🎤 O tenor Thiago Arancam prepara um dos projetos mais ousados de sua carreira: a Ópera do Sertão, um espetáculo que une a grandiosidade do canto lírico à força poética da música regional brasileira. A ideia nasceu de uma inquietação artística, como ele próprio define, ao perceber que a dramaticidade do sertão dialoga naturalmente com a linguagem operística. Entre memórias afetivas e raízes culturais, Arancam decidiu criar uma ponte entre dois universos que, embora distintos, compartilham intensidade, emoção e narrativa épica.
🌵 A inspiração ganhou forma em um momento inesperado na televisão. Durante um quadro do Domingão do Faustão, onde dividia a bancada de jurados com Elba Ramalho, o apresentador pediu que ambos cantassem de surpresa. No encontro entre o lírico e a força do sertão, surgiu o estalo: Ópera do Sertão. Faustão aprovou na hora e incentivou o tenor a desenvolver o projeto. Desde então, Arancam trabalha para transformar essa fusão em um espetáculo que amplie a voz do povo nordestino com a potência da ópera.
🎼 Entre os desafios artísticos, Arancam destaca o equilíbrio entre técnica e verdade popular. Ao adaptar canções como Disparada, o objetivo não foi “operatizar” a obra, mas expandir a emoção já presente nela. A equipe trabalhou orquestração, dinâmica e respiração cênica sem perder a essência da música brasileira de raiz. Para o tenor, o sertanejo é um herói resiliente, e levar essa figura para o palco com linguagem lírica é dar dimensão universal a uma história profundamente nacional.
🤝 O projeto também nasce com vocação coletiva. Arancam planeja convidar artistas regionais e nacionais para participações especiais em cada cidade por onde o espetáculo passar. A proposta é criar uma troca cultural viva, envolvendo corais, músicos locais e nomes que dialoguem com a estética do sertão. Essa construção colaborativa reforça a identidade de cada apresentação e aproxima ainda mais o público da experiência.
🚀 Para Arancam, a Ópera do Sertão tem potencial para aproximar novos públicos da ópera e, ao mesmo tempo, valorizar a música brasileira de raiz. Ao ouvir uma canção conhecida em roupagem sinfônica, o espectador entra no universo lírico quase sem perceber. É uma via de mão dupla: quem ama ópera descobre a profundidade da cultura popular, e quem ama música regional encontra novas camadas de emoção na estética erudita.
📸 Fotos: Torin Zanette
Entrevista exclusiva:
Realizamos a primeira entrevista da imprensa brasileira sobre o projeto Ópera do Sertão com Thiago Arancam, revelando bastidores, inspirações e os próximos passos dessa criação inédita. Acompanhe a partir de agora:
O que despertou em você a vontade de unir o canto lírico ao universo do sertão e da música regional brasileira?
A vontade nasceu de uma inquietação artística muito profunda. Eu sempre carreguei comigo duas paixões: a ópera, que é minha formação, e a música brasileira, que é minha raiz, minha memória afetiva. O sertão tem uma dramaticidade própria, uma poesia forte, quase épica… e isso dialoga diretamente com a linguagem operística. Em determinado momento da minha trajetória, senti que era hora de unir esses dois mundos e contar a história do nosso povo com a grandiosidade da ópera.
Como foi o processo de adaptação de canções como Disparada para uma estética operística sem perder a força original da obra?
Foi um processo de muito respeito à obra original. Disparada já tem uma carga dramática imensa, quase cinematográfica. O que fizemos não foi “operatizar” a música, mas expandir a emoção que ela já carrega. Trabalhamos orquestração, dinâmica, respiração cênica… mas preservando a essência, a verdade do texto e da interpretação. A ideia sempre foi somar, nunca descaracterizar
De que maneira o projeto Ópera do Sertão dialoga com a figura do homem sertanejo e suas lutas, resistências e afetos?
O Ópera do Sertão é, antes de tudo, um retrato humano. Ele fala do homem simples, da mulher forte, da seca, da fé, do amor, da perda e da esperança. O sertanejo é um herói brasileiro resistente, resiliente, poético mesmo na dor. Quando levo isso para o palco com a linguagem lírica, eu amplio essa voz, dou dimensão universal a uma história que é profundamente nossa.
Quais foram os maiores desafios artísticos e técnicos ao interpretar temas tão marcados pela cultura popular dentro de uma linguagem lírica?
O maior desafio foi encontrar o equilíbrio. O canto lírico tem técnica, projeção, impostação… mas a música popular pede proximidade, fala direta. Então precisei construir uma ponte entre esses dois lugares. Nem excessivamente erudito, nem popular demais a ponto de perder a estética proposta. Foi um trabalho de lapidação vocal e, principalmente, de interpretação.
Você acredita que esse projeto pode aproximar novos públicos da ópera e, ao mesmo tempo, valorizar ainda mais a música brasileira de raiz?
Sem dúvida. Esse é um dos grandes propósitos do projeto. Quando alguém chega para ouvir uma canção que já conhece — como Disparada — dentro de uma roupagem sinfônica e operística, essa pessoa entra no universo lírico quase sem perceber. E, ao mesmo tempo, o público da ópera passa a olhar com mais profundidade para a música brasileira de raiz. É uma via de mão dupla de valorização cultural.
Você pretende convidar artistas regionais ou mesmo nacionais para participar do projeto?
Sim, com certeza. O Ópera do Sertão é um projeto vivo, coletivo. A ideia é que em cada cidade possamos ter participações especiais — artistas regionais, corais locais, músicos convidados — além de nomes nacionais que dialoguem com a proposta. Isso fortalece a identidade de cada apresentação e cria uma troca cultural muito rica no palco.