sábado, 14 de março de 2026

#SendoProsperidade com Mariângela Borba


Quando o teatro encontra a memória
Por Mariângela Borba

Há encontros que parecem simples à primeira vista, mas carregam uma dimensão simbólica profunda. Reunir-se para falar de teatro pode ser também uma forma de conversar sobre memória, história e democracia.
Foi nesse espírito que estivemos recentemente na Faculdade de Direito do Recife, instituição que há mais de um século ocupa lugar central na formação do pensamento jurídico e intelectual brasileiro. Seus corredores guardam debates, inquietações e ideias que atravessaram gerações.

Na ocasião, conversamos sobre a apresentação de um trecho do espetáculo Retratos de Chumbo, criação do Grupo João Teimoso. A proposta é levar ao Salão Nobre da faculdade um teatro que se volta para a memória histórica, convidando o público a refletir sobre as marcas deixadas por períodos autoritários e sobre o papel da sociedade na preservação da democracia.


Participamos do encontro o diretor e dramaturgo Oséas Borba Neto, o advogado e militante de direitos humanos Marcelo Santa Cruz, o estudante de Direito Luiz Henrique Baptista, vice-presidente do Diretório Acadêmico, o promotor de Justiça José Soares, cuja sensibilidade tornou possível essa ponte entre o grupo teatral e a universidade, e eu, na condição de jornalista e produtora cultural.

Fomos recebidos com atenção e generosidade pela professora e vice-diretora da instituição Antonella Galindo, que acolheu a proposta com entusiasmo.
A apresentação de Retratos de Chumbo já tem previsão de acontecer no Salão Nobre da Faculdade de Direito do Recife, no dia 31 de março, às 19h30, com a produção trabalhando agora na viabilização dos recursos necessários para tornar o evento possível.

A data não é casual: marca, na história do Brasil, o início do golpe militar de 1964.

Mais do que uma apresentação teatral, a iniciativa aponta para algo maior: a capacidade da arte de atravessar instituições, provocar reflexão e manter viva a memória coletiva.

Ao aproximar teatro e universidade, o projeto reforça um movimento cada vez mais necessário na vida cultural do nosso tempo: reconhecer a arte como instrumento de reflexão pública, capaz de dialogar com a história e estimular novas leituras sobre o presente.

Se confirmada, a apresentação de Retratos de Chumbo no Salão Nobre da Faculdade de Direito do Recife promete unir palco e pensamento crítico em um dos espaços mais emblemáticos da tradição acadêmica brasileira.

Porque prosperidade também se constrói assim — quando cultura, universidade e cidadania se encontram para lembrar, pensar e sustentar a memória coletiva, compreendendo que o verdadeiro desenvolvimento de uma sociedade não se mede apenas por avanços materiais, mas também pela capacidade de refletir criticamente sobre sua própria história.

Mariângela Borba é jornalista diplomada, especialista em Cultura Pernambucana, produtora cultural e estrategista digital. Atuou no Ministério da Cultura, em redações e emissoras de rádio, TV e jornais, além de integrar gestões públicas municipais.
Integra a AIP e a UBE e possui formação também em Doutrina Social da Igreja. Pesquisa a palavra como território político e relacional, na interseção entre comunicação, cultura e direitos humanos.
Dedica-se atualmente aos estudos da Psicanálise, investigando as relações entre linguagem, memória e experiência social.