sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

#SendoProsperidade com Mariângela Borba

Estruturas que Cuidam: o que mudou — e o que ainda precisa mudar

*Por Mariângela Borba

 

Esta semana, conversando com uma moradora de 93 anos do meu prédio – o que chamo de troca de experiências - ouvi que deixou um emprego em um banco após 13 anos de estabilidade porque a instituição não aceitava mulheres casadas. Trabalhou simultaneamente em dois outros lugares por nove meses até formalizar sua saída diante de um juiz do trabalho, acompanhada por advogado.

As normas eram outras.

As estruturas eram outras.

O relato, porém, revela algo que permanece atual: o trabalho nunca foi apenas fonte de renda. Sempre foi, também, espaço de definição de papéis sociais, expectativas e limites.

Se antes a exclusão era explícita — escrita em regulamentos — hoje ela se manifesta de maneira mais sutil. Casamento e maternidade continuam, muitas vezes, redefinindo o lugar da mulher no ambiente profissional. Não por regra formal, mas por presunções silenciosas: disponibilidade presumida menor, comprometimento questionado, sobrecarga invisível.

Mudaram as leis. Nem sempre mudaram as culturas.

É nesse contexto que a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) ganha centralidade. Ao estabelecer diretrizes gerais de segurança e saúde no trabalho, incluindo a gestão de riscos ocupacionais, a norma reforça que prevenção não é detalhe burocrático — é responsabilidade institucional.

E risco não se resume a máquinas ou acidentes físicos. Há riscos psicossociais: ambientes hostis, desigualdades naturalizadas, sobrecarga crônica, exclusões simbólicas.

Prevenção é cultura.

Ambientes organizacionais comunicam valores. Quando uma instituição assume a gestão responsável de seus riscos, ela não está apenas cumprindo exigências legais — está dizendo que vidas importam.

Essa lógica estrutural também se aplica ao campo científico. A repercussão recente do trabalho da bióloga Tatiana Coelho de Sampaio, pesquisadora da UFRJ, reacendeu o debate sobre o reconhecimento da ciência no Brasil. Após quase três décadas de dedicação à regeneração neural, sua pesquisa trouxe esperança concreta para o tratamento de lesões medulares. O aplauso veio. O suporte institucional, nem sempre.

Bolsistas de pesquisa frequentemente enfrentam a pergunta desinformada: “mas você só estuda?”. A expressão ignora que pesquisa é trabalho de dedicação exclusiva. Entre cortes orçamentários e descontinuidade de políticas públicas, milhares de cientistas deixaram o país na última década, pressionados pela precarização do financiamento.

Também já ouvi essa pergunta ao optar por aprofundar meus estudos. O “só” revela muito sobre como ainda subestimamos o tempo dedicado à formação e à produção de conhecimento.

Não se trata apenas de orçamento. Trata-se de cultura. De como enxergamos — ou invisibilizamos — o trabalho intelectual.

O mesmo raciocínio vale para políticas assistivas e inclusão. Acessibilidade não é concessão periférica, mas instrumento estruturante de equidade. Tecnologia assistiva não é inovação acessória — é reorganização de oportunidades.

Quando ambientes de trabalho ignoram diferenças e vulnerabilidades, produzem exclusão. Quando incorporam políticas assistivas, reduzem desigualdades estruturais.

Há um fio que conecta memória, norma e política pública.

Se no passado mulheres precisavam escolher entre casamento e estabilidade profissional, hoje o desafio é mais complexo: conciliar papéis ainda desigualmente distribuídos, enfrentar expectativas culturais persistentes e sustentar ambientes que realmente reconheçam a pluralidade de trajetórias.

Normas organizam procedimentos. Mas também organizam subjetividades. A cultura institucional molda comportamentos, silencia conflitos ou os legitima, reforça pertencimento ou o fragiliza.

Casa e trabalho são espaços estruturantes da experiência humana.

Se a Campanha da Fraternidade 2026 nos convida a refletir sobre moradia digna como condição de convivência saudável, o debate sobre ambiente laboral amplia essa reflexão: dignidade não termina na porta de casa. Ela atravessa jornadas, contratos e relações profissionais.

Estruturas importam.

Importam porque moldam oportunidades.

Importam porque reduzem ou ampliam vulnerabilidades.

Importam porque revelam o tipo de sociedade que escolhemos sustentar.

Mudanças institucionais são lentas — mas possíveis.

As regras mudam.

As culturas precisam acompanhá-las.

Normas como a NR-1 e apontam para um amadurecimento institucional necessário: prevenção, inclusão e responsabilidade não são gestos individuais de boa vontade. São escolhas estruturais.

Prosperidade, afinal, não se constrói apenas com crescimento econômico. Constrói-se com ambientes que cuidam, políticas que equilibram e culturas que reconhecem que dignidade não é privilégio — é fundamento

Mariângela Borba é jornalista diplomada, especialista em Cultura Pernambucana, produtora cultural e estrategista digital. Atuou no Ministério da Cultura e em gestões públicas municipais, integra a AIP e a UBE e tem formação, também, em Doutrina Social da Igreja. Pesquisa a palavra como território político e relacional na interseção entre comunicação, cultura e direitos humanos. Dedica-se atualmente aos estudos da Psicanálise.