domingo, 31 de maio de 2026

#SendoProsperidade com Mariângela Borba

SENDO PROSPERIDADE

Entre algoritmos, jornadas e humanidade: o que ainda estamos tentando preservar?

 

A discussão sobre a escala 6x1 talvez diga muito mais sobre o nosso tempo do que aparenta à primeira vista.

Em tese, fala-se de economia, produtividade, mercado de trabalho e impacto fiscal. Na prática, porém, o debate toca numa questão muito mais profunda: até que ponto uma sociedade aceita normalizar o esgotamento humano em nome da eficiência?

Nos últimos dias, especialistas, empresários e formadores de opinião passaram a tratar a possível redução da jornada quase como ameaça inevitável à estabilidade econômica. O argumento não é novo. Desde os primeiros direitos trabalhistas, o medo do desemprego aparece como instrumento de contenção social.

Foi assim diante das férias remuneradas. Do descanso semanal. Da limitação da jornada. Do décimo terceiro salário. Da licença maternidade.

A cada avanço social, repetia-se a mesma previsão: os custos seriam insuportáveis, a produtividade cairia e a economia sofreria consequências irreversíveis.

Mas a história raramente avança apenas pela lógica da eficiência. Ela também se move pela necessidade de reconhecer limites humanos.

E talvez estejamos novamente diante disso.

A pandemia deixou marcas difíceis de ignorar. Ela expôs um adoecimento silencioso que já atravessava o mundo do trabalho: ansiedade, burnout, transtornos de pânico, exaustão emocional e a sensação permanente de insuficiência. Descobrimos, de forma brutal, que produtividade sem saúde não sustenta sociedades saudáveis.

Curiosamente, essa não é uma preocupação nova.

Em 1891, diante dos excessos da Revolução Industrial, a encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII, já alertava para os riscos de reduzir o trabalhador à condição de peça da engrenagem econômica. Mais de um século depois, a recente Magnifica Humanitas, de Leão XIV, recoloca a dignidade humana no centro de outra transformação histórica: a revolução digital e a ascensão da inteligência artificial.

O cenário mudou. A pergunta permanece.

Se antes o risco era transformar o homem em extensão da máquina industrial, hoje talvez o perigo seja convertê-lo em estatística, desempenho, disponibilidade permanente e dado algorítmico.

Ao defender transparência, responsabilidade ética, regulação em áreas sensíveis, combate à concentração de poder tecnológico e respeito à dignidade humana, Leão XIV resgata uma questão essencial: nem toda eficiência é necessariamente civilizatória.

A obsessão contemporânea pela maximização — de lucro, desempenho, produtividade ou controle — pode produzir sociedades tecnologicamente avançadas e, ao mesmo tempo, profundamente esgotadas.

Talvez os efeitos disso já estejam aparecendo silenciosamente dentro das próprias casas.

Uma sociedade que normaliza o esgotamento tende também a educar para ele.

Muitos adultos, acostumados a viver sob a lógica da produtividade permanente, acabam transmitindo às crianças e adolescentes a mesma ansiedade de desempenho. Agendas lotadas, excesso de estímulos, pouca convivência familiar e uma noção precoce de que valor pessoal depende de resultados.

Sem perceber, passamos a formar indivíduos treinados para performar, mas nem sempre preparados para compreender quem são.

As consequências costumam aparecer mais tarde.

Em um mercado cada vez mais competitivo, muitos profissionais exercem não aquilo que escolheriam por vocação, mas o que as circunstâncias econômicas determinaram como mais rentável ou socialmente valorizado.

Pode trazer estabilidade.

Pode oferecer reconhecimento.

Pode proporcionar conforto material.

Mas nem sempre produz sentido.

É nesse ponto que a reflexão de Viktor Frankl se torna particularmente atual. Sobrevivente dos campos de concentração nazistas e fundador da Logoterapia, ele defendia que o ser humano não sofre apenas pela dor, mas também pela ausência de significado.

Talvez parte do mal-estar contemporâneo nasça justamente daí: quando a vida passa a ser medida apenas por metas, desempenho e produtividade, enquanto descanso, vínculos, contemplação e propósito parecem perder legitimidade social.

A questão não é rejeitar o progresso.

Desde a Antiguidade, pensadores se perguntam o que constitui uma vida verdadeiramente boa. Séculos depois, Santo Tomás de Aquino reafirmaria que a inteligência humana encontra sua plenitude quando orientada ao bem comum. O desafio contemporâneo talvez não seja produzir máquinas cada vez mais inteligentes, mas garantir que a inteligência — humana ou artificial — continue servindo à pessoa, e não o contrário.

As grandes encíclicas sociais costumam surgir justamente em momentos decisivos da história.

A Rerum Novarum diante da industrialização acelerada.

A Quadragesimo Anno após a Grande Depressão.

A Pacem in Terris sob a sombra da corrida nuclear.

A Populorum Progressio em meio aos debates sobre desenvolvimento e subdesenvolvimento.

A Centesimus Annus após o colapso do socialismo estatista.

A Laudato Si' diante da crise ambiental.

Agora, a Magnifica Humanitas surge em plena era algorítmica, quando o poder tecnológico alcança níveis sem precedentes.

Talvez por isso suas reflexões mereçam ser ouvidas não apenas pelos católicos, mas por todos aqueles que se preocupam com o futuro da condição humana.

No fundo, a pergunta continua sendo a mesma:

como preservar a humanidade em tempos de transformação acelerada?

Talvez a resposta não esteja em trabalhar mais horas, responder mais rápido ou produzir mais dados.

Talvez prosperidade também seja isto:

ter tempo,

ter saúde,

ter descanso,

ter vínculos,

ter sentido.

Porque nenhuma sociedade se sustenta indefinidamente quando transforma exaustão em virtude moral.

E nenhum avanço tecnológico será realmente grandioso se o preço final for o empobrecimento da experiência humana.

Leituras e reflexões que inspiraram este texto: as encíclicas Rerum Novarum (1891) e Magnifica Humanitas (2026), a obra de Viktor Frankl, especialmente Em Busca de Sentido, o pensamento clássico sobre o bem comum e a Doutrina Social da Igreja, que seguem iluminando debates sobre dignidade humana, tecnologia, poder e desenvolvimento.

Mariângela Borba é jornalista, produtora cultural e estrategista digital. Especialista em Cultura Pernambucana, atua na interseção entre comunicação, cultura e política. Com passagem pelo Ministério da Cultura e gestões públicas, integra a AIP e a UBE. Pesquisa a palavra como território de poder e estuda Psicanálise.