terça-feira, julho 30, 2019

“Se eu tivesse medo de ameaças, não seria jornalista”


Você sabe o que é deepfake? Estudo conjunto entre universidades norte-americanas e o Adobe Research detectou que programas de edição de vídeo estão usando inteligência artificial para alterar conteúdos de vídeo.  A pesquisa foi feita com 138 voluntários e cerca de 60% deles afirmaram que os vídeos eram reais e, de acordo com os cientistas, o número poderia ser maior, se as pessoas não tivessem conhecimento de que era um estudo sobre edição de vídeos.

No Brasil, já há um pioneiro nesta técnica, mas que usa exclusivamente para sátiras e evidencia que se trata de um deepfake. O mineiro Brunno Sarttori (foto), de 30 anos, é jornalista, videasta e estudante de Direito. Ele ficou famoso através de suas deepfakes, vídeos em que rostos (com direito a expressões e falas) podem ser transferidos para outros corpos. Nessas edições, técnicas são combinadas para digitalizar das palavras até o scaneamento das bocas, para que o movimento dos lábios seja verossímil.

Figuras nacionais não escapam das montagens humorísticas, como o PavãoMisterioso, a Meritocracia, Ah que pena seria!, Bettina e A Melindrosa. Claro que ele mesmo protagoniza alguns desses deepfakes, como o  Hacker. A repercussão rendeu a Sarttori participações em fóruns de audiovisual em São Paulo e mesmo futuras parcerias com o jornalista Guga Noblat, ex-CQC e atual Rádio Jovem Pan.

Em meio a viagens por São Paulo e Brasília, Sarttori conversou conosco em uma entrevista exclusiva para o blog.

Como você descobriu o deepfake?
Há mais ou menos um ano e meio, eu estava em um fórum do Reddit em que estavam comentando sobre inserir rostos de pessoas famosas em vídeos pornográficos. E eu vi que o uso seria muito mais espetacular em trabalhos como os que eu já fazia, de humor. Já fazia troca de rostos em vídeos anteriores, mas usava tecnologias diferentes, não tão reais e aí eu vi a oportunidade de usar isso no meu trabalho de tecnologia, foi assim que eu descobri...

Vendo suas redes sociais, observamos que você sempre usou do humor, conta-me mais sobre isso...
Desde pequeno, há uns 15 anos eu já trabalhava com isso, assistia as charges do Maurício Ricardo, fazia com os temas da minha cidade, Unaí, sempre usando essa parte do humor, sabe? E ao longo do tempo, eu fui aprimorando, foram horas sem dormir, noites em claro, aprender, editar, pegar a sacada, fazer a paródia, faz muitos anos que trabalho com isso.

Você é jornalista e estudante de Direito. Dá pra ver paralelismos entre as duas profissões?
Cara... Eu, há dois anos e meio, eu deixei de fazer vídeos, porque eu imaginei assim, que aqui seria meu ponto final, não deu nada, o que eu tinha que fazer eu fiz, vou me dedicar a uma outra carreira, e vou partir pro Direito. E parei de fazer os meus vídeos, dois anos e meio sem fazer, mas eu continuava estudando as tecnologias em casa, fazendo com meu rosto, deep fake, e fui me aprimorando. O jornalismo, que é uma profissão que muitas vezes faz vc afrontar político, e tudo o mais, você tem que ter uma noção do Direito, até onde você está coberto, até onde você pode ir ou não, imaginei que isso me ajudaria muito na profissão, mas não pensava em seguir mais o Jornalismo, mas sim em trabalhar numa promotoria.

Verdade que você já foi preso?
Sim, é verdade, fui preso, durante uma entrevista gravada com uma vereadora, e ela se exaltou, e disse que não me conhecia, ela estava mentindo, óbvio que ela me conhecia,  e durante o áudio ela já disse que conhecia trabalhos anteriores e ela queria simplesmente uma válvula de escape  para encerrar a entrevista e o marido dela, um ficha-suja da cidade (Unaí - MG), ficou oito anos inelegível por comprar cuecas com dinheiro público, verba indenizatória, e ele estava ao lado dela. Quando encerrei a entrevista, eu pedi pra chamar o segurança e ele disse “não chame a segurança, mas sim a polícia, pra atuá-lo por desacato”, e fui acusado de ter xingado a vereadora, de ter entrado no gabinete chutando a porta e tudo o mais. Estava tranquilo, mas fui levado preso, e não cheguei a responder por desacato. Ela me processou, perdeu e eu agora estou processando ela.

Você não teme nenhum tipo de censura por parte de políticos ou minions?
A resposta é sim, mas eu não vou parar. Não vou deixar de fazer os meus vídeos, por causa de ameaças de políticos e tudo o mais. Se eu tivesse medo de ameaças, não seria jornalista. Então, pode ameaçar, já acontece. Já estou acostumado.

Vendo seus stories no Instagram, observei novos planos pro seu canal, como o Bozo Esquerdista. Pode nos contar algo sobre isso?
É um projeto para um programa de rádio aqui, em Brasília. Estou aqui na capital federal, que fica a 150 km de minha cidade, Unaí, temos o Felipe, ele que faz a voz do Bolsonaro, eu já o ouvia aqui no seu podcast Barraco no Planalto, e ficamos fãs um do trabalho do outro, e deu sorte de estarmos perto. Daí estamos conversando, temos ideias bacanas, vamos apresentar o projeto em uma rádio, esperamos que seja aprovado, mas mesmo que não seja, continuaremos aqui o projeto. Temos o meu canal e muita coisa boa pode sair desse projeto.

Como cidadão, de que maneira você avalia esses meses de governo federal?
A impressão que tenho é que o governo não sabe o que ta fazendo, são pessoas sem noção das coisas, sem ideias e todos estão perdidos, como o presidente, que tá sempre em lives, falando coisas aleatórias e agindo de forma boba, infantil.

Veja a seguir um dos trabalhos de Brunno Sarttori, sobre a #VazaJato: