sábado, 24 de janeiro de 2026

🎬 Entrevista — Fillipe Ramos: Ação, Autoria e Resistência no Cinema Brasileiro


🎥 Fillipe Ramos é diretor, produtor, ator e coordenador de ação gaúcho radicado em Pernambuco. Ele transformou criatividade, disciplina e paixão pelas artes marciais em uma carreira marcada por autenticidade e impacto.

👦 Fillipe começou ainda criança, gravando vídeos caseiros e criando cenas de luta com os primeiros celulares com câmera. O que era brincadeira virou vocação. Em 2008, ele realizou sua primeira apresentação teatral com coreografias de combate, lotando o teatro do Centro de Convenções da UFPE e conquistando a maior nota da curadoria geral do Festival do Minuto daquele ano na categoria Melhor Diretor de Recife e Olinda.

🎬 Com o tempo, sua habilidade em unir humor, acrobacias e ação o levou a fundar a Pinoia Filmes, equipe de dublês e atores que se tornou referência no cenário digital. No YouTube, seu canal ultrapassa 955 mil inscritos, com vídeos que somam milhões de visualizações — incluindo o fenômeno “Vovô Sem Limites”, onde interpreta um idoso capaz de proezas acrobáticas que surpreendem o público.

🎞️ Além da presença marcante na internet, Fillipe expandiu sua atuação para o cinema. No longa O Agente Secreto, ele assumiu o papel de coordenador de ação, assinando as coreografias e garantindo a segurança e o impacto das sequências de ação 

🎭 O cinema independente brasileiro tem sido palco de vozes que insistem em criar, mesmo quando o cenário parece desfavorável. Entre elas, a de Fillipe Ramos se destaca pela ousadia: fazer cinema de ação no Nordeste, com autenticidade, técnica e uma visão muito própria do audiovisual. Diretor, ator, preparador de elenco e fundador da Pinoia Filmes, ele construiu uma trajetória marcada pela guerrilha criativa e pela paixão pelas artes marciais.


🗣️ Nesta entrevista, Fillipe revisita sua caminhada, comenta desafios e compartilha conselhos para quem deseja trilhar caminhos semelhantes.

Como foi o início da sua trajetória no audiovisual e quais foram os maiores desafios ao longo do caminho?
O começo foi árduo. Eu queria produzir, mas não havia estrutura, recursos, nem referências locais no gênero de ação — especialmente no Nordeste, onde praticamente não existia esse tipo de produção. Então decidi criar as oportunidades que eu não encontrava. Produzi meus próprios curtas e longas de forma totalmente independente, na base da guerrilha. Aos poucos, meu trabalho começou a circular em mostras, festivais e, graças à internet, ganhou visibilidade no Brasil e no exterior. O maior desafio foi justamente esse: começar sem nada, sem apoio, sem verba, apenas com muita vontade e uma visão clara do que eu queria construir.

“Soviética” traz elementos de thriller psicológico e cenas intensas. Como foi dirigir e atuar ao mesmo tempo?
Soviética nasceu como um filme de guerrilha, com recursos mínimos e muita criatividade. Foi um desafio técnico e emocional. É um trabalho coletivo, baseado em confiança e entrega. No fim, é profundamente gratificante ver o resultado de tanto esforço compartilhado.

A Pinoia Filmes é reconhecida pelas cenas de ação realistas. Como surgiu seu interesse por lutas cinematográficas?
A paixão por ação sempre esteve em mim. Como não existiam oportunidades, decidi criá-las. O que começou como um sonho pessoal virou uma plataforma para outras pessoas com o mesmo desejo: fazer cinema de ação no Brasil, especialmente no Nordeste. Assim nasceu a Pinoia Filmes — fruto do amor pelo cinema e pelas artes marciais. Essa verdade aparece nas cenas: lutas mais viscerais, coreografias envolventes e uma estética que respeita tanto o cinema quanto a arte da luta.

Qual é o segredo para produzir sequências de ação impactantes sem comprometer a segurança?
 Domínio técnico e preparo. Muita gente acha que explosões ou quedas são o ápice da dificuldade, mas as coreografias de luta são o verdadeiro desafio. Elas exigem precisão, domínio corporal, conhecimento profundo de artes marciais e interpretação. É preciso saber reagir, vender o golpe, transmitir emoção pelo movimento. Na Pinoia, somos especializados nesse tipo de cena, o que garante segurança e realismo. Segurança vem do treinamento — não existe improviso quando o corpo é o instrumento principal.

 Há alguma cena de luta que tenha sido especialmente desafiadora?
 As mais difíceis são as que envolvem múltiplos personagens, especialmente quando parte do elenco não tem experiência prévia em ação. Como também trabalho na preparação dos atores, transformar alguém sem histórico em um lutador convincente em pouco tempo é uma missão delicada. Exige sensibilidade, paciência e muito treinamento técnico e cênico. Cenas de combate coletivo — guerras, brigas em grupo — são sempre um teste de coordenação, timing e energia coletiva.

Para você, qual é o aspecto mais importante na direção para garantir uma narrativa visual envolvente?
A autenticidade. Toda grande narrativa nasce de uma visão única. Dirigir é traduzir emoções e pensamentos em imagens que conectam. É preciso abandonar fórmulas prontas e buscar o que é genuíno dentro de si. Quando você coloca sua verdade na tela — visual, estética e emocionalmente — o público sente. O envolvimento vem da honestidade da sua visão.

Como você enxerga o cinema independente em Pernambuco e no Brasil? Há espaço para mais produções de ação?
Sem dúvida. O cinema de ação está ganhando espaço, inclusive em grandes produções nacionais. Fui preparador de elenco em O Agente Secreto, do Kleber Mendonça, premiado em Cannes e agora indicado ao Oscar. Participei de Serra das Almas, agora na Netflix, e vemos exemplos como Cangaço Novo e Bacurau, que incorporam ação com maestria. O espaço existe e está crescendo. Mas é essencial continuar formando profissionais, treinando atores e investindo em preparação técnica.

A paternidade influencia sua forma de atuar e dirigir?
Com certeza. A paternidade muda a forma como você enxerga o mundo, e a arte reflete a vida. As emoções ficam mais amplas, mais profundas. A sensibilidade se afina. Tudo ganha novos significados. Essa nova fase tem ampliado minha visão artística de maneiras que ainda estou descobrindo.

Você pretende levar sua experiência com ação para novos projetos?
 Sim. Já alcançamos mais de 180 milhões de visualizações com nossos curtas e quase 1 milhão de inscritos, o que nos coloca como a equipe de dublês mais conhecida do Brasil. Estivemos nos cinemas com Serra das Almas e agora com CIC: Central de Inteligência Cearense e O Agente Secreto. Mas ainda há muito a construir. Estamos desenvolvendo novos projetos para cinema e plataformas digitais, sempre buscando elevar o nível da ação nacional. Queremos tornar o Brasil uma referência mundial em cenas de ação bem executadas, seguras e visualmente impactantes.

Que conselho você daria a jovens cineastas que querem dirigir filmes de ação no Brasil?
Primeiro: faça por paixão. O cinema exige entrega total e só se sustenta com amor genuíno. Depois, estude muito — direção, atuação, edição, artes marciais, narrativa visual. Se especialize. Não espere por oportunidades: crie-as. E busque sempre fazer melhor amanhã do que fez hoje.

📸 Fotos: Reprodução Instagram @ramosfillipe