A ansiedade e a ilusão do controle
Aprender a conviver com as incertezas também é uma forma de
prosperidade.
Por Mariângela Borba
Há momentos em que a ansiedade não chega como um alarme, mas como uma
tentativa insistente de antecipar a vida. Ela aparece na necessidade de prever
cenários, evitar perdas e encontrar respostas antes mesmo que as perguntas
surjam. No fundo, buscamos uma promessa impossível: a de que, se pensarmos o
suficiente, conseguiremos controlar o que ainda não aconteceu.
Celebrado em 10 de outubro, o Dia Mundial da Saúde Mental nos convida a
olhar para uma experiência comum: a inquietação diante do que não sabemos e não
podemos controlar.
O oposto da ansiedade não é necessariamente a calma. Podemos estar inquietos
e, ainda assim, sentir segurança. Muitas vezes, o que nos desestabiliza é a
ausência de garantias sobre o futuro.
Em O mal-estar na civilização (1930), Freud reflete sobre as fontes
do sofrimento humano, entre elas as ameaças do mundo externo e as dificuldades
das relações. Nem tudo depende de nós, e parte do desgaste nasce da tentativa
de encontrar garantias onde elas não existem.
Séculos antes, Epicteto propunha uma distinção fundamental: há coisas que
dependem de nós e outras que escapam ao nosso controle. Reconhecer essa
diferença não significa cruzar os braços, mas concentrar a energia no que
podemos transformar.
Podemos rever atitudes, escolher palavras, estabelecer limites e decidir
onde colocamos nossa atenção. Isso não significa controlar todos os pensamentos
ou sentimentos. Quando a ansiedade persiste e compromete a rotina, buscar ajuda
profissional é um gesto de cuidado e responsabilidade.
Neste mês dedicado à saúde mental, vale lembrar: cuidar de si não é ignorar
os problemas do mundo, mas impedir que a preocupação nos afaste do presente.
É nesse limite — entre o que podemos fazer e o que precisamos entregar — que
a fé pode encontrar espaço.
Em 12 de outubro, celebramos Nossa Senhora Aparecida. Para tantos
brasileiros, sua imagem representa acolhimento, esperança e amparo nos momentos
difíceis. Na homilia do padre Alexandre, ouvi uma analogia que me tocou: Nossa
Senhora Aparecida é como o corpo, e nós somos os seus membros. Por isso, os
pescadores não a encontraram inteira, mas em partes — como se a unidade pudesse
se revelar justamente nos fragmentos.
A fé não elimina as incertezas nem substitui o cuidado com a saúde mental,
mas pode oferecer sentido, consolo e recolhimento para atravessá-las. Confiar
em Deus também é reconhecer os próprios limites e fazer, com responsabilidade,
o que está ao nosso alcance.
Talvez prosperar seja isso: agir com consciência, acolher a vulnerabilidade
e seguir em frente, mesmo quando o caminho ainda não está claro.
A vida acontece no presente, entre limites e possibilidades. A liberdade
talvez comece quando deixamos de exigir certezas e confiamos no próximo passo.
Se não podemos controlar tudo, que escolha faremos hoje para cuidar da vida
que já está acontecendo?
Mariângela Borba é jornalista (DRT-PE 4095), especialista
em Cultura Pernambucana, produtora cultural, psicanalista em formação,
pesquisadora da palavra como território de poder e autora da coluna
#SendoProsperidade.