segunda-feira, 4 de maio de 2026

#SendoProsperidade com Mariângela Borba


Michael Jackson não vendia música. Vendia desejo
*Por Mariângela Borba 

Na última semana estreou nos cinemas o filme sobre Michael Jackson. Mas antes que pensem que vim aqui apenas para falar sobre música, polêmicas, sobre o pai — que, gostem ou não, teve papel decisivo na disciplina e na construção artística que o levou onde chegou — ou sobre o famoso “moonwalk”, preciso avisar: estão muito enganados.

Quero falar sobre outra coisa.

Sobre comunicação. Sobre presença. Sobre desejo.
Porque a verdade é que Michael Jackson não vendia apenas música. Ele vendia emoção, expectativa, experiência. Vendia presença como ninguém antes — e talvez ninguém depois dele.

E existe um episódio que resume isso de maneira brilhante.

No Super Bowl XXVII Halftime Show, diante de cerca de 133 milhões de espectadores, Michael entrou no palco e simplesmente ficou parado. Imóvel. Em silêncio. Por quase dois minutos.

Sem cantar. Sem dançar. Sem dizer uma palavra.
E a plateia enlouqueceu.

Nos bastidores, a produção entrou em tensão sem entender exatamente o que estava acontecendo ou quando ele finalmente começaria o show. Mas o show já havia começado. E Michael sabia disso.

Aquela apresentação mudou a história do próprio Super Bowl. Pela primeira vez, a audiência aumentou durante o intervalo. Antes dele, o “halftime show” era tratado quase como um preenchimento, frequentemente ocupado por bandas marciais. Depois de Michael, vieram artistas como Beyoncé, Rihanna e Kendrick Lamar. O evento precisou repensar completamente o conceito de espetáculo.

Tudo por causa de um homem que ficou parado por dois minutos.

E é exatamente aí que mora a genialidade.

Michael era um gênio musical, claro. Cantava, dançava e performava como poucos na história. Mas ele também compreendia algo que muita gente ainda não entendeu: o silêncio comunica. E, às vezes, comunica muito mais do que qualquer palavra.

A pausa antes do “moonwalk”. A respiração antes do refrão. O olhar antes do gesto.

Nada era por acaso.

Tudo era pensado para fazer o público sentir antes mesmo de ouvir.

E talvez a psicanálise explique parte desse fenômeno.
Jacques Lacan dizia que o desejo humano nasce justamente da falta, da espera, daquilo que nunca se entrega completamente. Michael Jackson parecia compreender isso intuitivamente. Enquanto muitos artistas precisavam preencher todos os espaços com som, movimento e excesso, ele entendeu o valor simbólico da pausa.

O silêncio criava tensão. A espera criava expectativa. A ausência momentânea aumentava o desejo pela presença.

Michael sabia que presença não é excesso. Presença é tensão.

E talvez por isso multidões entrassem em estado de fascínio apenas ao vê-lo surgir no palco.

A psicanálise também fala sobre o poder do olhar. Para Lacan, o olhar não é apenas aquilo que vemos, mas aquilo que nos captura. Michael não apenas era visto; ele organizava o olhar coletivo ao redor de si. Bastavam uma luva, um chapéu, a jaqueta vermelha ou até a silhueta parada no palco para que todos soubessem exatamente quem estava ali.

Antes mesmo de cantar, ele já havia comunicado.
E é aí que está uma das maiores lições deixadas por Michael Jackson: tudo comunica.

A roupa comunica. O silêncio comunica. O corpo comunica. A forma como você entra em um ambiente comunica. O modo como olha, como pausa, como sustenta a própria presença… tudo comunica.

Por isso é tão curioso perceber como ainda insistimos em acreditar que comunicação é apenas falar bem.

Não é.

Comunicação é tudo aquilo que acontece entre você e quem está te observando.

Michael entendia isso como poucos. Talvez por isso tenha transformado cada apresentação em uma experiência emocional impossível de esquecer.

E não era só ele.

Madonna também compreendeu cedo que artistas pop daquela geração não vendiam apenas canções; vendiam identidade, fantasia, desejo, transgressão e presença simbólica. O pop dos anos 80 e 90 era profundamente imagético. Os artistas se transformavam em símbolos culturais reconhecíveis instantaneamente. Mais do que músicas, criavam universos emocionais.

Michael fazia isso através do mistério, do silêncio e da construção quase mítica da própria imagem. Madonna fazia através da provocação, da reinvenção e do enfrentamento de padrões.

Ambos entenderam algo fundamental: pessoas não se conectam apenas com produtos. Pessoas se conectam com significado.

Aliás, essa percepção dialoga diretamente com autores clássicos da comunicação não verbal, como Pierre Weil e Roland Tompakow, no clássico O Corpo Fala, ao defenderem que gestos, posturas, silêncios e expressões comunicam tanto quanto — ou até mais — do que palavras.

Da mesma forma, estudiosos da comunicação e da psicologia social, como Erving Goffman, já analisavam a vida social como uma espécie de palco simbólico, no qual construímos imagens, performances e modos de presença diante do outro.

Michael Jackson transformou isso em arte.
Por isso, quando você for assistir ao filme — se é que já não assistiu — faça um exercício diferente: observe tudo aquilo que acontece enquanto Michael não está cantando.

A entrada. A pausa. O olhar. O silêncio.
Ali existe uma verdadeira aula de comunicação.
Porque Michael Jackson não falava apenas com a voz.
Ele falava com a ausência. Com a espera. Com o símbolo. Com o impacto.

E talvez seja exatamente por isso que continue tão presente, mesmo anos depois de sua partida.

*Mariângela Borba é jornalista, produtora cultural e estrategista digital. Especialista em Cultura Pernambucana, atua na interseção entre comunicação, cultura e política. Com passagem pelo Ministério da Cultura e gestões públicas, integra a AIP e a UBE. Pesquisa a palavra como território de poder e estuda Psicanálise.