📝 Desde criança, Arthur Vinih descobriu na poesia uma porta para o mundo da música. Em Ponte Nova, Minas Gerais, ele transformava versos em melodias enquanto sonhava com o Festival da Canção Estudantil, evento que marcou sua entrada na vida artística. A vitória em 2004 foi o impulso que o levou a explorar novos caminhos sonoros, passando do pop rock à música preta brasileira, ao rap, ao samba e à MPB. Essa trajetória, sempre em movimento, revela um artista que não teme a transformação e que encontra na capoeira uma raiz profunda para sua musicalidade.
🎵 A música mineira moldou sua identidade de forma decisiva. Mestres locais como Jacaré e José Carlos Daniel lhe apresentaram harmonias que mais tarde se conectariam ao legado de João Bosco, Clube da Esquina e Nelson Angelo — com quem Vinih viria a gravar. Essa fusão entre tradição mineira e ancestralidade negra se tornou marca registrada de sua obra, presente em canções como Eu Sou Negão e Pele Preta, que ecoam vivências pessoais e coletivas.
🌍 A capoeira, presente em sua vida desde a infância, atravessa sua forma de cantar, tocar e compor. A literatura negra também se tornou fonte essencial: Abdias Nascimento, Carolina Maria de Jesus e Djamila Ribeiro ajudaram a aprofundar temas que já surgiam intuitivamente em suas letras. A estética, o cabelo, o corpo e a identidade negra são elementos que Vinih transforma em música, sempre com cuidado e responsabilidade.
🔥 O lançamento de Eu Sou Negão marcou uma virada. A canção viralizou, conectou o artista ao movimento negro em todo o país e ampliou sua responsabilidade social. Desde então, Vinih passou a estudar mais profundamente questões raciais e a participar de debates, palestras e ações educativas, usando a música como ponte para temas muitas vezes considerados espinhosos.
🏫 Como professor, Vinih encontra na sala de aula um espaço de troca que alimenta sua criação. Histórias de alunos, como a de Sibeli Lima — com quem lançou a música Quem Eu Sou — transformam-se em inspiração e reforçam seu compromisso com a juventude. Em escolas e universidades, ele conecta música, identidade e cidadania, criando diálogos que fortalecem autoestima e consciência racial.
🎤 ENTREVISTA COMPLETA
Evolução artística — Como você enxerga a transformação do seu estilo musical desde os primeiros trabalhos até as produções mais recentes?
Quando criança eu tinha um interesse muito grande por poesia. Então eu lembro que quando eu comecei, bem cedo assim, com 10, 11 anos, quando eu comece a ter interesse por música, eu queria transformar essas poesias que eu já tinha em música. E tinha um festival muito forte aqui na região, onde eu moro, Ponte Nova, Minas Gerais, Um festival chamado Festival da Canção Estudantil. Eu tinha muito interesse em participar desse festival.
E foi aí que eu comecei a compor pra participar desse festival. Em 2004, eu consegui ficar em primeiro lugar nesse festival junto com alguns amigos, e isso me motivou ainda mais. E desde então, eu comecei perceber algumas influências dentro da minha música. Eu comecei muito influenciado pelo pop rock dos anos 80, e 90, então eu tinha uma banda chamada Primatas, a gente criava algumas músicas dentro desse contexto de pop rock, depois eu comecei a ser influenciado também pela música negra brasileira, música preta brasileira, pelo rap e pela música popular, pela MPB, então a música preta brasileira é muito ampla, pelo samba, então eu senti necessidade de experimentar outras coisas além ali do pop rock e aí a minha música começou a ter essas transformações e depois de muito tempo eu percebi o quanto que a capoeira que veio antes da música, eu faço capoeira desde criança, né? Quanto a capoeira influenciou a minha forma de compor, né? Depois mais consciente assim, né? Musicalmente, influenciou a minha forma de cantar, o meu jeito de tocar violão e foi aí que eu comecei a ir mais pro lado da música negra.
Então eu tenho discos e singles lançados com músicas bem diferentes umas das outras. E ainda estou nesse processo de transformação. Acho que o mais legal é essa busca.
Influências mineiras — De que forma a cena musical de Minas Gerais moldou sua identidade sonora e suas escolhas estéticas?
Então, a música mineira, com certeza, molda a minha forma de pensar música, a forma de harmonizar melodia e tem muito da ancestralidade também, que vem também da música mineira, com o gado, por exemplo, uma outra grande influência que eu tive, uma banda que tinha uma berimbau, E depois, através de um grande produtor aqui também da região, chamado Thomas Medeiros, eu tive o prazer de gravar também com o Mestre Nego Artivo, que é o líder dessa banda, Berimbau, que é uma banda mineira também, que juntava essa questão de sonoridade, do berimbau, da capoeira, com gado, com black music e tal. Então isso também eu ouvia muito Berimbau, E aí eu tive essa sorte de encontrar essa galera para poder trabalhar também e ter ainda mais influência. E aí a gente vai caminhando, isso também abriu muito a minha visão para estudar sobre questões raciais também e colocar isso nas minhas letras. Então, além da influência no som, eu também peguei diversas influências também da literatura, para poder trazer pensadores negros para as minhas letras, para a minha forma de escrever.
Eu tive contato com a música mineira através de grandes mestres aqui da minha região, que é o Jacaré e o José Carlos Daniel. Então eu aprendi muito com esses dois sobre harmonia e desde cedo eu já me interessei pelo jeito que os grandes artistas mineiros harmonizam as músicas. Então eu me apaixonei por essa forma de tocar. Aí eu conheci artistas como João Bosco através deles, conheci artistas como Miro Trancimento, a galera do Clube da Esquina, Nelson Angel, e depois eu tive o prazer ainda de trabalhar com artistas, com alguns desses artistas em estúdio, como o Nelson Angel, eu gravei uma música dele chamada Tiro Cruzado com a participação dele na guitarra, foi um aprendizado muito grande, também Gravei com Chico Amaral, que é um grande nome também da música mineira, letrista da banda Skank, e tem projetos incríveis dentro do jazz, músicas autorais, enfim, foi uma experiência muito grande. O Enéas Xavier, que também está dentro desse contexto da música mineira já trabalhou, além dos seus trabalhos autorais, trabalhou com artistas como Flávio Venturini, Ivan Berli, então a música mineira foi me influenciando desde muito cedo e depois, mais maduro, eu tive ainda essa experiência de trabalhar também em estúdio, porque até então eu conhecia através desses grandes artistas aqui da minha cidade, mas por experiência em palco. Então, tive esses dois lados que acabaram influenciando muito a minha forma de compor. E nessa, eu coloquei um pouco da minha influência também, da minha ancestralidade negra, que vem lá da capoeira, a forma de tocar. E juntei isso em algumas obras como Eu Sou Negão, como Pela e Preta, que são obras que são mais conhecidas minhas.
Ancestralidade na música — Como a ancestralidade africana se manifesta nas suas composições, arranjos e performances?
Então essas influências pré-escrita como Abdias Nascimento, Carolina de Jesus, fiquei encantado pelo livro Quarto de Despejo, por exemplo. E a questão estética, aquela série de livros que a Djamila Ribeiro organiza, Feminismos Plurais, ali eu conheci vários autores negros também que falavam sobre essa questão estética e tal, e isso tudo me motivou ainda mais a escrever sobre, falar sobre nas minhas obras. Coisa que eu já fazia até antes de ter contato essa galera negra, pensadores negros e tal, fazia de forma empírica mesmo ali, né? Falava um pouco sobre a minha experiência. A música, por exemplo, Eu Sou Negão, ela fala sobre a questão estética do cabelo, coisas que eu já passei e que diversas pessoas negras também passaram. E aí eu trago, né? Isso para as minhas músicas.
Ativismo racial — Em que momento você percebeu que sua música poderia se tornar ferramenta de luta contra o racismo e de afirmação da identidade negra?
Sobre ativismo racial, a música me levou pra esses lugares, né? Quando eu lembro, quando eu lancei a música Eu Sou Negão, eu comecei a ter uma responsabilidade maior pra poder falar sobre essas questões, questões raciais. Porque em toda entrevista a galera perguntava, e isso foi muito importante pra mim, porque através dali Eu conheci muita gente. A música Eu Sou Negão, ela me conectou com gente do movimento negro, assim, no Brasil inteiro e até fora do país, porque ela viralizou, né? Ela viralizou em 2016. Então, tem mais de... Tem milhões de acessos. De visualizações, né? Essa música. E tivesse as páginas grandes, compartilhar e tal. E aquilo eu achei muito legal porque eu já tinha essa... Eu já sentia essa necessidade de falar sobre essas questões nas músicas e aí isso aflorou ainda mais.
Responsabilidade social — Como você equilibra a responsabilidade de ser uma voz ativa em temas sociais com a liberdade artística?
Eu acho que a obra tá totalmente ligada ao artista, né? Então, eu... Muitas vezes eu não separo muito o artista do cara que ali é ativista, talvez um artivista. Então eu não costumo muito separar as minhas músicas das pessoas que me conhecem, né? Que através da minha obra, ali ela já vai entender a minha mensagem, a mensagem que eu quero passar com a minha obra. Ainda mais sendo letrista e também compositor, eu faço a harmonia, a melodia e também a mensagem está direta ali na letra. Então... Sobretudo quando a gente fala sobre questões raciais, sobre questão social, a gente tem que sempre ter um cuidado muito grande, então eu sempre busco muitas referências para poder falar sobre esses temas e além da minha própria vivência.
Recepção do público — Como o público reage às suas músicas de teor social e quais transformações você já testemunhou através delas?
E eu vejo a recepção do público como positiva, né? É claro que a gente sempre tem muitos... Na internet você tem os haters, no dia a dia você também tem aqueles ali que não vão gostar do seu trabalho, não vão assimilar aquilo ali que você tá falando, ou vai ter dificuldade, ou vai criticar, vai entrar naquela que a gente já conhece muito bem e falar que é vitimismo, que é mimimi e tal. Mas eu acho que é parte do processo e o que eu penso é que a gente não pode deixar essas vozes influenciar a forma da gente compor, a forma da gente expressar ali a nossa arte.
Educação e música — De que forma sua experiência como professor influencia sua maneira de compor, cantar e se posicionar artisticamente?
Olha, a influência da educação musical na minha forma de compor, ela é gigante. Eu vou mencionar aqui, então, até o último trabalho que eu lancei com uma ex-aluna chamada Sibeli Lima, e fica a dica aqui pra galera já pesquisar. Você joga lá no YouTube, Sibeli Lima e Arthur Vini já vai ver esse trabalho. Eu dei uma palestra numa escola aqui chamada IFMG. Federal, né? E aí, essa ex-aluna, eu abri a palestra pra participação e essa ex-aluna, ela deu um depoimento falando sobre o quanto a música foi importante na vida dela e aí ela também se entendendo ali que muitas vezes ela passou por situações racistas e muitas vezes ela não assimilava e tal, e ela tinha assim por muitas vezes dificuldade ali com questão de autoestima e eu fiz uma música como se fosse ela cantando assim ela é uma aluna que eu tenho um carinho muito grande comecei a trabalhar com ela muito ela era muito novinha e agora tá crescendo assim na música já fez altos clipes eu acho que é isso né essas trocas elas são importantes também para o professor pra você, por muitas vezes, você se conecta ali com o aluno e troca a experiência e aquilo acaba influenciando ali a sua forma de compor. Aquilo te inspira a escrever. Então, eu acho importantíssima, sim, é importantíssima essa conexão com a nossa galera.
Impacto nas escolas — Quais foram os momentos mais marcantes das suas palestras e ações educativas em escolas, especialmente sobre identidade e cidadania?
Então, a partir dali, de Eu Sou Negão, eu começo a falar mais sobre e estudar sobre também. E aí eu tive o prazer também até de trabalhar com palestras sobre questões raciais. Dei palestra na UFV, que é uma universidade de uma cidade que é ao lado da minha cidade, eu moro em Ponte Nova. Universidade Federal de Viçosa. Fui convidado para dar uma palestra lá. Dei palestra na Uni Viçosa, aqui na minha cidade. Dei palestra na Universidade Dinâmica, que também é bem conhecida aqui na região. Dei diversas palestras em escolas públicas, aqui de Ponte Nova e região, sobre questões raciais e fazendo essa ligação entre música e questão racial. Então, eu tocava... Toco uma música, por exemplo, que fala sobre a questão da estética, E falo sobre o tema, toco uma música que fala sobre apropriação cultural, por exemplo, e falo sobre o tema. Então, fica uma palestra assim, né? Mas com uma conexão com a juventude ali, através da música, né? Eu utilizo a música como ponte pra poder trocar uma ideia sobre temas que muitas vezes são espinhosos, assim.
📌 Serviço
Artista: Arthur Vinih
Cidade: Ponte Nova (MG)
Último lançamento: Quem Eu Sou — parceria com Sibeli Lima
Onde ouvir: YouTube, redes sociais e plataformas de streaming
Contato para palestras e shows: Instagram @arthurvinih
