Por Mariângela Borba
Vivemos uma época emocionalmente contraditória.
Nunca se falou tanto sobre saúde mental, autocuidado, amor-próprio e conexões humanas. Ao mesmo tempo, talvez nunca tantas pessoas tenham experimentado relações tão frágeis, ambíguas e emocionalmente desgastantes.
Existe hoje um cansaço subjetivo que não nasce apenas do excesso de trabalho ou das pressões econômicas. Muitas vezes, ele surge da necessidade contínua de administrar afetos em um mundo onde quase tudo se tornou performático — inclusive os vínculos.
As pessoas conversam o tempo inteiro.
Trocam mensagens.
Compartilham rotina.
Reagem a histórias.
Mantêm contato constante.
Mas raramente descansam emocionalmente umas nas outras.
A contemporaneidade criou relações marcadas por:
• excesso de estímulo;
• pouca profundidade;
• validação intermitente;
• disponibilidade virtual;
• indisponibilidade afetiva.
O resultado é uma geração emocionalmente cansada.
Freud e o custo psíquico da adaptação
Sigmund Freud observava que viver em sociedade exige renúncias constantes. Para que a civilização exista, o sujeito precisa conter impulsos, regular comportamentos e adaptar desejos.
O problema é que, em algum momento, a adaptação deixou de ser apenas mecanismo de convivência e passou a se tornar identidade.
Muitas pessoas já não sabem existir fora dos papéis que sustentam socialmente.
Aprendem desde cedo a:
• parecer fortes;
• controlar emoções;
• administrar imagem;
• evitar vulnerabilidades;
• funcionar o tempo inteiro.
Criam versões emocionalmente eficientes de si mesmas.
Mas internamente convivem com:
• ansiedade;
• sensação de vazio;
• necessidade constante de validação;
• medo de rejeição;
• dificuldade de intimidade real.
A exaustão contemporânea nasce também daí: do excesso de personagens e da escassez de espontaneidade.
Winnicott e o falso self
Talvez Donald Winnicott tenha sido um dos psicanalistas que melhor compreenderam esse sofrimento silencioso.
Winnicott falava sobre o “falso self”, uma estrutura criada quando a criança percebe muito cedo que precisa se adaptar emocionalmente para preservar o vínculo com o ambiente.
O falso self não é mentira.
É sobrevivência.
A criança aprende:
• a observar excessivamente;
• a sentir o humor do ambiente;
• a não incomodar;
• a cuidar emocionalmente dos outros;
• a amadurecer cedo demais.
Em muitos casos, deixa parcialmente o lugar de filha e passa a ocupar funções emocionais adultas:
• escuta dores;
• sustenta crises;
• tenta compreender o sofrimento parental;
• torna-se companhia psíquica de adultos emocionalmente feridos.
O problema é que essa criança cresce.
E o adulto continua funcionando no mundo a partir da vigilância emocional.
Ama observando.
Relaciona-se interpretando.
Permanece tentando compreender antes mesmo de sentir.
Passa a vida:
• sustentando relações;
• esperando respostas;
• decifrando silêncios;
• antecipando rejeições;
• tentando manter vínculos seguros.
Mesmo às custas de si.
Lacan e a armadilha do “quase”
Jacques Lacan aprofundaria ainda mais essa discussão ao afirmar que o desejo humano nasce da falta.
Desejamos aquilo que não se completa inteiramente.
Aquilo que permanece em suspensão.
Talvez por isso relações ambíguas se tornem tão intensas.
Existe sempre algo faltando:
• uma definição;
• uma resposta;
• uma presença inteira;
• uma entrega explícita.
O vínculo nunca desaparece completamente.
Mas também nunca se estabiliza.
O sujeito permanece tentando compreender:
• o silêncio;
• os retornos;
• os afastamentos;
• as pequenas validações;
• os sinais contraditórios.
É o território emocional do “quase”.
Quase íntimo.
Quase resolvido.
Quase amor.
E justamente por nunca terminar completamente, continua vivo no psiquismo.
A repetição de padrões emocionais
Talvez a grande questão da vida adulta seja esta:
as pessoas não escolhem apenas parceiros.
Escolhem cenários emocionais familiares ao inconsciente.
Quem cresceu precisando:
• observar;
• adaptar-se;
• sustentar emocionalmente;
• esperar reconhecimento;
• interpretar comportamentos…
frequentemente se sente atraído por relações que reproduzem exatamente essa dinâmica.
Não porque goste de sofrer.
Mas porque o conhecido produz sensação inconsciente de pertencimento.
Assim surgem relações:
• profundas;
• intelectualmente estimulantes;
• emocionalmente intensas;
• mas frequentemente irresolutivas.
O sujeito continua tentando finalmente resolver, no presente, dores emocionais muito mais antigas.
O ego social e os vínculos contemporâneos
A superficialidade afetiva contemporânea não significa ausência de contato.
Significa ausência de sustentação emocional verdadeira.
As relações passaram a funcionar também sob lógica narcísica:
• validação;
• desejabilidade;
• performance;
• imagem;
• administração de presença.
As pessoas expõem muito.
Mas revelam pouco.
Conversam muito.
Mas sustentam pouco.
Por isso tantas relações se transformam em espaços de hiperinterpretação psíquica.
O sujeito nunca relaxa completamente.
Está sempre:
• esperando retorno;
• tentando compreender;
• medindo ausências;
• avaliando sinais;
• sustentando ansiedade relacional.
É uma espécie de plantão emocional invisível.
O desgaste psicossocial das relações ambíguas
Hoje já se reconhece a importância dos riscos psicossociais no trabalho, na saúde mental e nas relações humanas.
Mas talvez ainda se fale pouco sobre o quanto vínculos afetivos instáveis também produzem:
• desgaste cognitivo;
• hiperatenção;
• ansiedade;
• sensação contínua de suspensão emocional.
Algumas relações oferecem:
• fascínio;
• conexão intelectual;
• reconhecimento;
• intensidade;
• sensação de segurança momentânea.
Mas também produzem:
• exaustão;
• ambiguidade;
• perda de espontaneidade;
• vigilância emocional constante.
E nenhuma profundidade deveria exigir desgaste permanente.
O direito de descansar emocionalmente
Talvez a maturidade afetiva comece quando o sujeito deixa de perguntar apenas:
“o que o outro sente por mim?”
E passa a perguntar:
“quem eu me torno dentro dessa dinâmica?”
Porque algumas relações não machucam apenas pela ausência.
Machucam pela impossibilidade de descanso emocional.
A verdadeira prosperidade afetiva talvez esteja justamente na possibilidade de:
• existir sem performance constante;
• amar sem hiperatenção;
• permanecer sem autoabandono;
• sentir sem precisar decifrar tudo;
• construir intimidade sem vigilância contínua.
No fundo, talvez o maior desejo humano não seja apenas ser amado.
Mas encontrar um espaço emocional onde finalmente seja possível repousar sem medo.
*Mariângela Borba é jornalista, produtora cultural e estrategista digital. Especialista em Cultura Pernambucana, atua na interseção entre comunicação, cultura e política. Com passagem pelo Ministério da Cultura e gestões públicas, integra a AIP e a UBE. Pesquisa a palavra como território de poder e estuda Psicanálise.