Estruturas que
Cuidam: o que mudou — e o que ainda precisa mudar
*Por Mariângela Borba
Esta semana, conversando com uma moradora de 93 anos do meu prédio
– o que chamo de troca de experiências - ouvi que deixou um emprego em um banco após 13
anos de estabilidade porque a instituição não aceitava mulheres casadas.
Trabalhou simultaneamente em dois outros lugares por nove meses até formalizar
sua saída diante de um juiz do trabalho, acompanhada por advogado.
As normas eram outras.
As estruturas eram outras.
O relato, porém, revela algo que permanece atual: o trabalho
nunca foi apenas fonte de renda. Sempre foi, também, espaço de definição de
papéis sociais, expectativas e limites.
Se antes a exclusão era explícita — escrita em regulamentos
— hoje ela se manifesta de maneira mais sutil. Casamento e maternidade
continuam, muitas vezes, redefinindo o lugar da mulher no ambiente
profissional. Não por regra formal, mas por presunções silenciosas:
disponibilidade presumida menor, comprometimento questionado, sobrecarga
invisível.
Mudaram as leis. Nem sempre mudaram as culturas.
É nesse contexto que a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1)
ganha centralidade. Ao estabelecer diretrizes gerais de segurança e saúde no
trabalho, incluindo a gestão de riscos ocupacionais, a norma reforça que
prevenção não é detalhe burocrático — é responsabilidade institucional.
E risco não se resume a máquinas ou acidentes físicos. Há
riscos psicossociais: ambientes hostis, desigualdades naturalizadas, sobrecarga
crônica, exclusões simbólicas.
Prevenção é cultura.
Ambientes organizacionais comunicam valores. Quando uma
instituição assume a gestão responsável de seus riscos, ela não está apenas
cumprindo exigências legais — está dizendo que vidas importam.
Essa lógica estrutural também se aplica ao campo científico.
A repercussão recente do trabalho da bióloga Tatiana Coelho de Sampaio,
pesquisadora da UFRJ, reacendeu o debate sobre o reconhecimento da ciência no
Brasil. Após quase três décadas de dedicação à regeneração neural, sua pesquisa
trouxe esperança concreta para o tratamento de lesões medulares. O aplauso
veio. O suporte institucional, nem sempre.
Bolsistas de pesquisa frequentemente enfrentam a pergunta
desinformada: “mas você só estuda?”. A expressão ignora que pesquisa é trabalho
de dedicação exclusiva. Entre cortes orçamentários e descontinuidade de
políticas públicas, milhares de cientistas deixaram o país na última década,
pressionados pela precarização do financiamento.
Também já ouvi essa pergunta ao optar por aprofundar meus
estudos. O “só” revela muito sobre como ainda subestimamos o tempo dedicado à
formação e à produção de conhecimento.
Não se trata apenas de orçamento. Trata-se de cultura. De
como enxergamos — ou invisibilizamos — o trabalho intelectual.
O mesmo raciocínio vale para políticas assistivas e
inclusão. Acessibilidade não é concessão periférica, mas instrumento
estruturante de equidade. Tecnologia assistiva não é inovação acessória — é
reorganização de oportunidades.
Quando ambientes de trabalho ignoram diferenças e
vulnerabilidades, produzem exclusão. Quando incorporam políticas assistivas,
reduzem desigualdades estruturais.
Há um fio que conecta memória, norma e política pública.
Se no passado mulheres precisavam escolher entre casamento e
estabilidade profissional, hoje o desafio é mais complexo: conciliar papéis
ainda desigualmente distribuídos, enfrentar expectativas culturais persistentes
e sustentar ambientes que realmente reconheçam a pluralidade de trajetórias.
Normas organizam procedimentos. Mas também organizam
subjetividades. A cultura institucional molda comportamentos, silencia
conflitos ou os legitima, reforça pertencimento ou o fragiliza.
Casa e trabalho são espaços estruturantes da experiência
humana.
Se a Campanha da Fraternidade 2026 nos convida a refletir
sobre moradia digna como condição de convivência saudável, o debate sobre
ambiente laboral amplia essa reflexão: dignidade não termina na porta de casa.
Ela atravessa jornadas, contratos e relações profissionais.
Estruturas importam.
Importam porque moldam oportunidades.
Importam porque reduzem ou ampliam vulnerabilidades.
Importam porque revelam o tipo de sociedade que escolhemos
sustentar.
Mudanças institucionais são lentas — mas possíveis.
As regras mudam.
As culturas precisam acompanhá-las.
Normas como a NR-1 e apontam para um amadurecimento
institucional necessário: prevenção, inclusão e responsabilidade não são gestos
individuais de boa vontade. São escolhas estruturais.
Prosperidade, afinal, não se constrói apenas com crescimento econômico. Constrói-se com ambientes que cuidam, políticas que equilibram e culturas que reconhecem que dignidade não é privilégio — é fundamento
Mariângela Borba é jornalista diplomada, especialista em
Cultura Pernambucana, produtora cultural e estrategista digital. Atuou no
Ministério da Cultura e em gestões públicas municipais, integra a AIP e a UBE e
tem formação, também, em Doutrina Social da Igreja. Pesquisa a palavra como
território político e relacional na interseção entre comunicação, cultura e
direitos humanos. Dedica-se atualmente aos estudos da Psicanálise.