segunda-feira, 2 de março de 2026

#SendoProsperidade com Mariângela Borba

A arquitetura do medo

Por *Mariângela Borba

 

“Age apenas segundo uma máxima tal que possas querer que ela se torne lei universal.”

— Immanuel Kant, Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785)

“Não façamos o mal para que venha o bem.”

— Carta aos Romanos 3,8

 

Há uma pergunta que atravessa séculos e continua desconfortável: os fins justificam os meios?

Na ética kantiana, a dignidade humana não pode ser instrumentalizada. Pessoas não são ferramentas a serviço de projetos maiores — políticos, econômicos ou estratégicos. São fins em si mesmas. Quando esse princípio é relativizado, o que se fragiliza não é apenas um argumento — é a própria ideia de humanidade compartilhada.

Vivemos sob a promessa constante de segurança. Ela aparece nos discursos, nas campanhas, nas decisões que endurecem políticas e aceleram escolhas. Segurança tornou-se palavra-mestra. Palavra que encerra debates. Palavra que silencia nuances.

Mas o que estamos chamando de segurança?

Quando estabilidade depende da produção contínua de ameaças, quando a política se organiza em torno da antecipação permanente do perigo, quando o medo se torna ferramenta legítima de gestão social, algo se desloca silenciosamente.

Não é preciso explosão para que haja violência.

Existe violência na linguagem que desumaniza.

Na estrutura que exclui.

Na normalização da exceção como regra.

Há uma indústria do medo — sofisticada, difusa, eficiente. Ela mobiliza afetos, organiza mercados, redefine prioridades. E, pouco a pouco, molda nossa percepção do que é aceitável.

Desde Aristóteles, sabemos que a política deveria existir para promover a vida boa em comunidade. Se o horizonte coletivo se estreita ao ponto de transformar o outro em ameaça permanente, talvez estejamos confundindo proteção com controle.

Prosperidade não é supremacia.

Prosperidade não é intimidação.

Prosperidade não é a capacidade de neutralizar.

Prosperidade é a possibilidade de florescimento mútuo.

O capital é instrumento — não finalidade.

O poder é responsabilidade — não troféu.

A influência é meio — não essência.

Quando aceitamos que certos meios são “inevitáveis” porque o mundo é complexo demais, começamos a relativizar aquilo que deveria ser inegociável: a dignidade humana.

E essa relativização raramente começa de forma dramática.

Ela começa em pequenas concessões.

Em silêncios confortáveis.

Em justificativas pragmáticas.

A pergunta que permanece é menos geopolítica e mais interior:

Estamos construindo segurança ou apenas aprendendo a conviver com o medo?

Porque quando a violência — ainda que simbólica — deixa de nos causar estranhamento, algo fundamental já foi perdido.

Prosperidade que nasce do medo é frágil.

Prosperidade que nasce da dignidade é sustentável.

E talvez a verdadeira segurança não esteja na eliminação do outro, mas na preservação do que nos impede de perder a alma.

 

Mariângela Borba é jornalista diplomada, especialista em Cultura Pernambucana, produtora cultural e estrategista digital. Atuou no Ministério da Cultura e em gestões públicas municipais, integra a AIP e a UBE e tem formação, também, em Doutrina Social da Igreja. Pesquisa a palavra como território político e relacional na interseção entre comunicação, cultura e direitos humanos. Dedica-se atualmente aos estudos da Psicanálise.