segunda-feira, 20 de abril de 2020

Professor doa telas produzidas durante isolamento para campanha de solidariedade

Uma bela dose de arte, delicadeza e poesia agregou ainda mais valor, nos últimos dias, à campanha Ruralinda Solidária, por meio da qual voluntários da UFRPE contribuem com alimentos e itens de higiene para pessoas em situação de rua e vulnerabilidade na Região Metropolitana do Recife. Trata-se da doação especial feita pelo professor Angelo Brás Callou, do Departamento de Educação, que cedeu 38 telas de sua autoria, cujo valor integral de compra reverterá para a campanha.

As telas, em aquarela ou pastel seco, foram produzidas durante o período de isolamento provocado pela pandemia do Covid-19 e – ao valor simbólico de R$ 100 – começaram a ser adquiridas já entre os voluntários. Qualquer pessoa pode contribuir com a campanha por meio da aquisição das telas, que serão entregues ao fim da crise pandêmica, após vernissage na Universidade.

Brás, como é carinhosamente conhecido o docente, teve a ideia de transformar sua arte em ajuda para as pessoas necessitadas após perceber que as telas já estavam contribuindo, de forma sensível, com seus amigos nas redes sociais, onde costuma publicar suas obras. De acordo com o professor, as 38 pinturas em questão foram pensadas numa composição de três séries: Janelas, Platibandas e Pesca Artesanal. “Procurei uma reflexão sobre o simples e a importância da natureza na vida humana. Foi uma forma de desviar o olhar dos meus amigos, e do meu próprio olhar, para além da tragédia”, ressalta.

Graduado em Engenharia de Pesca pela UFRPE, Angelo Brás possui doutorado em Comunicação (USP) e pós-doutorado em História e Cinema, pela Universidade Nova de Lisboa (2017), em Portugal, período em que começou a pintar de maneira mais intensa.

O mar, os casarios, seus detalhes e paisagens são elementos marcantes em seus traços, revelando um tanto de suas inspirações como pesquisador multifacetado. O fascínio pelos elementos vem desde o contato com o livro de Anna Mariani Pinturas e Platibandas (Mundo Cultural, 1987), obra que despertou sua vontade de, um dia, levar às telas a tal platibanda, espécie de mureta que emoldura a parte superior de casas e edifícios, escondendo o telhado – ornamento característico do estilo gótico.

O impacto do livro fotográfico uniu-se à intimidade com as fachadas de cidades como Pesqueira-PE, onde nasceu, além de Triunfo-PE, Princesa e Areia-PB e Marechal Deodoro-AL. As aquarelas-pinturas reunidas na série, portanto, foram espelhadas nas fotografias de Anna Mariani e na memória das suas andanças pelo Nordeste. “Os pinheiros (de Roma), que aparecem na maioria delas, são a minha reverência diante da dor dos outros, como um dia se referiu Susan Sontag”, revela o autor.

A série sobre a pesca artesanal veio não somente de sua formação inicial e de suas publicações como pesquisador, mas de memórias afetivas da infância de um menino do interior, deslumbrado com a visão do mar azul da Ilha de Itamaracá. Segundo o professor, o trabalho veio quando procurou, à sua maneira, destacar a importância cultural das comunidades pesqueiras tradicionais no Brasil. “Tão peculiar, como tantas outras que compõem a cultura brasileira, a cultura tradicional pesqueira está em nós, queiramos ou não. A pesca artesanal, nesse sentido, nos dá lições. Mas, como diz o poeta, só nos resta aprender”, comenta.

Apesar do pouco tempo da campanha, iniciada nesta segunda-feira (20/04), boa parte das 38 telas já foi comercializada..

Imprensa UFRPE

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