📚 Nascido em São Domingos do Capim, no Pará, mas criado desde cedo na Bahia, Achel Tinoco encontrou na literatura não apenas um ofício, mas uma espécie de destino inevitável. Ainda menino, copiava letras de Roberto Carlos e dizia ao pai que eram suas, recebendo incentivo e risadas que moldariam sua vocação. Na juventude, em Salvador, durante o segundo grau e a faculdade de Letras, a poesia tomou forma definitiva, transformando-se em torrente criativa. Mais tarde, o funcionalismo público trouxe infelicidade e um ultimato de uma amiga o empurrou para a escrita: ou viveria dela, ou morreria infeliz. Ele escolheu viver. A entrevista a seguir foi concedida ao Blog Taís Paranhos.
🖋️ Hoje, autor de romances, poesia, contos, literatura infantil e biografias, Tinoco afirma que não organiza seu processo criativo — apenas escreve o que vem. Nos últimos três anos, produziu 730 poemas, número que ele mesmo encara com humor e espanto. As biografias surgiram por acaso, inicialmente pela remuneração, mas se tornaram um prazer pela convivência íntima com os biografados. Já os romances lhe oferecem liberdade total, enquanto os livros infantis lhe dão alegria pura, fruto de seu amor declarado pelas crianças. Sua escrita, segundo ele, é guiada mais pela intuição do que pela técnica.
🌄 A Bahia ocupa um lugar central em sua obra, não como cartão-postal, mas como território afetivo e visceral. Tinoco escreve a Bahia que viveu: a do descobrimento, da terra vermelha, das memórias e da juventude inquieta. Seu livro mais recente, O Conto da Ilha de Taparica, com prefácio de Laurentino Gomes, mergulha nessa Bahia real, ancestral e formadora. Para ele, a terra de criação é sempre um terreno fértil, e tudo o que viveu retorna quando começa a escrever, como se a memória fosse uma segunda pele. Essa Bahia íntima é o eixo que sustenta sua sensibilidade literária.
📖 Entre suas referências literárias, ele cita García Márquez, Saramago, Machado de Assis, Dante, Cervantes, Dostoiévski, Drummond, Castro Alves, Vinicius e João Cabral. Prefácios de José Louzeiro, Moacyr Scliar, Jorge Portugal e Laurentino Gomes reforçam sua trajetória. Tinoco acredita que, com o tempo, cada autor encontra a própria voz — e que sua poesia, em especial, carrega sua fotografia interior. Para ele, tudo o que um escritor produz é, de algum modo, autobiográfico. Suas leituras, afirma, são alimento e bússola para a criação.
🎤 Sua parceria com o cantor Fábio Stella já dura quase duas décadas e nasceu de um encontro improvável em Ipiaú, quando viu o artista sozinho em um bar e duvidou que fosse realmente ele. Anos depois, reencontraram-se em uma editora em Salvador e iniciaram uma amizade profunda. Tinoco escreveu As Aventuras de Um Certo Capitão Blue, biografia de Stella, e também Até Parece Que Foi Sonho, sobre a amizade do cantor com Tim Maia. Foram quase três anos de conversas, memórias e revelações — muitas delas desconhecidas até pela família do artista. Para Tinoco, Fábio é “um homem decente, honesto e até inocente”.
🤖 Sobre o futuro da escrita, Tinoco expressa preocupação com o desinteresse dos jovens pela leitura e com o avanço da Inteligência Artificial. Para ele, a IA é criatura, não criadora, e jamais substituirá a arte que nasce da experiência humana. Seu lema — “Os livros são o melhor caminho para qualquer lugar” — resume sua defesa apaixonada da literatura. Ele acredita que, sem pensamento próprio, seremos apenas cópias sem sabor, e reafirma seu compromisso de escrever sempre a partir de si mesmo, com a poesia como bússola. A literatura, diz, é sua forma de permanecer vivo.
📸 Fotos: Arquivo Pessoal
🎤 Que tal ver a entrevista de Achel Tinoco ao Blog Taís Paranhos?
De que maneira sua formação acadêmica influenciou sua entrada na literatura e moldou sua visão de mundo como escritor?
Lembro-me que aos sete, oito anos, eu copiava letras de música de Roberto Carlos e dizia ao meu pai que fora eu quem escreveu. E se ria e mandava eu continuar. Como sou do interior da Bahia, fui morar na capital, Salvador, para fazer o segundo grau a faculdade. Aí o meu interesse pela poesia aflorou, e comecei a pensar em ser escritor. Fiz o curso de Letras, como se isso por si fosse me dar o desenvolvimento e o caminho para ser escritor. Mas ajudou-me a seguir em frente. E um dia, naquele dia que a gente se encontra numa encruzilhada e tem de decidir. E eu decidir a ser escritor, já sabendo que nada seria fácil, como não é até hoje. Escrever é um exercício diário, e mais ainda quando partimos para o mercado.
Quando você percebeu que a escrita seria mais que um interesse e se tornaria um caminho de vida? Houve um momento decisivo?
Sim, eu trabalhava na Secretaria de Educação e Cultura, mas era infeliz, não suportava o que fazia, até que uma amiga me disse: “Ou você larga tudo e vai ser escritor, ainda que morra de fome, ou vai morrer de qualquer jeito, e infeliz”. Estou aqui.
Sua obra transita entre poesia, prosa e biografia. Como você organiza seu processo criativo para cada gênero? Eles se contaminam entre si?
Na verdade, eu não organizo nada, nem penso nisso. Apenas escrevo, e o que vem. Nos últimos três anos, por exemplo, escrevi 730 poemas. Às vezes, acho até que estou ficando doido kkk. As biografias vieram porque me davam uma remuneração melhor. Eu nunca tinha pensado em escrever biografias, mas gosto muito do contato com os biografados. Terminei de escrever a biografia de Fábio Stella, e foram quase três anos de entrevistas e bate-papo. Acho que é bem interessante. Também gosto muito dos romances, porque fico livro para escrever como quiser. Tenho dois de contos e três infantis. Como adoro crianças, me divirto mais do que escrevo.
A Bahia aparece como atmosfera, memória e personagem em muitos dos seus textos. Como esse território molda sua sensibilidade literária?
Ah, embora em não seja baiano — sou paraense —, mas vim para a Bahia na primeira infância. E tudo o que já estava até adormecido, esquecido, volta quando começo a escrever. A terra natal é terreno fértil para quem escreve: as experiências da infância, as memórias, as maluquices da juventude, de alguma forma vêm quando se começa a escrever, e isso é enriquecedor.
Quais escritores — baianos, brasileiros ou estrangeiros — foram fundamentais para a construção da sua voz literária?
Sou apaixonado por Gabriel Garcia Márquez, José Saramago e Machado de Assis. Mas, claro, adoro Castro Alves, Vinicius de Moraes, João Cabral de Melo Neto. E tenho livros prefaciados por José Louzeiro, Moacyr Scliar, Jorge Portugal, Laurentino Gomes, entre outros autores tão importantes.
Você escreve tanto poesia quanto prosa narrativa. O que cada uma dessas linguagens lhe permite dizer que a outra não permite?
Quem lê a minha poesia, e se me conhece, decerto vai ver minha imagem nelas, minha fotografia. Aliás, tudo o que um autor escreve, certamente tem um pouco dele, portanto, na minha poesia tem muito de mim, e também em alguns romances que escrevi. Vamos adquirindo um estilo que nem imaginávamos possuir, e, de repente, quem nos ler já nos conhece um pouco. Fica íntimo.
Além do cenário, a Bahia aparece como modo de sentir, de falar e de existir. Como você traduz essa identidade para a página?
A Bahia que eu escrevo, geralmente é que está dentro de mim, a que eu vivi, cresci e me desenvolvi. Não é uma Bahia de propaganda nem de cartões postais, mas uma Bahia do descobrimento, uma Bahia do começo, da realidade. Meu livro mais recente chama-se “O conto da ilha de Taparica”, este prefaciado por Laurentino Gomes. Acho que é essa Bahia que precisamos descobrir, de verdade, porque foi dela que viemos todos.
O que o levou a enveredar pela escrita biográfica, um gênero tão exigente em pesquisa, memória e responsabilidade narrativa?
Ah, como eu disse anteriormente, quase uma necessidade de ganhar alguma coisa mais, mas aí fui gostando, fui me aprimorando, e gosto muito. É um trabalho difícil, mas gratificante. Imagine o biografado, que nunca me viu antes, e no dia seguinte estou na casa dele ouvindo coisas que, muitas vezes, nem a família sabia. E ele conta quase tudo, mas quando livro está escrito, precisamos cortar muita coisa.
Sua parceria com o cantor e compositor Fábio Stella já dura décadas, desde “Até Parece Que Foi Sonho” (2007) até o futuro “As Aventuras de um Certo Capitão Blue”. Como essa relação criativa começou e o que ela representa para você?
Fábio é uma grande figura, independente do artista que foi, da fama que teve. Uma vez, eu estava na minha cidade, Ipiaú, e o vi sentado sozinho numa mesa de bar. Imaginei que era ele, mas achei que não seria possível: o que um cantor famoso estaria fazendo ali? Algum tempo depois, eu trabalhava numa editora, em Salvador, e ele chegou. O editor me apresentou, e começamos a amizade. Ele é, acima de tudo, um homem decente, honesto e até inocente. Por causo disso, talvez, tenha perdido tanto, apesar do sucesso que fizera. Torço por sua paz e o seu sucesso. A sua biografia, tenho certeza, vai agradar muito os seus fãs.
Com tantos gêneros explorados — poesia, romance, infantojuvenil, biografia — para onde você sente que sua escrita está se movendo agora?
Sinto alguma angustia com a falta de interesse dessa geração quanto aos livros, e meu interesse maior é que não deixem de valorizar os livros: são o melhor caminho para qualquer lugar. Que entendam que a IA não é criador, mas criatura, e que as novas tecnologias nos sirvam para acrescentar e não para destruir a arte. Não haverá arte se não pensarmos, se não escrevermos, se não pintarmos o sete. Caso contrário seremos meras cópias da IA, sem sal, sem açúcar, sem gosto. Que a minha escrita venha sempre de mim, e que eu tenha inspiração para apor no papel todas as minhas ideias e toda a minha poesia.





