27/01/2020

#NinguémSoltaAMãoDeNinguém [31]

Paulo tem 31 anos e é portador de deficiência. Cego, surdo e cadeirante, cada dia de sua vida é uma superação. Ainda pequeno, contraiu artrite reumatoide, seguida de uveíte (inflamação nos olhos), inflamação nas articulações e sérios problemas de visão. Na adolescência, ficou completamente cego aos 11 anos e desde os 14, não anda. Aos 19 anos, como consequência da artrite, perdeu a capacidade de audição. 

Mas isso nunca permitiu que ele deixasse de lutar e realizar sonhos. Aos 16 anos, ganhou a medalha de ouro da Olimpíada Brasileira das Escolas Públicas e atualmente trabalha como programador e criador de apps para celular. Se sente vivo e mesmo curado, quando está produzindo. E por isso mesmo, ele abriu uma Vakinha para adquirir um computador MacBook Pro para criar aplicativos. No depoimento dele a seguir, ele nos conta sobre suas necessidades. E sim, a Vakinha dele é essa aqui: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/surdo-cego-cadeirante-programador-quer-realizar-seu-sonho

Depoimento a seguir:

Amigos,

Sou Paulo Santos Ramos.
Sou surdo-cego-cadeirante e peço ajuda de todos.
Nasci em 1989.
Aos dois anos, descobriram que eu tinha artrite juvenil seguida de uveíte, que é
uma inflamação nas juntas e nos olhos, respectivamente.

A artrite, no meu caso, atacou
inicialmente os dois joelhos.
Depois, atingiu os dois cotovelos e foi avançando.

A uveíte, por sua vez, atacou com mais força o olho direito
e depois avançou para o esquerdo.
Eu fiquei baixa visão no olho esquerdo e só vendo claridade,
com certo esforço do olho direito.
Conseguia, por exemplo, ver cores com o esquerdo.

A vida foi avançando e as doenças também.
Andando cada vez mais mancando, chorando toda manhã de dor nas juntas.
Tive complexos de inferioridade, indiferenças pelo
fato de os outros meninos da minha idade conseguirem
fazer certas coisas e eu não.

Com os doze anos, todo feliz, fui mostrar à minha
mãe que eu conseguia andar de bike sem rodinhas laterais.
Eu lancei uma dúvida:
-- Mãe, vou tentar ir até o fim da rua e voltar. Se eu cair, a gente vê o que faremos, tá?

Lancei esse suspense.
Aí fui. Deu certo. Imagine minha alegria: eu me senti como os outros meninos!
Aí, cheio de planos para o dia seguinte, imaginando andar melhor,
simplesmente acordei totalmente cego: a doença avançou e descolou a retina.
A visão já estava meio embaçada nos dias anteriores, mas retomava
no nível habitual.
Todos os planos por água abaixo.

Aos catorze anos, com artrite bem avançada, eu
andava mancando indo ao quarto da minha mãe e tropecei em um
balde.
Não caí, mas deu mal jeito no pé e tiveram que me por na cama.
No período de recuperação a artrite começou a piorar de vez.
As dores já estavam fortes e as pernas entrevaram'
Os braços já estavam
assim entrevados, mas pioraram e encolheram mais.
Dedos também, pulsos e a maioria das juntas, até o maxilar,
possui a lamentável artrite.

Com os catorze ainda, tive outra tristeza. A audição sinalizava uma surdez.
Inicialmente, achava ser mera pressão do ouvido mesmo.

Iniciou-se, no fim dos meus catorze, uma surdez progressiva começou.
Com os 19, fiquei totalmente surdo.
Foi um baque grande, pois eu gostava de ver TV e
sobretudo, mexer no PC com programas leitores de tela, algo parecido com o
VoiceOver do iOS, sistema operacional do iPhone.

Mas, ao longo dessa _árdua jornada, nunca desisti da vida.
Aos catorze anos, comecei a programar sério no PC, fazendo jogos criativos.
No começo
errava muito na ortografia, pois eram jogos textuais, onde descreve
personagens, itens e ambiente.
Era chamado de burro por gente mais irreverente.
Mas continuei.

Com os 16 anos, em 2005, ganhei uma das medalhas de ouro nas Olimpíadas de
Matemática das Escolas Públicas, a OBMEP.
Fui o único deficiente n época que ganhou qualquer tipo de medalha, em 2005.

Com os 21 anos, uma professora comprou no exterior e vendeu parceladamente para mim um muito limitado display Braille, que é um
aparelho que traduz o que está na
tela de um PC para o Braille, linguagem tátil de cegos.

Ganhei outro display com os 25 e um melhor, mais moderno com os 26.
Tudo por doação, pois o pessoal ficava comovido com minha história e habilidade com
o PC, programação e celular.

Hoje, com 30 anos, quero ir mais longe.
Quero obter uns equipamentos para ampliar minha vida de programador e de acessibilidade na informática'

Esses aparelhos braille, assim como celulares e smartphones em geral,
vão se tornando mais ultrapassados com o tempo.
O que tenho agora, não entra em bons sites como entrava antes.
O que busco atualmente, tira foto de uma carta escrita a mão e traduz para
o braille possibilitando-me lê-la. Útil para eu ter acesso
a cartas, panfletos, sinopse de filmes em capas de DVDS e, é claro,
livros que não existem em braille e aí eu posso tirar foto de suas páginas
e lê-los.
Ou seja, é praticamente como se eu enxergasse, no âmbito da literatura.
Divisor de águas.

O outro equipamento que busco é o MacBook, pois só PCs da Apple compilam
programas para iPhones e dispositivos da Apple em geral.
Quero ter o melhor MacBook, para fazer, em toda plenitude, minha paixão que o
lutei contra minhas próprias limitações físicas para permanecer nela
sem desistir: programar.

Para obter esses equipamentos, faço uma Vaquinha.
Ao comprá-los, o que restar da arrecadação comprarei uma
cadeira de rodas melhor, ou coisas que melhorem o meu cotidiano.

Se 2000 pessoas doarem 30 reais, eu já alcanço o sonho.