quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

#SendoProsperidade com Mariângela Borba

Quando faltam casas e sobram feridas: Quaresma, linguagem e responsabilidade estrutural

Jejum de palavras, moradia e o adoecimento silencioso do Brasil

Por Mariângela Borba

A Quaresma de 2026 — iniciada neste 18 de fevereiro, na Quarta-feira de Cinzas, e que se estende até 2 de abril, Quinta-feira Santa — retoma o chamado clássico à oração, ao jejum e à caridade. O profeta Joel ecoa: “Voltai para mim de todo o vosso coração” (Jl 2,12-13).

Mas neste ano, um apelo específico atravessou o período litúrgico: o Papa Leão XIV recordou que jejuar não é apenas retirar alimento do prato. É jejuar da aspereza. Do julgamento precipitado. Das palavras que esmagam. Dos cancelamentos e bloqueios que substituem diálogo por descarte. Do impulso de ferir para vencer.

Jejuar da linguagem violenta.

A princípio, parece orientação espiritual. Mas, no nosso  Brasil de 2026, isso é também política pública indireta.

A violência começa antes da estatística

 

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o país registrou 1.463 feminicídios em 2023 — o maior número da série histórica. Em média, quatro mulheres são assassinadas por dia. Mais de 70% desses crimes são cometidos por parceiros ou ex-parceiros.

O Atlas da Violência aponta que os homicídios femininos permanecem em patamar estruturalmente desigual e podem ultrapassar 4.400 mortes anuais quando considerados casos mal classificados. As notificações de violência doméstica cresceram 22,7% em 2023 — dado que especialistas reconhecem como estágio inicial de um ciclo conhecido: insulto, controle, humilhação, isolamento, agressão física e, em casos extremos, morte.

A violência não nasce no ato final. Ela amadurece no cotidiano.

Nos últimos meses, casos extremos revelaram um colapso relacional preocupante: filhos que matam pais e atentam contra a própria vida; pais que assassinam filhos para atingir ex-companheiras; agressões brutais em espaços públicos como a ocorrida numa lancha durante o desfile do Galo da Madrugada, no Recife. Episódios distintos, atravessados pelo mesmo fio: incapacidade de lidar com frustração e recurso à violência como resposta emocional.

A desumanização começa na palavra.

Quando a casa deixa de ser abrigo

A Campanha da Fraternidade 2026 recoloca um tema estrutural no centro do debate: moradia, sob o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14).

O Brasil enfrenta déficit habitacional superior a 6 milhões de moradias, segundo a Fundação João Pinheiro. Superlotação, precariedade estrutural e insegurança financeira produzem estresse contínuo. E estresse contínuo fragiliza vínculos.

A casa deveria ser núcleo de proteção. Para muitas mulheres, tornou-se o local de maior risco. Quando faltam casas dignas, sobram tensões silenciosas. Quando falta estabilidade, cresce o descontrole. Quando vínculos se deterioram, a violência encontra terreno.

Moradia é política urbana. Mas também é saúde mental.

Cultura da agressividade e normalização simbólica

Em ano eleitoral, a retórica beligerante amplia o problema. Quando o discurso público normaliza agressividade, o limite do aceitável desloca-se. A palavra constrói cultura. E cultura sustenta práticas.

Narrativas que relativizam agressões verbais ou naturalizam a submissão feminina funcionam como combustível simbólico. Aquilo que era exceção vira rotina. O que era absurdo vira opinião aceitável.

Jejuar palavras ofensivas, portanto, não é gesto intimista. É ato civilizatório.

Não basta jejuar do prato se permanecemos fartos de sarcasmo, ataques, ironias cruéis e indiferença afetiva.

Doutrina Social da Igreja e responsabilidade estrutural

 

A Doutrina Social da Igreja recorda princípios permanentes: dignidade da pessoa humana, bem comum, solidariedade, subsidiariedade e destinação universal dos bens. Fé e justiça social não são compartimentos estanques.

A redução da violência depende de políticas públicas consistentes: investimento em educação, rede de proteção, aplicação da lei, habitação digna. Onde há omissão, a engrenagem se perpetua.

Mas há também um ponto anterior à política: autorresponsabilidade afetiva.

Não sustentar relações baseadas em indiferença.

Não normalizar humilhações.

Não romantizar ciúmes possessivos.

Não utilizar silêncio como punição emocional.

Cancelamentos e bloqueios podem parecer respostas modernas. Muitas vezes são apenas a versão digital da ruptura agressiva, da incapacidade de diálogo e do descarte humano.

Entre conversão interior e reconstrução social

O Brasil não está apenas violento. Está emocionalmente desregulado.

A Quaresma, então, deixa de ser rito isolado e se torna convite público: revisar impulsos, rever posturas, reconstruir estruturas. Fé que não toca a realidade vira retórica. Política que ignora o interior humano vira remendo.

Se a palavra que agride inicia o ciclo, a palavra que respeita pode interrompê-lo.

Se a casa é o primeiro espaço de convivência, é ali que começa a cultura de paz — ou a cultura de destruição.

Entre espiritualidade e política pública existe um ponto de encontro.

Ele começa na linguagem.

Ele atravessa a moradia.

Ele exige responsabilidade coletiva.

Talvez prosperidade — no sentido mais profundo — seja exatamente isso: transformar casas em lares e discursos em pontes.

E isso começa dentro de casa.

Mariângela Borba é jornalista diplomada, especialista em Cultura Pernambucana, produtora cultural e estrategista digital. Atuou no Ministério da Cultura e em gestões públicas municipais, integra a AIP e a UBE e tem formação em Doutrina Social da Igreja. Pesquisa a palavra como território político e relacional na interseção entre comunicação, cultura e direitos humanos. Dedica-se atualmente aos estudos da Psicanálise.



🎭 Recife Explode em Alegria: Carnaval do Futuro Conquista 3,7 Milhões de Foliões e Injeta R$ 2,8 Bilhões na Economia


🎉 Em seis dias de folia intensa, o Recife provou mais uma vez que é referência nacional no Carnaval. A festa reuniu mais de 3,7 milhões de pessoas nos 50 polos espalhados pela cidade, injetando impressionantes R$ 2,8 bilhões na economia local e gerando 60 mil empregos temporários. O resultado da gigantesca operação foi celebrado nas ruas: 99% dos foliões aprovaram a experiência momesca oferecida pela capital pernambucana. Com mais de três mil atrações, sendo 98% de artistas e brincantes pernambucanos, o Carnaval do Futuro entregou diversidade cultural, inclusão social e uma celebração que já entrou para a história da cidade.

🏨 A movimentação turística bateu recordes históricos e consolidou o Recife como destino obrigatório no calendário carnavalesco brasileiro. A rede hoteleira registrou impressionantes 97% de ocupação, enquanto o Aeroporto Internacional Gilberto Freyre movimentou mais de 502 mil passageiros com o apoio de 150 voos extras, representando aumento de quase 8% em relação ao ano anterior. A estadia média dos visitantes foi de 5,15 dias, com mais de 70% permanecendo cinco dias ou mais na cidade, demonstrando o potencial do Carnaval como indutor de permanência prolongada e circulação econômica. Outro dado revelador aponta que 51% dos turistas vivenciaram o Carnaval do Recife pela primeira vez, evidenciando a capacidade de renovação do público e ampliação do alcance da festa.

🎪 A cultura popular ganhou protagonismo absoluto com mais de 250 blocos, troças, bois, ursos, caboclinhos, afoxés e maracatus desfilando suas tradições pelas ruas e passarelas da cidade. O novo Circuito Leda Alves, que iniciou seus desfiles ainda em janeiro, abriu alas para agremiações de todas as modalidades pelas ruas do Bairro do Recife, saindo do Cais da Alfândega e desembocando na Praça do Arsenal. O tradicional Concurso de Agremiações recebeu 332 brinquedos e milhares de brincantes inscritos, enquanto agremiações históricas como Pierrot de São José, Bloco da Saudade, Caboclinho Tupinambá, Maracatu Piaba de Ouro e o homenageado Madeira do Rosarinho emocionaram o público. O Carnaval também recebeu o reforço luxuoso de grandes blocos da região metropolitana como Eu Acho é Pouco, Ceroula, Pitombeira, Cariri Olindense e Homem da Meia Noite.

🎤 O Marco Zero estreou o maior palco de todos os tempos nos carnavais recifenses: 70 metros de comprimento na fachada e inéditos 18,5 metros de altura, com moldura coberta por painéis de LED em quantidade recorde, 30% maior que no ano anterior. A estrutura monumental emoldurou apresentações históricas como o show de Liniker com participações de Priscila Senna e Amaro Freitas, além do apoteótico desfile da boneca gigante da cantora. A estreia de Alok trouxe efeitos pirotécnicos, fogos de artifício e uma surpreendente coreografia de mais de 200 drones iluminando o céu. O homenageado Lenine emocionou com sucessos e encontros inesquecíveis, enquanto João Gomes comandou um "Dominguinho" aclamado ao lado de Mestrinho e Jota.pê. Iza, Vanessa da Mata, Seu Jorge, Sorriso Maroto, Alceu Valença, Geraldo Azevedo e Elba Ramalho completaram a programação estelar que celebrou a música pernambucana em todas as suas vertentes.

🍴 As novidades do Carnaval 2026 foram pensadas para entregar mais conforto, acessibilidade e inclusão aos foliões. A Nova Arena Gastronômica migrou para o Armazém 14 com estrutura totalmente climatizada, reunindo 14 restaurantes com menus variados e acessíveis em parceria com a Abrasel-PE. O espaço funcionou entre os dias 12 e 17 de fevereiro com mesas constantemente ocupadas, serviços como caixa eletrônico 24 horas, achados e perdidos, e área dedicada ao público infantil com fraldário e recreação. Pela primeira vez, foram instalados 46 banheiros femininos e 8 para famílias e/ou pessoas com deficiência na Avenida Rio Branco. O Polo do Samba ganhou nova localização na cabeceira da Ponte Giratória com programação caprichada, enquanto os pequenos foliões receberam um polo inédito no Parque Eduardo Campos, somando-se a outros seis polos infantis distribuídos pela cidade.

🤝 A solidariedade também marcou presença no Carnaval do Futuro com o estacionamento solidário, onde foliões que utilizaram os edifícios da Prefeitura, Tribunal Regional Federal e Tribunal Regional do Trabalho puderam doar alimentos não perecíveis. Mais de três toneladas de alimentos foram arrecadadas e destinadas a 22 instituições parceiras, beneficiando mais de 29 mil pessoas em situação de vulnerabilidade social. A Casa do Pequeno Folião realizou 314 acolhimentos, enquanto o Espaço do Catador registrou 853 acolhimentos, 20% a mais que no ano anterior. Os Espaços de Proteção do PETI tiveram crescimento de 40% nos acolhimentos, atingindo 254 atendimentos. O PIT STOP Fica de Boa, localizado na Avenida Alfredo Lisboa, funcionou como ambiente de acolhimento e descompressão para pessoas com mal-estar físico ou emocional associado ao uso de álcool e outras substâncias psicoativas.

🚔 A segurança e organização foram garantidas pela atuação integrada de mais de 10 mil servidores municipais e pelo Centro de Operações do Recife (COP), que funcionou presencialmente no Marco Zero pelo terceiro ano consecutivo. Dezesseis órgãos e secretarias da gestão municipal, além de entidades parceiras, coordenaram em tempo real a resolução de ocorrências e serviços oferecidos à população, utilizando 498 câmeras de monitoramento compartilhadas com as forças de segurança. A Guarda Municipal realizou 2.036 intervenções, enquanto o sistema Alerta Celular registrou 207 ocorrências. O clima de tranquilidade nos principais focos resultou em impressionante redução de 48% nas autuações de trânsito e 67% nos sinistros no entorno da folia. Os serviços de saúde realizaram 5.711 atendimentos médicos, distribuíram cerca de 362 mil preservativos e testaram 1.047 pessoas para ISTs, demonstrando o cuidado integral com os foliões.

🎥 A TV Conecta Recife levou a magia do Carnaval para o mundo com números grandiosos: 48 horas de transmissão ao vivo do Marco Zero e polos descentralizados, 15 câmeras capturando todos os momentos, totalizando mais de 149 milhões de visualizações em todas as mídias digitais, aumento de 11% em relação a 2025. A celebração recifense alcançou 82 países, incluindo Portugal, Estados Unidos e Argentina, enquanto 27 milhões de pessoas foram impactadas nas redes sociais. Uma equipe de 40 profissionais trabalhou intensamente para garantir transmissão de qualidade através de celulares, computadores e televisores. Pelo quarto ano consecutivo, a TV montou pool de geração com links gratuitos para 25 veículos de comunicação, incluindo TV Globo, Band Folia, TV Pernambuco/Cultura e Rádio Jornal. No backstage do palco principal, os apresentadores realizaram mais de 38 entrevistas ao vivo com artistas, autoridades e organizadores, além de produzirem 32 reportagens especiais mostrando curiosidades e serviços da maior festa popular do Recife.

♿ A acessibilidade e os direitos humanos foram prioridade absoluta na organização do evento, demonstrando o compromisso do Recife com a inclusão de todos os públicos. Os Camarotes de Acessibilidade no Galo da Madrugada, Marco Zero, Arsenal, Cais da Alfândega e Polo do Samba beneficiaram 853 pessoas, enquanto 115 usuários foram atendidos pela Rota Acessível. O cuidado com as crianças bateu recordes: 19.034 pequenos foliões receberam pulseiras de identificação, crescimento de 40% em relação ao ano anterior, e 695 crianças foram atendidas no espaço Primeira Infância. Todas as apresentações do Marco Zero contaram com tradução em Libras, garantindo que pessoas surdas pudessem acompanhar integralmente os shows. A Central da Mulher no Carnaval recebeu mais de 8 mil visitas, distribuiu 183.300 leques com mensagens educativas e 26 mil manuais "Como não ser um Babaca no Carnaval", reforçando campanhas de respeito e combate ao assédio durante a folia.

♻️ A sustentabilidade ambiental também foi destaque na operação carnavalesca, com mais de 1.950 pessoas envolvidas na operação de limpeza que recolheu mais de 500 toneladas de lixo durante os seis dias de festa. Um dado especialmente positivo foi a coleta de 41 toneladas de material reciclável, representando crescimento de 48% em relação ao ano anterior e demonstrando maior consciência ambiental tanto da organização quanto dos foliões. Foram utilizados 2.450.000 litros de água na limpeza dos polos de folia, garantindo que a cidade amanhecesse limpa todos os dias. Para proteger o patrimônio histórico do Bairro do Recife, foram instalados quase 20 mil metros quadrados de tapumes, preservando fachadas e monumentos dos danos inevitáveis da grande circulação de pessoas. A operação de transporte também foi eficiente: 17,6 mil veículos foram atendidos nos estacionamentos públicos, milhares de passageiros utilizaram o Expresso Folia e 19 mil pessoas foram transportadas dos polos aos estacionamentos.

📱 A inovação tecnológica presente no aplicativo Conecta Folião facilitou a experiência dos participantes e fortaleceu as conexões entre foliões durante toda a festa. A plataforma registrou 14.661 perfis criados, milhares de atrações favoritadas e inúmeras conexões e figurinhas trocadas entre usuários, criando uma rede social exclusiva do Carnaval. A Ouvidoria aplicou 2.621 questionários para captar a percepção dos foliões sobre a festa, aumento de cerca de 25% em relação ao ano anterior, enquanto 53 pessoas foram atendidas presencialmente na Central. O Procon Recife atendeu 1.073 pessoas, garantindo a proteção dos direitos dos consumidores durante o evento. A pesquisa de satisfação revelou índices extraordinários: 95% dos entrevistados afirmaram que a festa superou as expectativas, enquanto impressionantes 98,4% pretendem voltar no próximo ano e recomendariam o Carnaval do Recife a amigos e familiares, consolidando definitivamente a capital pernambucana como destino de referência no período momesco.