segunda-feira, 11 de maio de 2026

#SendoProsperidade com Mariângela Borba

Entre a crítica e a desumanização: quando a liberdade de imprensa perde o senso de humanidade
Por Mariângela Borba

É inadmissível que, em um momento de luto e profunda consternação, a Folha de S.Paulo tenha optado por publicar uma charge utilizando simbologia mortuária para ironizar a magistratura. A publicação, ocorrida poucos dias após o falecimento da juíza Mariana Francisco Ferreira, de 34 anos, revelou não apenas uma falha editorial, mas um preocupante esvaziamento da sensibilidade humana no exercício do jornalismo.

A liberdade de imprensa é um dos pilares mais importantes da democracia. Sem ela, não existe fiscalização do poder, debate público ou construção crítica da sociedade. Contudo, liberdade não pode ser confundida com licença irrestrita para banalizar a dor humana. O exercício da comunicação exige discernimento ético, responsabilidade simbólica e consciência do impacto que determinadas narrativas produzem no imaginário coletivo.

Ao associar a imagem de uma lápide à discussão sobre os chamados “penduricalhos” do Judiciário justamente na semana em que o País acompanhava a morte trágica de uma jovem magistrada, o jornal ultrapassou um limite elementar: o da humanidade.

A charge trazia uma lápide posicionada diante de um monte de terra recém-revolvido, acompanhada da frase: “Vidinha mais ou menos até perdê-la junto dos penduricalhos”. Uma pequena flor inclinada ao centro reforçava a atmosfera fúnebre da ilustração.

Ora, toda charge opera por meio de alusões, símbolos e associações. O humor gráfico depende precisamente da capacidade do leitor de reconhecer o contexto social ao qual ele faz referência. Não há ingenuidade possível nessa linguagem. E justamente por isso, neste caso, não havia do que rir.

O termo “vidinha” reduz uma existência humana inteira a um comentário irônico sobre remuneração e privilégios institucionais — debate que, vale ressaltar, não necessariamente guardava qualquer relação direta com a magistrada falecida. Ainda mais emblemática é a presença de um grande “X” ao fundo da imagem, inevitavelmente interpretado por muitos leitores como uma referência à morte, ao encerramento de uma trajetória ou à eliminação simbólica de uma vida.

A reação pública foi imediata porque o contexto tornou praticamente inevitável a associação entre a charge e a morte da juíza Mariana Francisco Ferreira, falecida após complicações decorrentes de um procedimento relacionado ao tratamento de fertilização, conforme reportagens amplamente divulgadas pela imprensa nacional. Uma mulher jovem, em pleno exercício da carreira, tentando conciliar profissão, projeto de maternidade e vida pessoal — realidade comum a tantas brasileiras.

Entidades representativas da magistratura, como a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), além de associações regionais ligadas ao Judiciário, manifestaram desconforto diante da publicação e reforçaram a necessidade de respeito à memória da magistrada e ao luto de familiares e colegas.

É evidente que a imprensa tem não apenas o direito, mas também o dever de fiscalizar supersalários, privilégios e distorções existentes em qualquer esfera do poder público, inclusive no Judiciário. O tema é legítimo, necessário e profundamente democrático. Charges, historicamente, cumprem exatamente esse papel: exagerar, tensionar, provocar desconforto e ampliar o debate crítico.

Mas esta discussão ultrapassa a dicotomia simplista entre “liberdade de expressão” e “censura”. O ponto central não é impedir a crítica institucional, mas refletir sobre os limites éticos da representação simbólica quando ela se aproxima perigosamente da desumanização.

A charge falhou ao não distinguir a instituição abstrata da experiência humana concreta.

E aqui cabe uma reflexão importante entre jornalismo e psicanálise.

A psicanálise compreende que nenhuma linguagem é neutra. Sigmund Freud, em “O mal-estar na civilização”, já apontava como os processos sociais são atravessados por pulsões, repressões e mecanismos simbólicos que afetam diretamente a experiência humana. Mais tarde, Jacques Lacan aprofundaria a compreensão de que o sujeito é constituído pela linguagem e pelos símbolos que o cercam. Daí a importância de ampliar nossas fontes de conhecimento.

Isso significa que palavras, imagens e discursos nunca são inocentes. Produzem efeitos subjetivos, mobilizam afetos e atravessam experiências inconscientes.

Quando uma imagem fúnebre é publicada em meio a um luto recente, não se trata apenas de “interpretação exagerada” do público. Trata-se daquilo que a psicanálise compreende como campo simbólico compartilhado: o sentido não nasce apenas da intenção do emissor, mas também do contexto social, emocional e histórico em que a mensagem é recebida.

No jornalismo, isso se traduz em responsabilidade editorial.

Autores como Eugênio Bucci, referência em ética na comunicação, defendem que liberdade de imprensa não elimina o compromisso moral da informação com a dignidade humana. Na mesma linha, Clóvis de Barros Filho reforça que ética não diz respeito apenas ao que é permitido fazer, mas sobretudo à capacidade de refletir sobre os impactos humanos de cada escolha.

A própria Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), por meio do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, estabelece que a atividade jornalística deve estar comprometida não apenas com a verdade dos fatos, mas também com o respeito à dignidade da pessoa humana.

A objetividade jornalística jamais significou ausência de sensibilidade. Ao contrário: quanto maior o alcance da informação, maior deve ser o compromisso ético com as consequências humanas daquilo que se publica.

A repercussão do caso expõe uma questão ainda maior do nosso tempo: a dificuldade crescente de equilibrar liberdade crítica, empatia e responsabilidade pública.
Vivemos em uma sociedade acelerada pela lógica do impacto, do clique e da viralização instantânea. Nesse ambiente, muitas vezes a dor humana deixa de ser percebida como experiência legítima e passa a funcionar apenas como matéria-prima para disputas narrativas, ideológicas ou políticas.

Mas uma democracia saudável necessita tanto da liberdade de crítica quanto da capacidade coletiva de reconhecer que nem toda tragédia precisa — ou deve — ser imediatamente convertida em alegoria política.

A morte da juíza Mariana Francisco Ferreira pertence, antes de qualquer debate corporativo ou institucional, ao território da dor humana.

Pertence ao silêncio do luto.

Ao sofrimento de familiares, amigos e colegas.
Ao vazio irreparável deixado pela partida precoce de uma mulher que tentava realizar o sonho da maternidade.

A publicação torna-se ainda mais insensível pela proximidade com o Dia das Mães. Uma mulher morreu justamente durante uma tentativa biológica de tornar-se mãe — e sua morte acabou cercada por uma disputa pública que, em determinado momento, perdeu completamente a dimensão da delicadeza.

Sinceramente, não se tratou de liberdade crítica. Tratou-se de ausência de critério editorial.

O jornalismo continua sendo uma das instituições mais fundamentais da democracia. Mas exatamente por isso precisa recordar, permanentemente, que informar não é desumanizar.

É possível fazer crítica sem crueldade.

É possível defender a liberdade de imprensa sem abrir mão da empatia.

E é possível tensionar estruturas de poder sem transformar a dor alheia em espetáculo.

À família da jovem magistrada, ficam nossas mais sinceras condolências.

*Mariângela Borba é jornalista, produtora cultural e estrategista digital. Especialista em Cultura Pernambucana, atua na interseção entre comunicação, cultura e política. Com passagem pelo Ministério da Cultura e gestões públicas, integra a AIP e a UBE. Pesquisa a palavra como território de poder e estuda Psicanálise.