Quando o outro deixa de ser espelho
Por Mariângela Borba.
Há alguma coisa acontecendo conosco.
Talvez seja mais do que uma crise de valores. Talvez
estejamos atravessando uma crise ética: uma dificuldade crescente de reconhecer
humanidade naquilo que não se parece conosco.
Uma família pode transmitir cuidado, afeto e pertencimento
e, ao mesmo tempo, ensinar desconfiança diante de tudo aquilo que parece
estranho ao seu modo de viver.
Freud desconfiava do mandamento de amar o próximo como a si
mesmo. Não porque desconhecesse a força do amor, mas justamente porque conhecia
o humano. O outro também incomoda. Pensa diferente, deseja diferente, escolhe
caminhos que podemos reprovar. E a diferença pode despertar hostilidade,
rivalidade e agressividade.
O amor, por si só, não resolve esse impasse.
Talvez porque amemos com mais facilidade aquilo que
reconhecemos como semelhante — aquilo que, de alguma maneira, funciona como
espelho.
Jung chamou atenção para aquilo que projetamos no outro:
muitas vezes, aquilo que não suportamos reconhecer em nós mesmos aparece mais
facilmente quando o encontramos do lado de fora. O estranho pode carregar
justamente aquilo que preferimos manter distante de nossa consciência.
Lacan, ao pensar a constituição do sujeito e sua relação com
o Outro, também nos lembra que não existimos isoladamente. Somos atravessados
pelo olhar, pela linguagem e pelo desejo do outro. Mas isso não significa que o
outro exista para confirmar aquilo que somos.
O problema começa quando queremos transformar o outro em
espelho.
Quando ele deixa de refletir nossa imagem, nossa moral,
nossa crença, nossa escolha política, nossa maneira de amar ou de viver, alguma
coisa se rompe.
Isso acontece dentro e fora da família.
Um filho cresce e constrói valores que os pais não
compartilham. Faz escolhas que eles não fariam. Deseja uma vida diferente
daquela que imaginaram para ele.
E talvez uma das experiências mais difíceis da parentalidade
seja justamente essa: descobrir que aquele ser que nasceu de nós não nasceu
para ser nossa continuação.
Winnicott compreendeu profundamente essa tensão. O
desenvolvimento saudável não consiste em produzir um indivíduo que corresponda
às expectativas do outro, mas em oferecer condições para que ele possa
tornar-se quem é. Há uma delicada tarefa entre cuidar e não possuir, proteger e
não aprisionar, estar presente e permitir que o outro exista por si mesmo.
Amar um filho, portanto, também pode significar suportar que
ele seja diferente de nós.
E isso vale para muito mais do que a família.
Alguém que amamos faz escolhas que não compreendemos. Uma
pessoa estranha chega com outra cultura, outra crença, outra língua, outra
maneira de organizar a própria existência.
É justamente aí que a ética deixa de ser uma ideia
confortável.
Emmanuel Levinas colocou o rosto do outro no centro da
experiência ética. O outro nos convoca antes mesmo que consigamos
classificá-lo, explicá-lo ou julgá-lo.
Respeitar o outro exige suportar que ele continue sendo
outro.
Não precisamos concordar para reconhecer dignidade.
Não precisamos gostar para respeitar.
Não precisamos compreender completamente para admitir que a
existência do outro não depende da nossa aprovação.
Talvez seja essa uma das grandes dificuldades do nosso
tempo.
Vivemos cercados por possibilidades de comunicação, mas nem
sempre estamos dispostos ao encontro. Temos mais ferramentas para falar,
responder, publicar e reagir — e menos disposição para escutar.
E, enquanto escrevia, lembrei do filme O Convite, de Olivia
Wilde. Um jantar entre dois casais aparentemente comuns vai revelando, pouco a
pouco, as fissuras de relações que pareciam conhecidas. Por trás da intimidade,
aparecem desejo, ressentimento, comparação, hipocrisia e aquilo que cada um
preferia não enxergar. Talvez porque, quando o outro deixa de corresponder à
imagem que construímos, também sejamos obrigados a olhar para aquilo que
escondemos de nós mesmos.
Talvez seja aí que a provocação de Valter Hugo Mãe, em seu
mais recente livro O Século dos Imbecis, encontre o nosso tempo.
Estamos normalizando uma espécie de glorificação da
ignorância.
Não aquela ignorância que reconhece humildemente o que não
sabe — essa pode ser o começo do conhecimento.
Mas a ignorância transformada em orgulho.
A recusa em perguntar.
A incapacidade de admitir dúvida.
A certeza que dispensa investigação.
A opinião que se sente autorizada a existir antes mesmo de
conhecer o assunto.
Pensar dá trabalho.
Escutar dá trabalho.
Mudar de ideia dá trabalho.
É muito mais confortável permanecer entre semelhantes, onde
nossas convicções são confirmadas o tempo inteiro.
Mas uma sociedade não pode depender do amor para sustentar
seus vínculos.
O amor oscila. Pode terminar. Pode se transformar. Pode
carregar ambivalência e até conviver com agressividade.
Freud sabia disso.
Por isso, talvez a ética precise ir além do afeto.
Precisamos construir uma consideração pelo outro que alcance
também aquele que não desperta identificação, simpatia ou amor.
O amor aproxima. O respeito sustenta a relação quando a
semelhança acaba.
E talvez a ética comece exatamente aí: quando a diferença do
outro deixa de precisar da nossa aprovação para continuar tendo direito de
existir.
Hoje, 16 de agosto, é Dia do Filósofo.
Talvez a melhor maneira de celebrar a filosofia seja lembrar
como ela nasceu: do espanto, da pergunta, da disposição de olhar para aquilo
que parecia óbvio e perguntar novamente.
Em tempos de certezas instantâneas, talvez filosofar seja
uma forma de resistência.
Parar.
Perguntar.
Escutar.
Desconfiar das próprias certezas.
E reconhecer que, diante do outro, talvez não seja
necessário ter imediatamente uma resposta.
Às vezes, a sabedoria começa justamente quando conseguimos
permanecer diante da pergunta.
E você: consegue reconhecer o outro quando ele deixa de ser
seu espelho?
🌻 Mariângela Borba é
jornalista (DRT-PE 4095), especialista em Cultura Pernambucana, produtora
cultural, psicanalista em formação, pesquisadora da palavra como território de
poder e autora da coluna #SendoProsperidade.
