#SendoProsperidade
IA, Humanidade e o
Risco de Nos Tornarmos Máquinas
Por Mariângela Borba
Vivemos uma era em que a inteligência artificial avança numa
velocidade impressionante. Muitos temem que as máquinas substituam os seres
humanos. Mas talvez a pergunta mais urgente seja outra: há quanto tempo nós
mesmos começamos a agir como máquinas?
Décadas atrás, Charlie Chaplin já satirizava isso em Modern
Times — ou “Tempos Modernos”, no bom e velho vernáculo — ao mostrar um
homem tão condicionado pela repetição que passa a enxergar e apertar parafusos
em todos os lugares. A crítica parecia exagerada para a época. Hoje, talvez
pareça apenas atual.
Vivemos, na maioria das vezes, no piloto automático pressionados por desempenho, respostas
rápidas, produtividade constante e relações superficiais. Automatizamos
rotinas, sentimentos, vínculos e até a escuta. Em muitos ambientes, o ser
humano já não é tratado como pessoa, mas como função.
A tecnologia não criou isso sozinha. Apenas ampliou.
E é justamente aí que mora o ponto central: a inteligência
artificial não cria caráter, consciência moral ou empatia. Ela potencializa
intenções humanas. A máquina aprende padrões, mas continua sendo o coração
humano quem escolhe o caminho.
Talvez por isso eu goste e me identifique tanto com a visão
de Harold Finch, personagem da série Person of Interest (“Pessoas de
Interesse”). Para ele, a tecnologia não deveria substituir a humanidade, mas
servir como instrumento de proteção, cuidado e ampliação da consciência. Não
como idolatria da máquina, mas como responsabilidade diante dela — para o bem e
não para o mal.
Precisamos aprender a usar a inteligência artificial sem
perder aquilo que nos torna humanos: sensibilidade, ética, discernimento,
espiritualidade, compaixão, capacidade de ouvir e responsabilidade sobre o
outro.
A tecnologia pode nos ajudar a construir pontes,
democratizar conhecimento e ampliar perspectivas. Mas, sem consciência e bom
coração, qualquer avanço se torna vazio.
Ao mesmo tempo, também precisamos compreender os limites
dessas ferramentas. Diferentemente de médicos, advogados ou terapeutas,
plataformas de inteligência artificial não possuem dever legal de ética ou sigilo
profissional. Conversas, dados e interações digitais podem gerar registros e
rastros tecnológicos sujeitos às regras previstas no Marco Civil da Internet e
à dinâmica de armazenamento das plataformas.
Isso não significa demonizar a tecnologia, mas compreender
que toda ferramenta exige prudência, responsabilidade e discernimento no uso.
Talvez um dos maiores desafios da nossa era seja justamente
conviver com a inteligência artificial sem terceirizar completamente nossa
consciência, nossa privacidade e nossa humanidade. Afinal, nós somos quem temos
o poder de discernimento.
Em tempos de hiperconectividade, cobranças excessivas,
adoecimento emocional e relações cada vez mais automatizadas, o verdadeiro
avanço talvez não esteja apenas na evolução das máquinas, mas na capacidade
humana de continuar sentindo, refletindo e cuidando uns dos outros.
No fim, talvez a verdadeira prosperidade não esteja em criar
máquinas cada vez mais inteligentes — mas em impedir que os seres humanos
desaprendam a sentir.
*Mariângela Borba é jornalista, produtora cultural e
estrategista digital. Especialista em Cultura Pernambucana, atua na interseção
entre comunicação, cultura e política. Com passagem pelo Ministério da Cultura
e gestões públicas, integra a AIP e a UBE. Pesquisa a palavra como território
de poder e estuda Psicanálise.