domingo, 19 de abril de 2026

#SendoProsperidade com Mariângela Borba

 Quando o poder quer ser adorado

Por Mariângela Borba*

Há algo mais perigoso do que um líder autoritário: é quando ele começa a flertar com o sagrado.

Nos últimos anos, vimos figuras como Donald Trump transformarem a comunicação política em espetáculo — e, em alguns momentos, em algo ainda mais sensível: a tentativa de associação simbólica com autoridade divina.

Não é sobre um post isolado, uma fala ou uma peça de marketing.

É sobre estratégia.

E estratégia comunicacional, quando mal utilizada, não apenas informa — ela forma imaginários.

O teólogo Dietrich Bonhoeffer já alertava:

“O mal se apresenta, muitas vezes, disfarçado de bem.”

E talvez seja exatamente isso que estamos assistindo:

uma estética de poder revestida de linguagem espiritual.

Quando líderes passam a ser tratados como “escolhidos”, “ungidos” ou “instrumentos divinos”, há uma inversão perigosa. O critério deixa de ser caráter — e passa a ser conveniência.

O sociólogo Max Weber chamou isso de “dominação carismática”: quando a autoridade não vem de instituições ou regras, mas da crença quase mística na figura do líder.

E aí, qualquer crítica vira afronta.

Qualquer limite vira ameaça.

Nesse cenário, a comunicação deixa de ser assessoria — e vira blindagem.

E aqui entra um ponto crucial:

nenhuma estratégia sobrevive saudável sob liderança centralizadora extrema.

Porque comunicação exige escuta.

E poder absoluto não escuta — impõe.

Enquanto isso, vozes religiosas que deveriam ser referência ética enfrentam outro dilema: manter coerência ou sustentar narrativas que ajudaram a construir?

O silêncio, nesses casos, também comunica.

E muito.

O Papa Leão XIV tem sido insistente ao dizer:

“A verdadeira força do cristão está na mansidão e na paz.”

Mas, no mundo político contemporâneo, paz tem sido vendida como fraqueza.

E força, como virtude espiritual.

Essa distorção não nasce do nada.

Ela é construída — repetida — amplificada.

Até que o poder comece a se ver não apenas como autoridade…

mas como algo digno de devoção.

E é aqui que mora o risco mais grave:

Quando o sagrado vira ferramenta,

a fé deixa de ser caminho — e vira estratégia.

E toda fé que serve ao poder…

corre o risco de se tornar idolatria com vocabulário religioso.

 Porque comunicar também é disputar sentidos.

*Mariângela Borba é jornalista, especialista em Cultura Pernambucana, produtora cultural e estrategista digital. Atuou no Ministério da Cultura, em redações e emissoras de rádio, TV e jornais, além de gestões públicas municipais. Integra a AIP e a UBE e tem formação em Doutrina Social da Igreja. Pesquisa a palavra como território político, na interseção entre comunicação, cultura e direitos humanos. Estuda Psicanálise.