segunda-feira, 6 de abril de 2026

#SendoProsperidade com Mariângela Borba


Memória é confronto — e o Recife está sendo chamado a lembrar

Por Mariângela Borba

Falar de memória, no Brasil, é sempre um exercício delicado. Não apenas pelo que foi vivido, mas pelo modo como certas experiências permanecem — às vezes silenciosas, outras vezes difusas — no tecido social.
Quando observamos como a memória se manifesta na vida social, percebemos que ela não se organiza apenas como lembrança. Muitas vezes, aparece como repetição — como aquilo que insiste, mesmo quando não é plenamente elaborado.

Talvez por isso, revisitar determinados períodos históricos não seja apenas um gesto de registro, mas de compreensão. Não para fixar o passado, e sim para reconhecer seus desdobramentos no presente, para que não se naturalize no cotidiano.

Entre o esquecimento e a repetição, a memória segue operando.

É nesse ponto que ela deixa de ser arquivo e se torna campo de disputa.

Nesse contexto, o Recife será atravessado, no próximo dia 8 de abril, o Recife será atravessado pelo Circuito da Memória, realizado pelo Grupo de Teatro João Teimoso, que ocupa as ruas do centro com uma proposta que vai além da encenação: reinscreve, no espaço urbano, marcas que a cidade aprendeu a silenciar.

Saindo da frente do Ginásio Pernambucano, um trenzinho percorre locais emblemáticos da repressão — da Casa da Cultura (antigo presídio) ao antigo DOI-CODI — com paradas ao longo do percurso, onde atores e atrizes encenam episódios inspirados em fatos reais.
A cidade, nesse movimento, deixa de ser apenas cenário e passa a operar como superfície de inscrição — onde passado e presente, de algum modo, se encontram. O percurso termina no Monumento Tortura Nunca Mais, com uma cena que conecta a violência de ontem às tensões de hoje.

O problema nunca foi apenas o passado, mas a forma como ele segue operando.

Quando práticas de violência são relativizadas, quando abordagens abusivas se tornam comuns, quando discursos autoritários ganham espaço sob o argumento da ordem, não estamos diante de fatos isolados — mas de algo que insiste.

Não é sobre ideologia.

É sobre estrutura.

O que está em jogo, portanto, não é apenas a lembrança de um período histórico, mas a possibilidade de interromper uma lógica que se repete.

Projetos como o Circuito da Memória tensionam esse campo porque retiram o passado do conforto da abstração e o colocam em movimento — no corpo, na rua, no olhar do outro.

E isso incomoda.

Incomoda porque rompe com a ideia de que lembrar é apenas um ato simbólico.

A proposta do grupo aponta para algo essencial: aquilo que não é elaborado não desaparece — apenas encontra outras formas de se manifestar.

O Recife, ao abrir suas ruas para esse circuito, não está apenas revisitando sua história. Está sendo chamado a responder a ela.

E talvez essa seja a pergunta que ecoa:
O que fazemos, hoje, com aquilo que insistimos em não elaborar?

Mariângela Borba é jornalista, especialista em cultura pernambucana e atua na interseção entre comunicação e memória. Dedica-se à pesquisa da palavra como território de experiência e construção social.