Quando escolher deixa de ser escolha
Liberdade nas relações também exige espaço para a própria voz
Por Mariângela Borba
Há histórias que nos fazem parar. E há perguntas que permanecem, mesmo
quando não temos respostas prontas.
Uma delas diz respeito à liberdade dentro das relações. Até que ponto o
desejo de estar junto respeita a individualidade de cada um? Quando o cuidado
deixa de ser apenas presença e passa a ocupar o espaço que deveria pertencer à
escolha do outro?
Nem sempre é simples perceber quando, em nome do amor, começamos a abrir mão
de partes importantes de nós mesmas. Aos poucos, os próprios desejos podem
ficar em segundo plano. As escolhas passam a considerar primeiro as
expectativas alheias. E aquilo que parecia uma concessão pontual corre o risco
de se tornar hábito.
Relações humanas não são equações. Existe afeto, dependência, esperança,
medo, culpa e a promessa de mudança. Existe também o desejo de preservar aquilo
que construímos com alguém, mesmo quando já não distinguimos com clareza as
necessidades do outro das nossas.
Jean-Jacques Rousseau pensou a liberdade a partir de uma questão política:
como permanecer livre sem estar submetido à vontade de outro? Trazida para a
intimidade, a pergunta ganha outra dimensão:
Que liberdade existe quando a vontade de uma pessoa começa a organizar a
vida da outra?
Autonomia não significa apenas poder escolher. Importa também ter espaço
para escolher. Isso envolve reconhecer que uma relação não exige o
desaparecimento das diferenças, tampouco a renúncia à própria voz.
É nesse ponto que escutar se torna uma forma de cuidado.
Cremilda Medina, em Entrevista: o diálogo possível (2008), propõe
uma reflexão sobre a escuta que ultrapassa o jornalismo. Antes de interpretar,
escutar; antes de aconselhar, compreender; antes de decidir pelo outro,
perguntar o que ele próprio está tentando dizer.
Na comunicação, como nas relações, o diálogo não se estabelece quando uma
pessoa assume o lugar de quem sabe o que é melhor para a outra. Escutar
pressupõe reconhecer que o outro tem uma história, desejos e razões que nem
sempre conhecemos.
Isso não significa permanecer indiferente diante de alguém em sofrimento.
Respeitar a autonomia pode significar oferecer presença para que o outro
consiga recuperar a própria voz, sem impor respostas ou determinar caminhos.
Setembro costuma nos lembrar disso quando falamos em prevenção ao suicídio.
Mas sofrimento não conhece calendário.
Se setembro serve para ampliar a conversa, que ela continue em outubro,
novembro, dezembro — e recomece em janeiro.
Prevenção não deveria ter prazo de validade. Tampouco o cuidado com a saúde
emocional deveria depender de uma data ou de uma situação extrema para ganhar
espaço nas nossas conversas.
Nenhum de nós conhece inteiramente a dor que o outro carrega. Por isso,
talvez seja necessário escutar mais e presumir menos. Reconhecer que nem toda
escolha é simples e que oferecer apoio não significa decidir pelo outro.
Para nós, mulheres, talvez exista ainda uma pergunta que mereça permanecer
aberta:
Quantas vezes aprendemos a chamar de amor aquilo que, aos poucos, nos ensina
a abrir mão de nós mesmas?
Mariângela Borba é jornalista (DRT-PE 4095), especialista em Cultura
Pernambucana, produtora cultural, psicanalista em formação, pesquisadora da
palavra como território de poder e autora da coluna #SendoProsperidade.