terça-feira, 14 de abril de 2020

#MostreSuaQuarentena Angelo Brás Callou

E o blog vai começar a contar boas histórias. O estreante do quadro está sempre participando aqui no blog, o Professor Angelo Brás Callou e hoje ele nos conta uma recordação musical... 



Cenas do Cotidiano no Isolamento ou Salamanca e minha Standard Electric

Hoje, acordei com a música Dolores Sierra na cabeça. Liguei o celular e a escutei amplificada, acompanhando-a com a letra na mão, pela primeira vez. O inconsciente é mesmo fascinante. Explico.

Passei minha infância a ouvir Dolores Sierra no toca-discos Standard Electric de minha avó, em Pesqueira. Ela adorava essa canção, possivelmente porque se referia a Barcelona e a Salamanca, cidades de sua terra natal, deixada para trás aos 20 anos de idade, para viver a aventura Brasil.

Minha mãe e minhas tias (Yolanda e Waldemira) sabiam a letra de cor desse samba-canção. Lembro-me delas cantarolando, à capela, mesmo já muito idosas. As crianças, igualmente, sabiam cantá-la. O rádio foi, de fato, uma mídia importante na divulgação musical no Brasil, transformando Dolores Sierra, de Jorge de Castro e Wilson Batista, num hit na voz de Nelson Gonçalves, gravado em 1956. Com uma introdução bem espanholada, não há como não se lembrar da Espanha, ao ouvir essa música brasileira.

Quando morava em Lisboa, meus amigos Jimmy Mc Intyre e Ronice Franco, de passagem por lá, me convidaram para uma viagem de 10 dias de carro por Portugal. Impus uma condição: passar por Salamanca. Gentis que são, concordaram.

Era um projeto antigo ir àquela cidade que ostenta um patrimônio medieval de envergadura, só não sabia o porquê. Entretanto, não foi a famosa universidade do século XII, nem sua estrondosa catedral, muito menos a Plaza Mayor, tão presente nas cidades d’Espanha, que me levaram até ali. Nem mesmo as estradas que cortam os lindos e extensos olivais, quando vão se acercando desse Patrimônio Cultural da Humanidade. Hoje, meu inconsciente afrouxou a guarda e deixou escapar: foi Dolores Sierra quem me levou a Salamanca. Mas como eu nunca me dei conta disto, antes? O que foi agenciado no onírico da noite? A pandemia tem me feito, e acredito que a muitos outros, remover entulhos que ensebam a vida! Não vejo a hora de ter às mãos Walden, de Henry David Thoreau, que relata a experiência de reclusão voluntária do escritor, por mais de dois anos.

Retiro a Santander Electric da alta prateleira que decora meu apartamento do Pina e percebo, agora, em meio às crostas de ferrugem, que sei de memória todos os movimentos dessa engrenagem, que não toca mais Dolores Sierra.

Aqui tem um liink para a letra e a cifra para violão:
https://cifrantiga3.blogspot.com/2006/05/dolores-sierra.html?m=1



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