segunda-feira, 23 de março de 2026

#SendoProsperidade com Mariângela Borba

Entre a Encarnação e a Ressurreição: a fé que se faz morada — em memória de Padre Romeu da Fonte

Por Mariângela Borba.

 

Na tarde deste domingo, 22 de março, a Arquidiocese de Olinda e Recife se despediu de Padre Romeu da Fonte, o sacerdote mais antigo em atividade e longevo de sua história recente.

Antes dele, o primeiro com quem convivi — também marcado pela longevidade — foi o Monsenhor Airton Guedes, a quem eu, ainda criança, chamava carinhosamente de “Guedinho”. Ele ria e me respondia: “menina”.  À época, era reconhecido como o padre em exercício mais antigo do mundo e faleceu aos 102 anos. Dois encontros que, de formas distintas, me ensinaram sobre presença e permanência.

Para além de sua trajetória institucional, sua presença permanece inscrita em muitas memórias — inclusive na minha.

Foi com ele que aprendi a cantar a Salve Rainha. Ainda criança, tímida, mas tocada pela beleza daquele gesto, eu cantava. E minha avó, Cármen, sempre pedia que eu repetisse quando ia à casa dela — emocionada. Havia ali algo que ultrapassava a oração: era afeto, transmissão de fé, vínculo.

Anos depois, no dia do sepultamento dela, foi essa mesma oração que me sustentou. E eu cantei novamente. Não como repetição, mas como reconhecimento de um laço que não se desfaz.

Hoje, cada vez que ouço ou canto a Salve Rainha, não se trata apenas de lembrança. É presença.

Minha avó.

Padre Romeu.

Mamãe, que me conduzia à igreja junto com papai e meu irmão.

Uma história que permanece.

Talvez seja justamente essa experiência — de uma presença que não se perde — que ajude a compreender, de forma mais concreta, um dos fundamentos da fé cristã.

“Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14).

O lema da Campanha da Fraternidade 2026, proposta pela CNBB, retoma essa afirmação central ao recolocar em pauta o sentido da Encarnação como presença real de Deus na história humana.

À luz do Evangelho de João, a tradição da Igreja Católica compreende que Encarnação e Ressurreição não são eventos isolados, mas dimensões inseparáveis de um único mistério de salvação.

Não se trata de escolher entre uma ou outra.

A Encarnação torna possível a Ressurreição.

E a Ressurreição revela o sentido pleno da Encarnação.

O prólogo de João apresenta essa verdade com profundidade: “No princípio era o Verbo… e o Verbo era Deus” (Jo 1,1). E é esse Verbo que “se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1,14). A tradição católica interpreta esse gesto como Deus que “arma sua tenda” na humanidade — não de forma simbólica, mas concreta, histórica, encarnada.

Ao assumir a condição humana — exceto o pecado — Cristo se aproxima das dores reais do mundo: dos pobres, dos doentes, dos que não têm lugar. Sua presença revela que a fé cristã não se constrói à margem da realidade, mas dentro dela.

É essa Encarnação que torna possível a Ressurreição.

No capítulo 20 do Evangelho de João, a Ressurreição aparece como plenitude desse caminho. Cristo ressuscita em corpo e alma, reafirmando a dignidade da vida humana em sua totalidade. Ao aparecer a Maria Madalena e aos discípulos — incluindo Tomé —, revela que não abandona os seus, mas permanece.

Na perspectiva joanina, paixão, morte e ressurreição constituem a “hora” de Jesus: um único movimento de entrega e glorificação. A cruz não é derrota, mas passagem. A morte não encerra — transforma.

A Encarnação permite que Deus assuma a morte humana.

A Ressurreição revela que essa morte não tem a última palavra.

Essa compreensão ilumina diretamente o tema da moradia, central na reflexão da Campanha da Fraternidade.

Se Deus escolhe habitar entre nós, a ausência de moradia digna deixa de ser apenas um problema social e passa a interpelar a consciência ética, política e espiritual.

A casa não é somente estrutura física. É espaço de formação, de convivência e de transmissão de valores. É onde se aprende — muitas vezes com pais e avós — os fundamentos da vida comunitária: respeito, solidariedade, amor.

Negar esse direito é comprometer a própria dignidade humana.

Nesse sentido, a Doutrina Social da Igreja aponta responsabilidades claras. Cabe ao poder público garantir políticas habitacionais que assegurem condições dignas de vida. Mas também interpela a sociedade a construir relações mais justas, solidárias e comprometidas com o bem comum.

Não se trata apenas de construir casas.

Trata-se de garantir pertencimento.

E, de algum modo, essa compreensão também retorna ao campo da memória.

Porque há moradas que não são feitas de paredes —

mas de vínculos, de fé, de experiências que permanecem.

Hoje, quando canto a Salve Rainha, sei que não canto só.

Canto com a lembrança da minha avó.

Canto com aquilo que aprendi com Padre Romeu.

Canto com tudo o que, de alguma forma, ainda habita em mim.

À luz da fé cristã, essa permanência encontra sentido na própria Ressurreição — que não apaga a história vivida, mas a transfigura.

Como professa o Credo Niceno-Constantinopolitano, “e o seu Reino não terá fim”.

Prosperar, então, é isso:

construir moradas dignas no mundo —

e preservar, com ternura, as moradas que o amor edificou em nós.

Mariângela Borba é jornalista diplomada, especialista em Cultura Pernambucana, produtora cultural e estrategista digital. Atuou no Ministério da Cultura, em redações e emissoras de rádio, TV e jornais, além de integrar gestões públicas municipais.

Integra a AIP e a UBE e possui formação também em Doutrina Social da Igreja. Pesquisa a palavra como território político e relacional, na interseção entre comunicação, cultura e direitos humanos.

Dedica-se atualmente aos estudos da Psicanálise, investigando as relações entre linguagem, memória e experiência social.