domingo, 17 de maio de 2026

#SendoProsperidade com Mariângela Borba

#SendoProsperidade

IA, Humanidade e o Risco de Nos Tornarmos Máquinas

Por Mariângela Borba

Vivemos uma era em que a inteligência artificial avança numa velocidade impressionante. Muitos temem que as máquinas substituam os seres humanos. Mas talvez a pergunta mais urgente seja outra: há quanto tempo nós mesmos começamos a agir como máquinas?

Décadas atrás, Charlie Chaplin já satirizava isso em Modern Times — ou “Tempos Modernos”, no bom e velho vernáculo — ao mostrar um homem tão condicionado pela repetição que passa a enxergar e apertar parafusos em todos os lugares. A crítica parecia exagerada para a época. Hoje, talvez pareça apenas atual.

Vivemos, na maioria das vezes, no piloto automático  pressionados por desempenho, respostas rápidas, produtividade constante e relações superficiais. Automatizamos rotinas, sentimentos, vínculos e até a escuta. Em muitos ambientes, o ser humano já não é tratado como pessoa, mas como função.

A tecnologia não criou isso sozinha. Apenas ampliou.

E é justamente aí que mora o ponto central: a inteligência artificial não cria caráter, consciência moral ou empatia. Ela potencializa intenções humanas. A máquina aprende padrões, mas continua sendo o coração humano quem escolhe o caminho.

Talvez por isso eu goste e me identifique tanto com a visão de Harold Finch, personagem da série Person of Interest (“Pessoas de Interesse”). Para ele, a tecnologia não deveria substituir a humanidade, mas servir como instrumento de proteção, cuidado e ampliação da consciência. Não como idolatria da máquina, mas como responsabilidade diante dela — para o bem e não para o mal.

Precisamos aprender a usar a inteligência artificial sem perder aquilo que nos torna humanos: sensibilidade, ética, discernimento, espiritualidade, compaixão, capacidade de ouvir e responsabilidade sobre o outro.

A tecnologia pode nos ajudar a construir pontes, democratizar conhecimento e ampliar perspectivas. Mas, sem consciência e bom coração, qualquer avanço se torna vazio.

Ao mesmo tempo, também precisamos compreender os limites dessas ferramentas. Diferentemente de médicos, advogados ou terapeutas, plataformas de inteligência artificial não possuem dever legal de ética ou sigilo profissional. Conversas, dados e interações digitais podem gerar registros e rastros tecnológicos sujeitos às regras previstas no Marco Civil da Internet e à dinâmica de armazenamento das plataformas.

Isso não significa demonizar a tecnologia, mas compreender que toda ferramenta exige prudência, responsabilidade e discernimento no uso.

Talvez um dos maiores desafios da nossa era seja justamente conviver com a inteligência artificial sem terceirizar completamente nossa consciência, nossa privacidade e nossa humanidade. Afinal, nós somos quem temos o poder de discernimento.

Em tempos de hiperconectividade, cobranças excessivas, adoecimento emocional e relações cada vez mais automatizadas, o verdadeiro avanço talvez não esteja apenas na evolução das máquinas, mas na capacidade humana de continuar sentindo, refletindo e cuidando uns dos outros.

No fim, talvez a verdadeira prosperidade não esteja em criar máquinas cada vez mais inteligentes — mas em impedir que os seres humanos desaprendam a sentir.

*Mariângela Borba é jornalista, produtora cultural e estrategista digital. Especialista em Cultura Pernambucana, atua na interseção entre comunicação, cultura e política. Com passagem pelo Ministério da Cultura e gestões públicas, integra a AIP e a UBE. Pesquisa a palavra como território de poder e estuda Psicanálise.