SENDO PROSPERIDADE
Entre algoritmos, jornadas e humanidade: o que ainda
estamos tentando preservar?
A discussão sobre a escala 6x1 talvez diga muito mais sobre o nosso tempo do
que aparenta à primeira vista.
Em tese, fala-se de economia, produtividade, mercado de trabalho e impacto
fiscal. Na prática, porém, o debate toca numa questão muito mais profunda: até
que ponto uma sociedade aceita normalizar o esgotamento humano em nome da
eficiência?
Nos últimos dias, especialistas, empresários e formadores de opinião
passaram a tratar a possível redução da jornada quase como ameaça inevitável à
estabilidade econômica. O argumento não é novo. Desde os primeiros direitos
trabalhistas, o medo do desemprego aparece como instrumento de contenção
social.
Foi assim diante das férias remuneradas. Do descanso semanal. Da limitação
da jornada. Do décimo terceiro salário. Da licença maternidade.
A cada avanço social, repetia-se a mesma previsão: os custos seriam
insuportáveis, a produtividade cairia e a economia sofreria consequências
irreversíveis.
Mas a história raramente avança apenas pela lógica da eficiência. Ela também
se move pela necessidade de reconhecer limites humanos.
E talvez estejamos novamente diante disso.
A pandemia deixou marcas difíceis de ignorar. Ela expôs um adoecimento
silencioso que já atravessava o mundo do trabalho: ansiedade, burnout,
transtornos de pânico, exaustão emocional e a sensação permanente de
insuficiência. Descobrimos, de forma brutal, que produtividade sem saúde não
sustenta sociedades saudáveis.
Curiosamente, essa não é uma preocupação nova.
Em 1891, diante dos excessos da Revolução Industrial, a encíclica Rerum
Novarum, do Papa Leão XIII, já alertava para os riscos de reduzir o
trabalhador à condição de peça da engrenagem econômica. Mais de um século
depois, a recente Magnifica Humanitas, de Leão XIV, recoloca a
dignidade humana no centro de outra transformação histórica: a revolução
digital e a ascensão da inteligência artificial.
O cenário mudou. A pergunta permanece.
Se antes o risco era transformar o homem em extensão da máquina industrial,
hoje talvez o perigo seja convertê-lo em estatística, desempenho,
disponibilidade permanente e dado algorítmico.
Ao defender transparência, responsabilidade ética, regulação em áreas
sensíveis, combate à concentração de poder tecnológico e respeito à dignidade
humana, Leão XIV resgata uma questão essencial: nem toda eficiência é
necessariamente civilizatória.
A obsessão contemporânea pela maximização — de lucro, desempenho,
produtividade ou controle — pode produzir sociedades tecnologicamente avançadas
e, ao mesmo tempo, profundamente esgotadas.
Talvez os efeitos disso já estejam aparecendo silenciosamente dentro das
próprias casas.
Uma sociedade que normaliza o esgotamento tende também a educar para ele.
Muitos adultos, acostumados a viver sob a lógica da produtividade
permanente, acabam transmitindo às crianças e adolescentes a mesma ansiedade de
desempenho. Agendas lotadas, excesso de estímulos, pouca convivência familiar e
uma noção precoce de que valor pessoal depende de resultados.
Sem perceber, passamos a formar indivíduos treinados para performar, mas nem
sempre preparados para compreender quem são.
As consequências costumam aparecer mais tarde.
Em um mercado cada vez mais competitivo, muitos profissionais exercem não
aquilo que escolheriam por vocação, mas o que as circunstâncias econômicas
determinaram como mais rentável ou socialmente valorizado.
Pode trazer estabilidade.
Pode oferecer reconhecimento.
Pode proporcionar conforto material.
Mas nem sempre produz sentido.
É nesse ponto que a reflexão de Viktor Frankl se torna particularmente
atual. Sobrevivente dos campos de concentração nazistas e fundador da
Logoterapia, ele defendia que o ser humano não sofre apenas pela dor, mas
também pela ausência de significado.
Talvez parte do mal-estar contemporâneo nasça justamente daí: quando a vida
passa a ser medida apenas por metas, desempenho e produtividade, enquanto
descanso, vínculos, contemplação e propósito parecem perder legitimidade
social.
A questão não é rejeitar o progresso.
Desde a Antiguidade, pensadores se perguntam o que constitui uma vida
verdadeiramente boa. Séculos depois, Santo Tomás de Aquino reafirmaria que a
inteligência humana encontra sua plenitude quando orientada ao bem comum. O
desafio contemporâneo talvez não seja produzir máquinas cada vez mais
inteligentes, mas garantir que a inteligência — humana ou artificial — continue
servindo à pessoa, e não o contrário.
As grandes encíclicas sociais costumam surgir justamente em momentos
decisivos da história.
A Rerum Novarum diante da industrialização acelerada.
A Quadragesimo Anno após a Grande Depressão.
A Pacem in Terris sob a sombra da corrida nuclear.
A Populorum Progressio em meio aos debates sobre desenvolvimento e
subdesenvolvimento.
A Centesimus Annus após o colapso do socialismo estatista.
A Laudato Si' diante da crise ambiental.
Agora, a Magnifica Humanitas surge em plena era algorítmica, quando
o poder tecnológico alcança níveis sem precedentes.
Talvez por isso suas reflexões mereçam ser ouvidas não apenas pelos
católicos, mas por todos aqueles que se preocupam com o futuro da condição
humana.
No fundo, a pergunta continua sendo a mesma:
como preservar a humanidade em tempos de transformação acelerada?
Talvez a resposta não esteja em trabalhar mais horas, responder mais rápido
ou produzir mais dados.
Talvez prosperidade também seja isto:
ter tempo,
ter saúde,
ter descanso,
ter vínculos,
ter sentido.
Porque nenhuma sociedade se sustenta indefinidamente quando transforma
exaustão em virtude moral.
E nenhum avanço tecnológico será realmente grandioso se o preço final for o
empobrecimento da experiência humana.
Leituras e reflexões que inspiraram este texto: as
encíclicas Rerum Novarum (1891) e Magnifica Humanitas (2026),
a obra de Viktor Frankl, especialmente Em Busca de Sentido, o
pensamento clássico sobre o bem comum e a Doutrina Social da Igreja, que seguem
iluminando debates sobre dignidade humana, tecnologia, poder e desenvolvimento.
Mariângela Borba é jornalista, produtora cultural e estrategista
digital. Especialista em Cultura Pernambucana, atua na interseção entre
comunicação, cultura e política. Com passagem pelo Ministério da Cultura e
gestões públicas, integra a AIP e a UBE. Pesquisa a palavra como território de
poder e estuda Psicanálise.