quinta-feira, 17 de setembro de 2020

#SigaOFio Hotel Casa Grande e Senzala


O Recife é a capital mais antiga do Brasil. Fundada ainda no século XVI, teve na sua base a cultura canavieira com estrutura delimitada entre a Casa Grande, onde viviam os senhores e a Senzala, onde sobreviviam os escravos. Mesmo após a abolição, em 1888, a cultura escravocrata tem suas raízes até hoje: basta ver os nomes de empreendimentos como "Engenho", "Casa Grande", "Senzala"... No entanto, o mais extremo dessa insensatez cultural aconteceu entre as décadas de 1970 e 1980, com o Hotel Casa Grande e Senzala, que funcionava no prédio da foto, em Boa Viagem, zona sul do Recife. O psicólogo Cayo Cesar fez um fio no Twitter contando tudo e ilustrando com anúncios e notícias:

Esse prédio fica em Boa Viagem. Av. Conselheiro Aguiar, 5000. Sua arquitetura sempre me chamou atenção, nunca soube o que era até que resolvi pesquisar e descobri coisas tenebrosas. Segue a thread. Lá funcionou um hotel com o famigerado nome "Hotel Casa Grande e Senzala". Não bastando o nome, eles bolaram um evento chamado "Ceias Dominicais". Todo domingo pela manhã eles tentavam recriar o clima do Brasil Colonial. Isso foi no ano de 1972.

"No terraço colonial você vai voltar a um passado delicioso [...] E você é atendido na hora por mucamas sempre prontas a lhe servir". Sim, eles vestiam mulheres de mucamas e elas serviam a alta sociedade Recifense da década de 70. "Mucama" era o termo usado pra designar mulheres negras escravizadas que atendiam aos serviços da casa e não da lavoura. Cuidavam das crianças, dos serviços domésticos e de acompanhavas as brancas em seus passeios, afazeres e caprichos. O hotel fantasiava as mulheres de mucamas.



Era uma atividade elogiada em colunas da "alta sociedade". "A iniciativa vem beneficiar, e muito, às donas de casa, que, agora, podem passar os domingos sem maiores preocupações. [...] Tudo isso é servido a você pelas mucamas do Hotel Casa Grande". No mesmo ano que inaugurou, já preparava revellions para os ricos moradores de Boa Viagem, principalmente. A high society. Foi inaugurado em 1972. A ideia do empreendimento era essa mesmo "reconstituir o ambiente doméstico e acolhedor das casas Grades dos antigos engenhos pernambucanos. O serviço e atendimento serão feitos por mucamos (sic) e escravos trajados no estilo colonial".

Quem fez o discurso de inauguração foi o próprio Gilberto Freyre. Sociólogo recifense de grande importância. Escritor de Casa-Grande & Senzala; Guia Prático, Histórico e Sentimental da Cidade do Recife; Sobrados e Mucambos. Pra ele, o Hotel era uma grande homenagem à sua obra. A cozinha regional do hotel foi tão prospera que abriram o "Restaurante Mucama". Um "ambiente refinado, sob um clima de exotismo e romance" os recifenses se divertiam neste show de horror. Sem perceber o quão errado estava tudo isso.

A thread inteirinha pode ser acompanhada aquii:




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