Deixa o frevo rolar: quando o eixo volta a dançar
Por Mariângela Borba*
Há um momento em que a vida deixa de pedir contenção e passa a pedir movimento.
Não o movimento ansioso de quem foge, nem o excesso performático de quem precisa provar algo, mas o movimento próprio — aquele que nasce quando a gente para de se auto-suspender.
Aristóteles dizia que “o impossível verossímil é preferível ao possível não acreditável”. Talvez porque o corpo reconheça o que faz sentido antes que a razão autorize. O verossímil não é o que garante segurança. É o que sustenta verdade. Deixar o frevo rolar não é perder o controle. É recuperar o eixo.
Durante muito tempo, aprendi a dançar com cuidado. A medir o passo, regular o ritmo, não ocupar espaço demais. Não por insegurança, mas por leitura fina do ambiente, do outro, do contexto. Isso também é inteligência relacional.
O problema começa quando a inteligência vira adiamento.
Quando a escuta vira espera.
Quando a maturidade se transforma em auto-contenção crônica.
O quase não machuca. O quase anestesia. E a anestesia nos faz confundir quietude com paz.
Há vínculos que se mantêm exatamente aí: no quase, no implícito, no confortável demais para exigir escolha.
É aqui que muita gente se confunde sobre o amor. Não é que o amor não exista. O que não existe é amor sem escolha.
Onde não há travessia, o que se chama de amor vira arranjo de interesses: presença conveniente, cuidado episódico, vínculo confortável demais para se assumir. O amor não se sustenta no implícito. Não vive de sinais difusos, nem de intensidade ocasional. Ele exige posicionamento, continuidade e responsabilidade afetiva.
Quando alguém usufrui da presença, mas evita a escolha, não é amor que falta — é coragem de atravessar.
Recusar esse jogo não é cinismo. É lucidez. Porque tudo o que não entra no campo da escolha, não entra no campo da prosperidade.
Deixar o frevo rolar é sair do lugar de quem dança olhando para o lado, esperando que alguém acompanhe, para ocupar o lugar de quem dança porque o corpo pediu.
Quando o corpo volta a dançar, o campo muda. Não porque alguém foi provocado, mas porque o eixo foi retomado. Eixos não negociam. Eles organizam.
Prosperidade — de novo, ela — não é acumular, nem prometer.
É sustentar o próprio ritmo sem pedir desculpa.
É escolher sem precisar justificar demais.
É parar de traduzir o próprio desejo para caber no conforto do outro.
Há vínculos que só existem enquanto alguém diminui o passo. Quando o frevo começa de verdade, eles precisam decidir: entram no ritmo ou ficam na calçada. Isso não é dureza. É honestidade estrutural.
Dançar o próprio frevo não exclui ninguém. Mas também não se interrompe para manter presenças que só funcionam no quase.
Quem quiser, acompanha.
Quem não puder, assiste.
E está tudo bem — desde que a dança continue. Porque quando a vida volta a dançar, o centro se reafirma, a energia circula e a prosperidade deixa de ser promessa para virar movimento vivido.
Deixa o frevo rolar.
Agora, o compasso é teu.
*Mariângela Borba é jornalista diplomada, especialista em Cultura Pernambucana, produtora cultural e mestre de cerimônias. Pesquisa a palavra como território político, simbólico e relacional, atuando na confluência entre comunicação, cultura, direitos humanos e inclusão. Professora, revisora credenciada e estrategista digital, atualmente dedica-se aos estudos da Psicanálise. Integra a UBE e a AIP.