sábado, 5 de setembro de 2020

Francisco Espínola: "Humor é quase amor; sou alérgico a ódio"


Francisco José Espínola, 49 anos (“já que em 2020 ninguém fez aniversário, né?”), engenheiro formado em computação, funcionário da Petrobrás, sergipano de Aracaju, vive atualmente no Rio. Ele poderia ser descrito como um cara normal, numa vida de funcionário público atualmente em home office devido à pandemia do novo coronavírus.

No entanto, nada disso descreve Espínola tal como o conhecemos, o “mito dos comentários”. Mas sim, os seus comentários em portais de notícias e redes sociais. Dono de um rápido raciocínio e de um dom em fazer trocadilhos engraçados, ele tem como filosofia “Humor é quase amor”. Filosofia esta que se transformou em livro, o Grandes Comentários da Internet, à venda nas livrarias de todo o País. No humor, é fã de Marcelo Adnet, Gregório Duvivier e Fábio Porchat.

Ele já foi entrevistado pelos portais UOL e Buzzfeed, pela Revista Veja e TV Globo e agora, em nosso blog, ele nos fez belas revelações sobre seus pensamentos e sentimentos, de um cara legal que tem como ídolo o pai - de quem herdou a vocação pela Engenharia - e tem no filho seu grande amor. “Nossa, essa entrevista aqui dá pra fazer um livro, né?”

1) Como isso começou na sua vida?



Na verdade, tudo começou dum jeito que eu não esperava, né? Eu sou engenheiro, me dediquei, minha vida toda à Engenharia, Física, Matemática, Ciências Exatas. Só que eu, minha vocação, realmente, desde novinho, que eu me lembro que eu antes dos nove anos, oito anos, já escrevia, então minha vocação era literatura, eu li muito na minha vida, isso me dá uma facilidade muito grande assim de vocabulário, de falar, de usar as palavras, principalmente das palavras, né? E aí, os trocadilhos saem assim.

Então, tudo começou quando eu vi que eu tava só favorecendo uma parte do meu cérebro, né? Hoje não tem mais aquele negócio do hemisfério direito, do hemisfério esquerdo, tal, mas tem áreas do cérebro que a gente não exercita muito e eu resolvi exercitar mais a partir do raciocínio paralelo e criatividade. E deixar um pouquinho de lado a parte técnica que eu já estava mestre nisso. Então, criei um exercício mental. Pra fazer o mesmo sozinho na minha, que era o seguinte: tinha uma página na internet chamada Job do Dia, agora não tem mais, no Facebook, que a pessoa mostrava uma imagem e a gente mandava uma frase, dando um título para essa imagem. E participavam publicitários, marketeiros, pessoas criativas do Brasil todo.

Então, eu achei assim, eu nunca vou ter a chance aqui não, mas eu vou treinar, porque eu vou jogar com pessoas que trabalham com isso, né? Eu trabalho com outra coisa. Mas eu vou usar isso aqui pra treinar. Então, eles davam a imagem absurda, assim, tipo, uma placa escrito assim, cão, cuidado, veneno de rato, né? E aí todo mundo ria, porque a imagem era dirigido aos cães, né? Aí, por exemplo, eu coloquei o comentário: "Só o rottweiler" [“só o rott vai ler”]. Aí depois essa piada virou domínio público, todo mundo usa.  






E a frase mais curtida, o feedback, a gente criava e recebia o feedback . E como eu sigo muito o método científico, a gente tem que fazer o nosso modelo de como as coisas funcionam e jogar, executar e retroalimentar com o feedback,, refazer e melhorar o modelo. Então, eu comecei a fazer isso nessa página, aí, comecei a ganhar, aí eu descobri, poxa vida, eu sou bom nisso, porque eu sou engenheiro, eu não trabalho com isso, estou ganhando de pessoas que trabalham com isso, de profissionais.

E eu comecei a ficar animado e aí virou um espécie de hobby, de um passatempo, só que de repente ficou grande demais isso pra mim e eu comecei a comentar a notícias mesmo, que saíam em grupos como “anão vestido de palhaço”, em páginas como “Grandes manchetes do Jornalismo Brasileiro” e no começo ninguém tinha visto isso, ninguém fazia isso, ninguém fazia piada nos comentários como eu fazia.

E o pessoal achou um absurdo, né? Como tudo que está começando, é novidade,ou como for, o pessoal vai achar doideira, e realmente tem um pouquinho de coisa maluca, maluca no bom sentido, né? Porque é maluca da criatividade. Então o pessoal começou a gostar e eu via pelas curtidas do meu comentário, se os comentários eram bons, e eu analisava porque seria ruim num próximo comentário tentaria abordar outra visão do de como fazer.

Então esse é o mecanismo que eu desenvolvi na minha criatividade. Mas o passo grande aconteceu quando realmente quando foi postado uma notícia assim, se um astronauta mata outro no espaço, como ele deverá ser julgado. Então, como ninguém fazia piadas na internet, né? Nessa época, 2015 mais ou menos sei lá. Aí o pessoal começava a tentar, mostrar que tem que saber raciocinar, que entendia direito, então cada um dava a sua opinião relacionada ao assunto sério, né?

E eu coloquei simplesmente de que trata-se de um crime sem gravidade e saí para o trabalho. Quando eu voltei tinha centenas de respostas, milhares de curtidas. E aí eu vi que tava acontecendo uma coisa muito interessante, né? Que eu descobri um caminho novo. E percebi que era isso que a gente precisava, que a rede social, essa consciência coletiva, ela precisa de mais bom humor, ela começou mal, ela começou no caminho do ódio. Naquela época 95% dos comentários era com ódio, falando mal do governo, criticando alguém, xingando, ofendendo alguém. E eu vinha com esses comentários diferentes, bem-humorados. Nunca nenhum comentário meu foi maldoso, eu não sou maldoso, eu sou alérgico ao ódio. 



Então, eu vi que a gente precisava disso, além da gente precisar disso, isso estimulava a minha criatividade. E além de estimular a criatividade, era uma coisa que era um hobby, me dava prazer, e eu era bom, eu sou bom nisso, eu tenho facilidade com isso. O meu histórico de vida me deixa numa boa posição para o que eu faço, por causa da cultura que eu tenho diversas formas de ver o mundo que eu tive, né? Porque eu já morei no Iraque, então tive uma visão de outra cultura de como as pessoas podem pensar diferentes das outras, tá?

E fora isso eu tenho muita facilidade porque tenho QI muito alto. Eu já participei da Mensa, que é uma sociedade internacional de pessoas de alto QI, e saí, porque quem é 90% dessa sociedade eram pessoas que não tinham muita compaixão com o próximo. Então, o meu QI não conseguiu ser avaliado porque bateu no teto do teste, de 164. 

Então foi tipo assim, a tempestade perfeita e aí eu comecei a ficar conhecido, comecei a ganhar seguidores, né? De repente eu tenho uma página no Facebook, 750 mil curtidas e meu perfil pessoal no Facebook tinha 340 mil seguidores, era um dos maiores perfis pessoais do Facebook, só que ele foi desativado pelo Facebook, devido a - segundo eles - violações das políticas, e não me disseram quais eram, e tá na justiça. 

Aí eu recomecei tudo no Facebook e esse ano eu descobri o Twitter, que eu devia ter descoberto há muito tempo atrás, porque é uma plataforma muito melhor pra mim, porque eu não faço só comentários das notícias lá. Eu posso, eu consigo colocar meus pensamentos, né? Algumas reflexões, tal. Então, foi assim, tem muito texto aí, hein?

2) Qual o melhor trocadilho que vc fez, na sua opinião?



Olha, os mais curtidos foram, ah, na verdade foram vários, mas os blockbusters mesmo foi do “crime sem gravidade”, dos astronautas e “velórios e furiosos”, quando o caixão caiu do carro funerário. Já fiz 10 mil comentários, é muito difícil dizer qual o melhor, mas tem uns que eu me orgulho bastante, o da blogueira fez um pão com fungo da vagina, que eu falei, “o pão nosso de candidíase nos dai hoje”, foi um exemplo de raciocínio paralelo bem complicado de fazer. 

Isso porque os fantasmas são feios, “porque ghost não se diz cute”, é um trocadilho redondinho, perfeitinho em duas línguas, é muito difícil fazer também. Tem a mulher que fugiu da quarentena, ficou com um cara e pegou coronavírus dele, eu disse que ele era um verdadeiro “Don Wuhan”, foi complexo e eu tenho orgulho dele. 

(Nota do blog: Wuhan é a cidade chinesa que foi o primeiro epicentro da Covid-19)

Mas assim, é difícil dizer, tem muita coisa assim que, eu considero boa. Ah! Tem um que eu sempre rio quando eu vejo. É um uma historinha dos fatos conhecidos, eles disseram assim: esta é o pássaro da morte, ele sempre aparece antes de grandes tragédias e apareceu antes do desastre de Chernobyl, aí tem a foto assim dum negócio assim preto, parece um fantasma com os olhos vermelhos, aí eu falei que “ele também apareceu na China no passado, mas a população comeu”. Esse eu ri bastante. Mas são vários. 

3) E o pior trocadilho?



Trocadilho ruim é aqueles muito simples, sabe? Tipo eu já fiz um tinha um cachorro subindo de elevador, daqueles elevadorzinho de idoso, em vez de subir uma escada e eu disse que “ele tinha preguiça pra cachorro”. Coisas que são muito batidas, são trocadilhos ruins.

4) De onde vem sua filosofia "Humor é quase amor"?



Essa é uma ótima pergunta, eu não sei porque, mas é a primeira vez que alguém me perguntou isso, mas é o ponto central de tudo que eu faço. Eu já estudei bastante as filosofias espiritualistas e gostei muito de algumas filosofias relacionadas ao Zen-Budismo, que fala que tudo é ilusão, que tudo a gente cria, né? Nosso próprio inferno e eu percebi o que o humor é a forma, o remédio mesmo para esses males, esses sofrimentos ilusórios que a gente tem. 

Quando a gente zoa alguma coisa, a gente tá desmontando a seriedade dessa dor. Então, quando eu faço uma brincadeira com meus amigos, né? Zoando eles, o que eu tô dizendo é o seguinte, cara, num dê importância a isso não, cara. Eu não ligo pra isso. Vamos brincar com isso, vamos deixar a vida mais leve. 

Então, aquele, aquilo que eu escrevi no meu perfil, que tá no meu perfil é muito interessante por quê? Vou trocar de luz que me fez ficar famoso foi o que trata-se de um crime sem gravidade e o que eu faço mesmo é tirar a gravidade das coisas pra fazer as coisas ficarem mais leves e assim a gente fica no céu que no céu não tem gravidade.

 



É interessante que tudo tá conectado tem um filme chamado Primavera Verão Outono Inverno né? Que no final o cara carrega uma pedra assim aí larga a pedra pra lá e dá uns respiros e tal. A gente é mais ou menos assim a gente carrega pedras que não precisa carregar. Então, o que eu faço é isso. E o fato de humor ser quase amor é por causa seguinte, eu tenho a minha conclusão pessoal, tá? Ninguém nunca falou isso, é uma máxima que eu sigo de que o amor é atenção. Então, quando eu jogo minha atenção sobre as coisas, até alguns tratamentos psicanalíticos, tal, joga a luz sobre coisas que você esconde o subconsciente se possa superar.

Quando a gente tem um filho, a gente presta atenção em tudo dele com toda força do mundo, porque a gente ama ele demais e a gente aceita tudo por causa do amor. Então, atenção total, amor total, aceitação total é tudo a mesma coisa pra mim. Então, quando eu faço o humor é quase amor, porque é chamar atenção, é fazer pessoa olhar as coisas por um viés assim de não vou me machucar com essas bobagens. Eu não vou criar uma dor desnecessária pra mim. Então é por isso que humor é quase amor. 

5) E sobre seu livro, "Grandes Comentários da Internet"?







Sobre esse livro Grandes Comentários da Internet, eu fiz um financiamento coletivo e consegui arrecadar um montante suficiente pra levar a uma editora e a Matrix entrou em contato comigo através do dono, né? E ele lançou esse livro que está à venda nas livrarias normalmente e na Amazon. 

E nesse livro eu tenho uma introduçãozinha que eu quando o meu processo criativo rapidamente e tem algumas seleções do de comentários e respostas mais inusitadas. Eu considero uma forma de exercitar a criatividade, você dá uma olhada a pessoa dá uma olhada em como eu fiz associações de ideias aparentemente desconexas e pra sim, poder utilizar também essa forma de pensar, porque é assim que se cria, você pega duas coisas separadas e junta elas pra fazer uma nova coisa. Essa é a criação.

6) Você não vive do humor, você tem outra profissão, né? Fala um pouco mais da sua vida fora das redes...


Eu tô seguindo a carreira do meu falecido pai, meu pai já faleceu tem uns 20 anos e ele era engenheiro de petróleo da Petrobras e eu acabei seguindo essa carreira porque ele era de personalidade fortíssima e conseguiu me evangelizar a ser engenheiro e acabei tendo a mesma carreira, na mesma empresa que ele. Então, eu trabalho na Petrobras e como engenheiro de petróleo e na parte de construção de poços.

7) Que mensagem você deixa para nossos leitores?



A gente precisa valorizar mais o que é inocente e puro e construtivo, por quê? O ódio é uma emoção que a gente tem, a gente tem que aceitar que não tem jeito, nós sentimos o ódio, eu não sou santo, eu sinto também, de vez em quando eu explodo de ódio, mas ah ele não serve mais, ele só servia na época que a gente que o ser humano, não tinha a inteligência. O ódio é destrutivo, por essência, ele tenta destruir, ele tenta acabar com aquilo que te ameaça. A inteligência que veio depois, ela resolveu esse problema de uma forma muito melhor, ela é uma forma de você prestar atenção nas coisas e construir ao invés de destruir.

Ao invés de ficarmos destruindo as coisas, a gente se junta pra construir um mundo melhor. E é uma sensação tão mais agradável, você não ter ódio no coração. A gente conseguir eliminar o ódio... Então o que eu recomendo é o seguinte, quando tiver ódio, quando tiver com raiva de alguma coisa, tente pensar numa forma de zoar aquilo, de brincar com aquilo, sem alimentar esse ódio, só desarmar ele.

Eu não sei porque aqui as pessoas não percebem coisa tão óbvia. Sim, pelo menos pra mim, né? Uma coisa que deveria ser prioridade, porque isso torna um ambiente mais agradável, essa é a verdade. Enfim, não há outra coisa a dizer se não o humor é quase amor.