Memória é confronto — e o Recife está sendo chamado a lembrar
Por Mariângela Borba
Falar de memória, no Brasil, é sempre um exercício delicado. Não apenas pelo que foi vivido, mas pelo modo como certas experiências permanecem — às vezes silenciosas, outras vezes difusas — no tecido social.
Quando observamos como a memória se manifesta na vida social, percebemos que ela não se organiza apenas como lembrança. Muitas vezes, aparece como repetição — como aquilo que insiste, mesmo quando não é plenamente elaborado.
Talvez por isso, revisitar determinados períodos históricos não seja apenas um gesto de registro, mas de compreensão. Não para fixar o passado, e sim para reconhecer seus desdobramentos no presente, para que não se naturalize no cotidiano.
Entre o esquecimento e a repetição, a memória segue operando.
É nesse ponto que ela deixa de ser arquivo e se torna campo de disputa.
Nesse contexto, o Recife será atravessado, no próximo dia 8 de abril, o Recife será atravessado pelo Circuito da Memória, realizado pelo Grupo de Teatro João Teimoso, que ocupa as ruas do centro com uma proposta que vai além da encenação: reinscreve, no espaço urbano, marcas que a cidade aprendeu a silenciar.
Saindo da frente do Ginásio Pernambucano, um trenzinho percorre locais emblemáticos da repressão — da Casa da Cultura (antigo presídio) ao antigo DOI-CODI — com paradas ao longo do percurso, onde atores e atrizes encenam episódios inspirados em fatos reais.
A cidade, nesse movimento, deixa de ser apenas cenário e passa a operar como superfície de inscrição — onde passado e presente, de algum modo, se encontram. O percurso termina no Monumento Tortura Nunca Mais, com uma cena que conecta a violência de ontem às tensões de hoje.
O problema nunca foi apenas o passado, mas a forma como ele segue operando.
Quando práticas de violência são relativizadas, quando abordagens abusivas se tornam comuns, quando discursos autoritários ganham espaço sob o argumento da ordem, não estamos diante de fatos isolados — mas de algo que insiste.
Não é sobre ideologia.
É sobre estrutura.
O que está em jogo, portanto, não é apenas a lembrança de um período histórico, mas a possibilidade de interromper uma lógica que se repete.
Projetos como o Circuito da Memória tensionam esse campo porque retiram o passado do conforto da abstração e o colocam em movimento — no corpo, na rua, no olhar do outro.
E isso incomoda.
Incomoda porque rompe com a ideia de que lembrar é apenas um ato simbólico.
A proposta do grupo aponta para algo essencial: aquilo que não é elaborado não desaparece — apenas encontra outras formas de se manifestar.
O Recife, ao abrir suas ruas para esse circuito, não está apenas revisitando sua história. Está sendo chamado a responder a ela.
E talvez essa seja a pergunta que ecoa:
O que fazemos, hoje, com aquilo que insistimos em não elaborar?
Mariângela Borba é jornalista, especialista em cultura pernambucana e atua na interseção entre comunicação e memória. Dedica-se à pesquisa da palavra como território de experiência e construção social.