segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

#SendoProsperidade com Mariângela Borba

Cinema Brasileiro em Estado de Maturidade

Por Mariângela Borba

 

O Brasil chega ao Oscar de 2026 com quatro indicações, um feito inédito que ultrapassa a dimensão da premiação e sinaliza a consolidação de um ciclo de maturidade artística, política e estética do cinema nacional. Não se trata apenas de reconhecimento internacional, mas da afirmação de um audiovisual que deixa de ocupar o lugar de “exceção exótica” para se apresentar como produção autoral, consistente e competitiva no cenário global.

Entre os destaques deste ano está O Agente Secreto, dirigido por Kléber Mendonça Filho, cineasta recifense cuja trajetória simboliza, de maneira exemplar, a força de um cinema profundamente enraizado na realidade local e, ao mesmo tempo, capaz de dialogar com questões universais. A presença do filme entre os indicados reforça a potência coletiva dessa produção e reafirma o papel do cinema como instrumento de leitura crítica da sociedade brasileira.

Nesse contexto, a atuação de Wagner Moura ganha relevo especial. Consagrado internacionalmente, o ator construiu uma carreira marcada por personagens atravessados por tensões políticas, sociais e morais. Do Capitão Nascimento em Tropa de Elite (2007) e Tropa de Elite 2 (2010) à interpretação de Pablo Escobar em Narcos, passando por filmes como Cidade Baixa (2005), VIPs (2010), Elysium (2013), Sergio (2020) e Guerra Civil (2024), Moura reafirma sua capacidade de transitar entre o cinema brasileiro e o circuito internacional sem romper com narrativas profundamente ligadas à história e às contradições do país. Sua presença nas indicações reforça a relevância de intérpretes que compreendem o cinema como ferramenta política, histórica e cultural.

Outro nome incontornável neste cenário é o de Tânia Maria, artista icônica que se consolidou como um dos grandes símbolos do cinema brasileiro recente. Conhecida como “Dona Tânia”, moradora do povoado de Cobra, em Parelhas (RN), artesã e costureira de profissão, ela se tornou um fenômeno cinematográfico tardio e profundamente simbólico. Após despontar no cinema aos 78 anos, conquistou reconhecimento internacional, sendo chamada pelo The New York Times de “a melhor atriz com cigarro” e de “novo ícone do cinema brasileiro”. Desde Bacurau, Dona Tânia afirma-se como presença de resistência, ancestralidade e força feminina, demonstrando que o cinema brasileiro também é espaço de encontros intergeracionais e de reparação simbólica.

Esse reconhecimento internacional não surge de forma isolada. Ele dialoga diretamente com a história centenária do cinema pernambucano, que em 2026 completa 100 anos. O chamado Ciclo do Recife (1923–1931) foi o mais produtivo ciclo regional do cinema brasileiro em sua época e estabeleceu as bases de uma cinematografia comprometida com a representação da vida urbana, das transformações sociais e da identidade local.

O marco inaugural desse ciclo é A Filha do Advogado (1926), dirigido por Jota Soares, primeiro longa-metragem pernambucano, cujos originais foram preservados. A obra já apresentava um Recife moderno e pulsante, antecipando uma vocação narrativa que atravessaria décadas: filmar Pernambuco a partir de Pernambuco, fazendo do território não apenas cenário, mas personagem.

Cem anos depois, o cinema de Kléber Mendonça Filho se apresenta como desdobramento natural desse legado. Sua filmografia, marcada por uma abordagem crítica da história brasileira — incluindo períodos sensíveis como a ditadura militar dos anos 1970 — reafirma o compromisso com a realidade local como motor de criação estética e política. Ao fazê-lo, insere o cinema pernambucano no circuito internacional contemporâneo sem diluir sua identidade.

A proeminência de Recife no cinema brasileiro, frequentemente questionada como uma repetição de foco, justifica-se por uma trajetória histórica consistente, na qual a produção local se consolidou como um dos pilares mais críticos e politicamente engajados da cinematografia nacional. O Oscar de 2026, nesse sentido, não representa um ponto de chegada, mas a confirmação de um percurso coletivo que começou muito antes — e que, ao que tudo indica, ainda tem muito a dizer.

Recife não é apenas uma locação recorrente: é um território histórico consagrado de produção cinematográfica, onde o cinema se pensou criticamente e ajudou a moldar a identidade do audiovisual brasileiro ao longo de um século. Sua produção é reconhecida não por refletir os grandes centros hegemônicos (Rio–São Paulo), mas por ditar uma estética própria, crítica e profundamente autoral, consolidando-se como uma das alternativas mais relevantes da produção cinematográfica nacional.

 

Mariângela Borba é jornalista diplomada, especialista em Cultura Pernambucana, produtora cultural e mestre de cerimônias. Pesquisa a palavra como território político, simbólico e relacional, atuando na confluência entre comunicação, cultura, direitos humanos e inclusão. Professora, revisora credenciada e estrategista digital, atualmente dedica-se aos estudos da Psicanálise. Integra a UBE e a AIP.

Imagem feita por inteligência artificial mostra o povo Brasileiro - representado por uma mulher idosa preta - tendo vez no Mundo através do cinema.