🎥 O novo curta-metragem de Tássia Dhur, Mercado Central, nasce de lembranças profundas da artista maranhense, que cresceu observando o movimento intenso do mercado de São Luís. “Eu sempre gostei muito de observar e estar ali no mercado central”, relembra. Para ela, o espaço é um território pulsante, onde “às vezes violências silenciosas, às vezes não tão silenciosas assim” convivem com histórias e personagens marcantes. Transformar essas memórias em ficção foi um gesto de coragem e afeto, que deu origem a uma narrativa que mistura realidade e imaginação.
🎬 A estreia no Cine-PE 2026 marca um momento especial na carreira da artista, que já frequentava o festival desde 2009. “Estar agora, depois de muitos anos no festival, parece que eu me realizo enquanto artista”, afirma. Para Tássia, vir do Maranhão e ocupar um espaço tradicional do cinema nacional reforça a importância de descentralizar o audiovisual. Ela destaca que “entrar nesses grandes festivais é muito importante para a gente que está há muitos anos nessa luta”.
🌫️ Em Mercado Central, o real e o fantástico se entrelaçam de forma orgânica, refletindo a pesquisa estética que acompanha seus últimos trabalhos. “O universo fantástico é uma consequência dos meus últimos trabalhos”, explica. A diretora vê esse elemento como uma extensão das características do próprio mercado, onde insalubridade, restos de comida e violências do entorno se misturam à ficção. “É sair um pouco da realidade, tratar essa realidade saindo um pouco do real”, resume.
🎭 Conciliar direção, roteiro, produção executiva e atuação já se tornou parte do processo criativo da artista. “Esse já é o meu terceiro curta com essa dinâmica”, diz ela, destacando a importância da equipe que a acompanha há anos. “São pessoas que eu confio muito para passar o olhar que eu queria.” Mesmo acumulando funções, Tássia preserva rituais de silêncio e escuta para se entregar à personagem, garantindo que a sensibilidade artística permaneça intacta.
🏚️ A estética do curta, marcada por espaços urbanos decadentes, reflete o compromisso da diretora em retratar lugares reais. “Às vezes tem essa decadência, mas são lugares reais e ricos de história”, afirma. Para ela, é essencial fugir de ambientes higienizados e preservar a autenticidade dos cenários. O filme se torna, assim, um retrato potente de um Brasil múltiplo, complexo e profundamente humano, que raramente ocupa o centro das telas.
🐆 À frente da Jaguatirica Filmes, Tássia tem consolidado uma produtora comprometida com narrativas maranhenses e com o universo feminino. “A Jaguatirica Filmes tem como objetivo produzir obras genuinamente maranhenses do meu universo feminino”, explica. Com três curtas realizados e o primeiro longa em montagem, a produtora se firma como um espaço de criação que valoriza identidades regionais. “Quero que outras pessoas conheçam nossas histórias, nossos atores, nosso sotaque.”
🗣️ Assumir o sotaque é, para Tássia, um ato político. “O Brasil não tem uma forma só de falar”, afirma, lembrando das dificuldades que enfrentou no início da carreira. Hoje, ela faz questão de preservar a forma maranhense de falar em seus roteiros e atuações. “Inclusive o que eu fiz na Netflix foi o meu sotaque”, destaca. Para ela, assumir essa identidade fortalece sua arte e amplia a diversidade do audiovisual brasileiro.
🎞️ Viabilizado pela Lei Paulo Gustavo, Mercado Central simboliza a importância das políticas públicas de fomento. “A Lei Paulo Gustavo é um marco no nosso cinema”, afirma. Para a diretora, a legislação tornou possível o que antes parecia distante: produzir curtas e longas com recursos adequados. “Veio valorizar diversas produções de diversos lugares do País”, celebra.
🚀 Com o longa-metragem já rodado e previsão de estreia para 2027, Tássia planeja uma trajetória ampla em festivais. “A gente quer muito circular nos festivais e também passar novamente pelo CinePE”, adianta. Para ela, cada novo filme é uma oportunidade de mostrar o Maranhão ao mundo — seus cenários, suas mulheres, suas histórias e seu modo de falar. O futuro aponta para uma carreira cada vez mais sólida e expansiva.
✨ Ao longo da carreira, a artista percebeu cedo que não poderia esperar ser chamada para os papéis que desejava. “Eu percebi muito nova que se eu ficasse só aguardando me chamarem, eu não ia conseguir o que realmente eu queria”, conta. Foi essa consciência que a levou a escrever suas próprias histórias, estudar roteiro e produção e fundar sua produtora. “Criar personagens que eu me identificasse” tornou-se parte essencial de sua identidade artística.
📸 Fotos : Izadora Gonçalves
SERVIÇO
Filme: Mercado Central
Direção: Tássia Dhur
Produtora: Jaguatirica Filmes
Estreia: Cine-PE 2026 – Mostra Competitiva de Curtas
Longa-metragem: Estreia prevista para 2027
🎤 Perguntas para entrevistar Tássia Dhur
Mercado Central nasceu de memórias suas no mercado de São Luís. Como foi transformar lembranças tão íntimas em ficção e dividir isso com o público?
Eu sempre gostei muito de observar e eu sempre gostei de estar ali no mercado central observando as trocas, as vendas, as pessoas passando, às vezes violências silenciosas, às vezes não tão silenciosas assim.
E sempre achei um ambiente muito rico, rico de histórias, rico de pessoas, de personalidades, assim como em muitas cidades do Brasil. A gente tem esses mercados que têm uma cultura própria.
E à medida que eu fui me desenvolvendo como roteirista, eu quis muito contar histórias que se passam nesse ambiente.
E aí é uma mistura de uma ficção que é criada com a Tássia roteirista, com o meu olhar, a como eu olhar pelo mercado central.
A estreia no Cine-PE 2026 coloca o curta em um dos festivais mais tradicionais do País. O que essa estreia representa para você como artista maranhense e como realizadora independente?
O Cine PE é um dos festivais que eu mais acompanho, dos festivais de cinema que eu mais acompanho. Eu já morei em Recife, por volta de 2009, e eu fui em algumas edições do Cine P.E. e sempre achei um grande festival. Naquela época já era um grande festival. E estar agora, depois de muitos anos no festival, parece assim que eu me realizo como artista, enquanto artista. E numa luta que eu venho de um lugar que não é um lugar onde acontece o cinema de forma mais fácil, facilitada, como no Sudeste, aquele eixo Rio-São Paulo. Eu venho do Maranhão. E trazer, entrar nesses grandes festivais é muito importante para a gente que está há muitos anos nessa luta de conseguir um espaço nesses festivais, nesses festivais mais tradicionais. E só indica que a gente está no caminho certo.
O filme mistura cotidiano, mistério e desaparecimentos. Como você encontrou o equilíbrio entre o real e o fantástico na construção da narrativa?
O Universo Fantástico é uma consequência dos meus últimos trabalhos.
Esse já é meu terceiro curta-metragem em que eu escrevo e que eu dirijo, que eu atuo.
E ele traz também esse universo fantástico que, para mim, é uma extensão das características do ambiente,
Das características das relações ali que se encontram no mercado.
A gente tem essas características da insalubridade, dos ratos passando, dos restos de comida, do lixão,
Das violências que acontecem ali no entorno, que misturam com a ficção, óbvio.
E que eu trago, através disso, esse universo fantástico que é sair um pouco da realidade,
Tratar essa realidade saindo um pouco do real.
Não sei se ficou redundante, mas é mais ou menos isso.
Você assina direção, roteiro, produção executiva e ainda atua no curta. Como foi conciliar tantas funções sem perder a sensibilidade artística?
Esse já é o meu terceiro curto, então, que eu tenho essa dinâmica de estar em três posições ali, em três funções ali no filme.
Então, uma das coisas que me ajudam muito é que eu tenho uma equipe que está comigo.
A maioria das pessoas que trabalharam em Mercado Central, elas estavam em outros trabalhos comigo, então foram pessoas que a gente foi se desenvolvendo juntas e pessoas que eu confio muito para eu passar o olhar que eu queria passar.
E eu consegui muito por conta dessa equipe que está ali, cada filme que a gente faz a gente se afina mais.
Lógico, enquanto atriz, eu tentei, de muitas formas, preservar uma escuta para o meu personagem, preservar um silêncio, preservar uma atmosfera para que eu pudesse me sentir entregue ao personagem.
A estética do filme é muito marcada por espaços urbanos decadentes. O que esse ambiente diz sobre o Brasil que você quer retratar?
Eu quero falar, contar histórias sobre lugares reais, né?
Então, às vezes, tem essa decadência, mas são lugares reais e ricos de história, ricos de arte, ricos de cenários, e eu tento, da melhor forma, retratar de forma que não fique em ambientes higienizados, mas que conservem suas histórias reais.
A Jaguatirica Filmes tem se consolidado como uma produtora que valoriza narrativas nordestinas. Como você enxerga o papel da produtora na cena audiovisual atual?
A Jaguatirica Filmes tem como objetivo também produzir obras genuinamente maranhenses do meu universo feminino, porque ela é fundada por uma mulher, e também descentralizar as produções ali do eixo Rio-São Paulo, assim como todas as produtoras que são fundadas no eixo Norte e Nordeste, e eu quero muito produzir, esse é o terceiro curta-metragem, a gente acabou de rodar, a gente tá em fase de montagem já do nosso primeiro longa-metragem, então geralmente são histórias do universo feminino, do Maranhão, e tem esse objetivo que outras pessoas de outros lugares conheçam nossas histórias, conheçam nossos personagens, nossos atores, nossas atrizes, conheçam nossos cenários, nossa forma de falar, nosso sotaque, e eu acho que tá cumprindo o seu papel.
Você costuma dizer que assumir o sotaque é um ato político. Como essa visão aparece em Mercado Central e no seu trabalho como um todo?
Eu acho que é uma maneira de a gente valorizar o nosso Brasil como um todo, que é um Brasil diverso, é um país diverso, com diversas culturas, diversos sotaques.
O Brasil, ele não tem uma forma só de falar, e eu tento, não só no meu trabalho como atriz, mas no meu trabalho também com os meus próprios roteiros, de a gente falar a nossa língua, falar a forma como realmente a gente fala.
Eu tive muita dificuldade enquanto atriz no início da minha carreira, principalmente quando eu morei em São Paulo, mas eu acho que hoje a gente está cada vez mais valorizando a forma como a gente fala e a nossa identidade.
Eu acho que quando a gente se vê, como eu me vejo como maranhense, como uma artista maranhense, eu tenho muito mais domínio sobre as histórias que eu quero contar, sobre de onde eu vim, enfim, eu acho que o espaço está muito mais aberto e eu, enquanto atriz, nos trabalhos que eu faço, inclusive o que eu fiz na Netflix foi o meu sotaque, foi a forma como eu falo, e cada vez mais o mercado está entendendo isso.
O curta foi viabilizado pela Lei Paulo Gustavo. Como você avalia o impacto dessas políticas de fomento para artistas fora do eixo Rio–São Paulo?
Eu acho que a Lei Paulo Gustavo, ela é um marco no nosso cinema, na nossa cultura. A gente tem produções que saem ali do eixo Rio-São Paulo acontecendo. É muito, para mim, tempos atrás, entender que minha produtora poderia fazer um curta-metragem com dinheiro e um longa-metragem com dinheiro era algo bem distante e hoje, um dia depois, agora, depois que concretizou isso, é algo possível. Então, veio com certeza valorizar diversas produções de diversos lugares do País.
Mercado Central é seu terceiro curta e você já prepara seu primeiro longa. Que caminhos essa estreia no Cine-PE abre para os próximos passos da sua carreira?
Isso, o Mercado Central é o terceiro curta-metragem da produtora. A gente acabou de rodar o primeiro longa-metragem da produtora também, recentemente. E estamos em fase de montagem. E a gente quer muito ter essa trajetória de festivais de cinema. A previsão de estreia do longa é próximo ano, 2027. E a gente quer muito circular nos festivais. E também passar novamente pelo CinePE, que é um dos festivais mais importantes do Brasil.
Ao longo da sua trajetória, você transitou entre atuação, direção, roteiro e produção. Em que momento você percebeu que queria assumir o controle das próprias narrativas e se tornar uma artista múltipla?
Eu percebi muito nova que se eu ficasse só aguardando me chamarem para trabalhos, eu não ia conseguir o que realmente eu queria, que era trabalhar com audiovisual, trabalhar com cinema, e trabalhar em diversas personagens, personagens que fizessem eu ampliar meu leque de possibilidades.
Então, eu comecei a escrever as minhas próprias histórias, comecei a fazer cursos de roteiro, comecei a fazer cursos de produção para entender minimamente o que eu poderia fazer.
Fundei minha produtora, também para me inserir no mercado de trabalho como atriz, porque a gente sabe que é difícil, não é sempre que vão surgir oportunidades de trabalhos, trabalhos que a gente quer realmente trabalhar.
Então, muito cedo eu já tinha percebido isso, que eu não poderia estar numa situação passiva. E aí foi quando eu comecei a escrever, me instrumentalizar, escrever roteiros e criar personagens que eu me identificasse.
Sua carreira tem sido marcada por uma construção muito consciente de identidade — estética, política e afetiva. Que momentos ou obras foram decisivos para você entender qual era a sua voz no audiovisual brasileiro?
Eu acho que uma pergunta complementa a outra.
No momento em que eu decidi abrir a minha produtora, escrever meus próprios projetos, produzir os meus próprios filmes, eu entendi que ali eu conseguia não só criar personagens em que eu me identificasse, mas fazer com que outras pessoas conhecessem meu trabalho e conhecessem minha identidade, conhecessem a forma como eu vejo o mundo.
Então, eu acho que nesse momento em que eu vou fundar a minha própria produtora, escrever minhas próprias histórias, é nesse momento que é um marco importante para mim, porque eu vejo que eu consigo circular em outros lugares, em outros festivais, que não sejam só aqui no Maranhão, mas em que outras pessoas possam me conhecer e conhecer meu trabalho, ser chamada para outros trabalhos.