domingo, 12 de julho de 2026
🪩 Rock na Calçada toma a Rua da Moeda e celebra o Dia Internacional do Rock no Recife
😎 Tela demais, visão de menos: especialistas alertam para riscos no Dia da Saúde Ocular
#VcNoBlog Profª Ynah Nascimento
O que muda quando uma mulher de 40 anos aprende a ECOAR
Ynah de Souza Nascimento
Estamos tão acostumados ao cotidiano ato de ler que é raro parar um pouco para refletir na complexidade desse ato e nas portas que se abrem para um leitor ou leitora que não se limita à superficialidade da leitura nesse mundo digitalizado em que estamos vivendo.
Essa superficialidade tem forma reconhecível. É o texto percorrido em diagonal, a busca pelo resumo antes do conteúdo, a leitura interrompida a cada notificação, o hábito de escanear frases em vez de atravessá-las. Estudos de neurociência da leitura já mostram que esse padrão de consumo rápido tende a fortalecer circuitos de leitura superficial no cérebro, em detrimento dos circuitos ligados à leitura profunda, aqueles responsáveis por inferência, empatia narrativa e pensamento crítico. Não é só uma questão de gosto literário. É uma questão de que tipo de rede neural está sendo exercitada e qual está sendo deixada de lado. O que tudo isso pode prejudicar, ou facilitar, para quem deseja construir uma vida mais plena?
Depois dos 40, a maioria das mulheres já leu centenas de livros. Livros de faculdade, livros para ajudar o filho na escola, livros de desenvolvimento pessoal empilhados na cabeceira, livros abandonados no capítulo três porque a vida não deu tempo de terminar. O que quase mulher alguma aprendeu a fazer foi uma leitura que funcione como espelho de autoconhecimento.
Essa é a distinção que sustenta o LeiturAção, metodologia que venho desenvolvendo há anos como professora de Letras e pesquisadora em Educação. A leitura, na maior parte da vida adulta, funciona como consumo de conteúdo. Ler pra saber, pra render um assunto, pra terminar antes de dormir. O que o LeiturAção propõe é uma virada nessa relação: um livro ou um filme deixa de ser só narrativa externa e passa a funcionar como dispositivo capaz de revelar padrões, feridas e desejos que a rotina não dá espaço pra encarar.
Por que os 40 são um ponto de virada
Aos 40 e poucos, boa parte das mulheres carrega duas décadas de decisões tomadas em função de outras pessoas. Filhos, carreira, casa, cuidado com os pais que envelhecem. É uma fase em que a pergunta "quem eu escolhi ser" começa a concorrer com a pergunta "quem eu fui obrigada a ser pra dar conta de tudo". Essa fricção não costuma vir com um manual. Vem, na maioria das vezes, em silêncio, dentro de uma rotina que não para pra deixar a pergunta terminar de se formar.
A leitura sistêmica entra exatamente nessa brecha. Não como fuga, não como mais uma tarefa de autodesenvolvimento para empilhar sobre as outras. Como método estruturado de escuta de si, usando histórias que já existem no mundo como espelho para história que está sendo vivida.
O protocolo ECOAR
Dentro do LeiturAção, o processo de leitura sistêmica de livros e filmes segue um protocolo de cinco etapas, o ECOAR: Espelho, Conexão, Origem, Acolhimento e Realização.
Espelho. A primeira etapa pede que a leitora identifique, dentro da obra, o personagem, a cena ou o conflito que mais provoca reação nela. Não o que ela acha mais bonito ou mais bem escrito. O que incomoda, o que emociona sem explicação clara, o que ela releu duas vezes sem saber por quê. Esse ponto de reação é o espelho.
Conexão. Depois de identificado o espelho, a etapa seguinte é nomear a conexão entre esse elemento da narrativa e um episódio real da própria vida. Toda reação forte a uma obra carrega um encontro escondido com uma experiência pessoal, muitas vezes uma que a pessoa nunca tinha associado àquele livro ou filme antes.
Origem. Aqui a leitora nomeia, com clareza, a raiz do padrão que essa conexão revela. Um medo recorrente, uma forma de se relacionar, uma crença sobre o próprio valor. É o momento em que a leitura para de ser sobre o livro e passa a ser sobre quem está lendo.
Acolhimento. Nomeada a origem, essa etapa propõe uma conversa entre a leitora de hoje e a versão dela que viveu aquele episódio pela primeira vez. Muitas vezes é literal, por escrito, como uma carta. É a etapa que costuma gerar mais emoção dentro do processo, porque coloca lado a lado quem a pessoa era e quem ela é agora, sem julgamento, só acolhimento. O acolhimento também acontece de forma coletiva, nos encontros em que as participantes da mentoria compartilham entre si as leituras realizadas, e a escuta de uma história alheia devolve, muitas vezes, um pedaço da própria.
Realização. O protocolo se encerra com uma decisão prática, pequena e concreta, que nasce direto da clareza gerada nas etapas anteriores. Não é uma meta genérica de "mudar de vida". É um gesto específico, do tamanho da vida real de quem está fazendo o processo.
O que muda, na prática
Mulheres que passam pelo ECOAR de forma consistente relatam uma mudança que não é sobre ler mais livros. É sobre lembrar como ouvir a própria voz por trás do barulho de décadas cuidando de tudo e de todos. Uma cena de filme vira ponto de partida pra uma conversa que estava engasgada há anos. Um personagem secundário de um romance revela um padrão de relação que se repete desde a adolescência. A leitura deixa de ser só hábito cultural e passa a ser ferramenta de trabalho interno, com estrutura e método, não só intenção.
Não é sobre encontrar respostas prontas dentro dos livros. É sobre desenvolver a capacidade de fazer as perguntas certas usando a literatura e o cinema como espelho, num momento da vida em que essas perguntas já não podem mais esperar.
Professora Ynah é licenciada em Letras pela UFRJ, professora da UFPE e doutora em Educação. É idealizadora da metodologia LeiturAção e do protocolo ECOAR de leitura sistêmica de livros e filmes. Autora do livro “LeiturAção: crenças limitantes superadas, vidas transformadas (https://link.amazon/B05uVEtKr). Criadora do evento presencial chamado Café Letrado, que aplica o protocolo ECOAR em filmes. Acompanhe o trabalho no Instagram @professoraynah. Mais detalhes em www.leituracao.com.br e no canal do YouTube @professoraynah.
🟣 Ovacionada em SP, Priscila Senna transforma participação surpresa em noite histórica
#SendoProsperidade com Mariângela Borba
O passado não entra em campo
Por Mariângela Borba
Quando terminou a partida entre Brasil e Noruega, era
natural que as conversas se concentrassem no placar.
Uns procuraram culpados.
Outros apontaram erros individuais.
Houve quem responsabilizasse o treinador.
Houve quem elegesse um jogador como símbolo da derrota.
É uma reação humana.
Quando algo nos frustra, nosso cérebro tenta encontrar uma
explicação simples para acontecimentos que, quase sempre, são muito mais
complexos.
Mas talvez a pergunta mais importante fosse outra:
O que uma derrota como essa revela sobre nós?
Durante semanas alimentamos o sonho do hexa.
No entanto, a eliminação trouxe uma lição que vai muito além
do futebol.
Nenhuma conquista passada garante o resultado de amanhã.
O Brasil construiu uma das histórias mais vitoriosas do
futebol mundial.
Mas história, por si só, não entra em campo.
Prestígio não marca gols.
Camisa pesa.
Mas não decide partidas.
Talvez seja exatamente aí que more uma das maiores
armadilhas da vida.
Quantas vezes continuamos acreditando que aquilo que
conquistamos ontem será suficiente para sustentar o amanhã?
Carreira não se faz em um único grande momento.
Constrói-se todos os dias.
Relacionamentos também.
Credibilidade também.
Excelência também.
Aristóteles já dizia:
"Somos aquilo que repetidamente fazemos. A
excelência, portanto, não é um feito, mas um hábito."
Os resultados que aparecem hoje são consequência dos hábitos
que repetimos quando ninguém está olhando.
Excelência não nasce do improviso.
Nasce da repetição.
Do treino.
Da constância.
Da disciplina silenciosa.
Há quem diga que grandes resultados exigem grandes
renúncias.
Independentemente de concordarmos integralmente com essa
ideia, a provocação permanece.
Estamos vivendo a disciplina que cobramos dos outros?
Enquanto criticamos a falta de preparo alheia...
Como está o nosso preparo?
Enquanto cobramos comprometimento...
Estamos honrando a palavra que damos?
Enquanto apontamos a falta de foco...
Quanto tempo desperdiçamos diariamente em distrações que
pouco acrescentam à nossa vida — como permanecer rolando infinitamente as redes
sociais ("scrollando"), na expectativa de que o próximo conteúdo
finalmente traga aquilo que estamos procurando?
Freud talvez dissesse que nem sempre percebemos como
racionalizamos nossos fracassos.
É mais confortável localizar a culpa fora de nós do que
reconhecer aquilo que precisa ser transformado em nosso próprio modo de viver.
Jung lembraria que a sombra nunca habita apenas o outro.
Ela também aparece quando projetamos, sobre alguém, aquilo
que ainda resistimos em reconhecer em nós mesmos.
Talvez por isso derrotas despertem julgamentos tão rápidos.
Quando o Brasil perdeu, muitos buscaram imediatamente um
culpado.
Mas vitórias e fracassos raramente pertencem a apenas uma
pessoa.
São consequência de processos.
Processos de formação.
Processos de liderança.
Processos de cultura.
Processos de escolhas.
Talvez o problema também não esteja apenas dentro das quatro
linhas.
Raymundo Faoro, em Os Donos do Poder, descreveu o estamento
burocrático como uma elite dirigente que se perpetua no comando, frequentemente
mais preocupada em conservar o próprio poder do que em promover renovação.
Guardadas as devidas proporções, essa reflexão nos convida a
olhar para além do futebol.
Quantas instituições permanecem prisioneiras das próprias
estruturas, confundindo permanência com competência?
Hannah Arendt lembrava que cada geração recebe um mundo
antigo, mas é responsável por renová-lo.
Conservar não significa repetir.
Significa manter vivo aquilo que continua fazendo sentido.
Nenhuma instituição permanece viva apenas por aquilo que
realizou no passado.
O mesmo vale para pessoas.
O mesmo vale para nós.
Nietzsche dizia que tornar-se quem se é exige uma permanente
disposição para a superação.
Talvez seja justamente isso que a derrota oferece.
Ela interrompe a ilusão.
Rompe a acomodação.
Obriga-nos a abandonar a nostalgia.
E devolve a pergunta que realmente importa:
O que faremos daqui para frente?
Minha avó, ufanista como poucas, costumava torcer contra a
Seleção.
Foi com ela que aprendi, além do patriotismo, o Hino
Nacional, o Hino à Bandeira, o Hino da Independência, o Cisne Branco...
Quando eu perguntava por quê, respondia com uma serenidade
desconcertante:
"Ganhando ou perdendo, o Brasil continua sendo
Brasil."
Na infância, eu entendia a frase.
Hoje compreendo a profundidade dela.
Psicóloga e educadora extraordinária, ela não falava apenas
de futebol.
Falava da vida.
Nenhuma vitória resolve todos os nossos problemas.
Nenhuma derrota explica quem somos.
Talvez a maior derrota não seja perder uma Copa do Mundo.
Talvez seja acreditar que conquistas antigas bastam para
sustentar o futuro.
Porque legado não vive de lembranças.
Ele precisa ser renovado.
Todos os dias.
A vida não pergunta quantas estrelas já carregamos no peito.
Ela pergunta, silenciosamente,
o que estamos construindo hoje para que o amanhã tenha, de
fato, algo a celebrar.
Jornalista (DRT-PE 4095), especialista em Cultura
Pernambucana, produtora cultural, pesquisadora da palavra como território de
poder e autora da coluna #SendoProsperidade🌻
📣 Arraiá da ACIAT anima Tamandaré e leva clima junino às férias de julho
🎤🎶 O Poder do Belting na Voz de Joyce Alane
⚽ Gigantes em Cena: Semifinais reúnem apenas Campeões Mundiais na reta final
sábado, 11 de julho de 2026
🎬 A Arte de Camaleão: O Processo, o Sucesso no streaming e os desafios de Edvan Lima
💥 A participação em
“Cangaço Novo” representou um divisor de águas na carreira de Edvan,
consolidando a confiança profissional após um rigoroso processo seletivo e
ampliando a projeção internacional através do Prime Video. O reconhecimento do
público veio por meio de mensagens de diversos estados e países, com destaque
para o elogio de conhecidos de longa data que não o reconheceram em cena devido
à transformação. A vivência e a troca de experiências com outros atores nos
bastidores também trouxeram grande aprendizado e amadurecimento técnico para
explorar papéis desafiadores. Um dos trabalhos mais complexos até hoje foi no
curta “Serena Perfeição”, interpretando o personagem Júnior, que exigia três
estados corporais e psicológicos totalmente distintos na narrativa.
🎯 A vasta experiência
como preparador de elenco trouxe uma habilidade fundamental para a atuação: a
capacidade de analisar as cenas com um distanciamento técnico e uma visão
externa apurada. Essa dupla perspectiva enriquece o trabalho coletivo diante
das câmeras, aprimorando a escuta mútua, a percepção do espaço e o respeito à
composição artística dos colegas em cena. Em seus grupos de estudo e
treinamentos, Edvan Lima defende que a formação do ator deve ser contínua e
focada em criar espaços de prática e experimentação prática constantes. O
domínio das diferentes linguagens do audiovisual, desde o cinema até as redes
sociais, é visto como um caminho indispensável para transformar a técnica
rígida em pura organicidade.
✍️ Ao transitar entre a atuação,
a direção e a escrita, Lima expande seu controle criativo para pensar na
experiência completa do espectador, manipulando silêncios, enquadramentos e
iluminação. Na dramaturgia, busca visualizar o comportamento, o clima e a
atmosfera das cenas, sempre perseguindo o objetivo de fazer o público se sentir
totalmente imerso no universo narrativo apresentado. Para o futuro, o foco está
em consolidar o mercado audiovisual do Nordeste de forma sustentável, reduzindo
a dependência de editais externos e incentivando realizadores locais a contarem
suas próprias histórias. Entre os desejos de carreira, destacam-se a vontade de
interpretar personagens gêmeos na mesma produção e a experiência na rotina
intensa de novelas.
📸 Fotos: Ryan Galvão
Quando você inicia a criação de um personagem, qual é o
primeiro ponto de ancoragem que busca — corpo, memória, ritmo, conflito? E qual
personagem já exigiu a maior reinvenção do seu processo?
Eu costumo começar pela leitura do roteiro, tentando
entender quem é aquele personagem dentro daquele universo. A partir daí,
procuro os caminhos de pesquisa que podem me aproximar dele. Esse processo não
segue uma regra fixa: algumas construções surgem por meio da música, outros a
partir de vídeos, leituras, observação de pessoas ou referências muito
específicas. Na construção de Baraúna, em “Cangaço Novo”, por exemplo,
pesquisei criminosos paraibanos, facções, o cotidiano de pessoas privadas de
liberdade e questões ligadas a poder, hierarquia e vocabulário. Eu precisava
entender como aquele homem se organizava no mundo antes de tentar colocá-lo no
corpo. Para mim, o personagem começa do lado de fora, por meio da pesquisa e da
observação, mas precisa encontrar algo dentro de mim. Ele se conecta ao meu
repertório, às minhas experiências, aos meus medos, traumas e frustrações. É
quase uma simbiose: eu preciso dele e ele precisa de mim. "Não quero
apenas representar um personagem. Quando escuto “ação”, preciso estar
completamente disponível para viver aquele momento." O personagem mais
desafiador que compor até hoje foi Júnior, do curta-metragem “Serena Perfeição”.
Embora aparecesse em poucos momentos da narrativa, cada um exigia um estado
completamente diferente, quase como se eu interpretasse três personagens. Em um
desses momentos, ele já não tinha vida e se transformava em um boneco.
Encontrar corporalidades distintas para o mesmo personagem, sem perder a
ligação entre elas, tornou esse trabalho especialmente complexo.
Depois de Cangaço Novo, o que mudou na sua
percepção sobre escala de produção, responsabilidade artística e impacto
cultural do seu trabalho?
“Cangaço Novo” mudou minha carreira em dois sentidos. O
primeiro foi a confiança. Ser escolhido para um projeto dessa dimensão, depois
de um processo seletivo criterioso e de diferentes etapas de teste, faz você
entender que uma equipe experiente enxergou naquele trabalho exatamente o que
procurava para aquele personagem. Isso fortalece a confiança no próprio
processo. O segundo foi a dimensão que o trabalho ganhou. Uma produção lançada
em uma plataforma como o Prime Video faz o personagem chegar a lugares que eu
dificilmente alcançaria em outros formatos. Passei a receber mensagens de
pessoas de diferentes estados e até de outros países comentando sobre o
Baraúna. O mais curioso é quando pessoas que me conhecem há muitos anos dizem
que não me reconheceram em cena. Para um ator, esse talvez seja um dos maiores
elogios. Também aprendi muito observando outros atores. Cada um encontra um
caminho diferente para chegar ao personagem, e perceber isso acabou ampliando
minha forma de trabalhar. No fim, “Cangaço Novo” foi uma experiência que
contribuiu muito para o meu crescimento como ator e me deu ainda mais segurança
para seguir explorando personagens cada vez mais desafiadores.
Como sua experiência como preparador de elenco molda sua
presença diante da câmera? Há algo que você só compreendeu sobre atuação depois
de preparar outros atores?
A preparação de elenco me deu uma coisa que hoje
considero fundamental: a capacidade de olhar a cena também do lado de fora.
Quando estou preparando um ator, não observo apenas a construção do papel, mas
a relação dele com a cena, com os outros atores, com a câmera e com a história
que está sendo contada. Quando volto para o lugar de actor, levo esse olhar
comigo. Consigo perceber melhor o espaço, entender o que a cena precisa e
propor caminhos sem perder a disponibilidade para ouvir a direção. Isso me deixa
mais consciente tecnicamente, mas, principalmente, mais disponível para o
trabalho coletivo. Também acredito que preparar atores ampliou minha escuta.
Sempre enxerguei a atuação como um campo de possibilidades, e esse trabalho
reforçou ainda mais essa visão. Como ator, gosto de propor, de buscar caminhos
que sejam fiéis à história, mas que tragam surpresa, verdade e naturalidade. Ao
mesmo tempo, tenho muito cuidado para que essas propostas não interferiram no
trabalho do outro, respeitando a composição do colega em cena e contribuindo
para que todos possam construir juntos. Como preparador, estimulo exatamente
isso: que os atores compreendam as marcações e a estrutura da cena, mas que
possam fluir com organicidade, criando momentos que pareçam únicos, como se
estivessem acontecendo pela primeira vez. Conviver com essas diferentes formas
de construção só fortaleceu o meu próprio trabalho diante das câmeras.
Nos grupos de estudo e treinamento que você conduz, o que
percebe como lacuna mais urgente na formação de atores do Nordeste hoje?
Acho que hoje a maior necessidade não é apenas formar
atores, mas criar espaços permanentes de prática. Atuar é um ofício que se
desenvolve fazendo. Não basta conhecer técnicas; é preciso experimentar, errar,
ajustar e voltar para a cena. Também acredito que precisamos compreender melhor
as diferentes linguagens do audiovisual. A atuação para cinema, para streaming,
para televisão, para publicidade e até para as redes sociais não funciona
exatamente da mesma maneira. Cada formato tem seu ritmo, sua medida e sua forma
de comunicar. Quanto mais o ator entende essas diferenças, mais preparado ele
está para transitar entre elas. É justamente por isso que conduzo grupos de
estudo e treinamento de cena. A ideia é criar um ambiente onde seja possível
experimentar, desenvolver repertório e transformar técnica em organicidade.
Para mim, a técnica nunca é o objetivo final; ela é o caminho para que a
atuação aconteça com verdade. A formação do ator não termina quando ele conclui
um curso. Ela precisa ser permanente. É essa continuidade que dá segurança para
chegar ao set disposto a criar, ouvir a direção e responder às necessidades de
cada projeto.
Quando você dirige ou escreve, o que busca provocar no
público que talvez não consiga apenas atuando? Há uma camada de discurso que só
emerge quando você assume essas funções?
Quando estou atuando, minha responsabilidade é contar bem
a história a partir de um personagem. Já quando dirijo ou escrevo, consigo
pensar na experiência completa de quem está assistindo. Posso conduzir o olhar
do espectador, decidir o que ele vê, o que ele descobre, o tempo de cada
silêncio e até a forma como determinada emoção chega até ele. Gosto muito desse
pensamento porque acredito que nenhuma escolha em cena é aleatória. O
enquadramento, a luz, o ritmo, o silêncio, o movimento dos atores e até a ocupação
do espaço ajudam a contar a história. Meu interesse está justamente em pensar
como todos esses elementos podem trabalhar juntos para provocar uma
experiência. Quando escrevo, também costumo visualizar muito do que estou
criando. Não escrevo apenas os diálogos; gosto de imaginar o comportamento da
cena, o clima e, em alguns momentos, até sugerir possibilidades para a direção.
Não vejo isso como uma forma de limitar quem vai dirigir, mas de compartilhar a
imagem que surgiu enquanto aquela história era escrita. No fundo, seja atuando,
dirigindo ou escrevendo, continuo perseguindo a mesma coisa: fazer com que o
público não apenas assista a uma história, mas sinta que esteve dentro dela.
Qual marca estética, ética ou sensível você acredita
carregar como artista — aquela que deseja que o público reconheça imediatamente
nos seus trabalhos?
Espero que o público não enxergue apenas um personagem,
mas uma pessoa. Gosto quando alguém termina um trabalho e esquece que existe um
ator interpretando aquela história. Para mim, esse é um dos maiores elogios que
posso receber. Busco construir personagens que pareçam possíveis, que tenham
contradições, fragilidades e humanidade. Quanto mais verdadeiro aquele universo
parecer para quem está assistindo, maior a sensação de que a história poderia
acontecer na vida real. É essa sensação de autenticidade que procuro levar para
cada trabalho.
Como você enxerga o momento atual do audiovisual
nordestino e quais são os próximos degraus que ainda precisamos subir para
consolidar esse movimento?
Acredito que o audiovisual nordestino vive um momento
muito importante de reconhecimento, mas o próximo passo é consolidar esse
crescimento como mercado. Temos profissionais extremamente qualificados, mas
ainda dependemos muito de editais e de produções que chegam de outras regiões.
Gostaria de ver cada vez mais produtoras nordestinas desenvolvendo seus
próprios projetos, criando modelos sustentáveis de produção e pensando também
no audiovisual como um mercado capaz de gerar continuidade para quem vive desse
trabalho. Também acredito que precisamos contar mais histórias a partir do
nosso próprio olhar. Quem vive esses lugares conhece nuances, sotaques,
relações e experiências que dificilmente podem ser reproduzidas de fora. Quanto
mais fortalecermos nossos realizadores, mais diversas e verdadeiras serão as
histórias que chegam ao público.
Qual foi o bastidor mais inesperado, delicado ou
transformador que você viveu em set — aquele que mudou sua forma de trabalhar
ou de se relacionar com a equipe?
Um dos bastidores mais marcantes aconteceu durante as
gravações de "A Morte da Herança de Galinha". Eu interpretava Diana,
uma personagem que usa salto alto, e nunca tinha gravado uma cena inteira
nessas condições. Estávamos filmando em um cemitério, caminhando sobre
paralelepípedos, enquanto carregávamos outro personagem durante a cena. No meio
do percurso, perdi o equilíbrio. Consegui me recuperar quase até o fim da
tomada, mas acabei tropeçando pouco antes do corte. Na hora foi um misto de tensão
e vontade de rir. Hoje lembro desse momento com muito carinho porque ele mostra
que, por trás de toda vivência artística, também existe improviso, adaptação e
um pouco de caos, e faz parte do trabalho aprender a seguir em frente mesmo
quando as coisas fogem do previsto.
O que muda no seu corpo, na sua escuta e na sua técnica
quando você transita do teatro para o audiovisual?
A preparação para um personagem continua sendo
praticamente a mesma. O que muda é a forma de comunicar esse personagem. No
teatro, o corpo e a voz precisam alcançar uma plateia inteira. Existe uma
expansão natural da presença cênica. No audiovisual, acontece o contrário: a
câmera se aproxima e passa a perceber detalhes mínimos. Um olhar, uma
respiração ou um pequeno silêncio podem comunicar muito mais do que um grande
gesto. A intensidade do personagem continua existindo, mas ela precisa ser
dosada de outra maneira. No fim das contas, não muda a essência do personagem.
Muda apenas a escala em que essa verdade é apresentada ao público.
Que tipo de personagem ou projeto você sente que está
pronto para viver agora — algo que ainda não fez, mas que hoje encontra você no
momento certo?
Tenho vontade de viver personagens que me coloquem diante
de desafios que ainda não experimentei. Não penso tanto no tamanho do papel,
mas no tamanho da transformação que ele exige. Um projeto que desperta muita
curiosidade em mim seria interpretar dois personagens dentro da mesma obra,
como irmãos gêmeos ou figuras completamente distintas. Acho fascinante a
possibilidade de construir duas pessoas diferentes dividindo o mesmo universo
narrativo. Também tenho vontade de experimentar a rotina intensa de uma novela.
Ainda não vivi esse ritmo de gravação por meses seguidos, e acredito que seria
uma experiência importante para meu amadurecimento como ator. No fim, continuo
aberto ao que cada história pode me ensinar. Mais do que buscar um papel
específico, quero seguir encontrando histórias que ampliem meu repertório como
ator e como ser humano.



