donald Trump
transformarem a comunicação política em espetáculo — e, em alguns momentos, em
algo ainda mais sensível: a tentativa de associação simbólica com autoridade
divina.
Não é sobre um post isolado, uma fala ou uma peça de
marketing.
É sobre estratégia.
E estratégia comunicacional, quando mal utilizada, não
apenas informa — ela forma imaginários.
O teólogo Dietrich Bonhoeffer já alertava:
“O mal se apresenta, muitas vezes, disfarçado de bem.”
E talvez seja exatamente isso que estamos assistindo:
uma estética de poder revestida de linguagem espiritual.
Quando líderes passam a ser tratados como “escolhidos”,
“ungidos” ou “instrumentos divinos”, há uma inversão perigosa. O critério deixa
de ser caráter — e passa a ser conveniência.
O sociólogo Max Weber chamou isso de “dominação
carismática”: quando a autoridade não vem de instituições ou regras, mas da
crença quase mística na figura do líder.
E aí, qualquer crítica vira afronta.
Qualquer limite vira ameaça.
Nesse cenário, a comunicação deixa de ser assessoria — e
vira blindagem.
E aqui entra um ponto crucial:
nenhuma estratégia sobrevive saudável sob liderança
centralizadora extrema.
Porque comunicação exige escuta.
E poder absoluto não escuta — impõe.
Enquanto isso, vozes religiosas que deveriam ser referência
ética enfrentam outro dilema: manter coerência ou sustentar narrativas que
ajudaram a construir?
O silêncio, nesses casos, também comunica.
E muito.
O Papa Leão XIV tem sido insistente ao dizer:
“A verdadeira força do cristão está na mansidão e na paz.”
Mas, no mundo político contemporâneo, paz tem sido vendida
como fraqueza.
E força, como virtude espiritual.
Essa distorção não nasce do nada.
Ela é construída — repetida — amplificada.
Até que o poder comece a se ver não apenas como autoridade…
mas como algo digno de devoção.
E é aqui que mora o risco mais grave:
Quando o sagrado vira ferramenta,
a fé deixa de ser caminho — e vira estratégia.
E toda fé que serve ao poder…
corre o risco de se tornar idolatria com vocabulário
religioso.
*Mariângela Borba é jornalista, especialista em Cultura Pernambucana, produtora cultural e estrategista digital. Atuou no Ministério da Cultura, em redações e emissoras de rádio, TV e jornais, além de gestões públicas municipais. Integra a AIP e a UBE e tem formação em Doutrina Social da Igreja. Pesquisa a palavra como território político, na interseção entre comunicação, cultura e direitos humanos. Estuda Psicanálise.