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sábado, outubro 24, 2020

Arquimedes, um sobrevivente de Lo-Debar

 

04 de maio de 2012, Atibaia - SP. 

Uma operação policial, com mais de 200 homens, esteve na região para prender 10 pessoas acusadas de tráfico. Entre elas, um jovem músico e radialista chamado Arquimedes Augusto Nicastro, de 27 anos. De acordo com informações do MinistérioPúblico, a Justiça emitiu 14 mandados de prisão e 15, de busca e apreensão. 

Dentro da prisão, em meio às dificuldades e à angústia, nasceu a ideia. “Eu recebi uma carta de uma amiga minha, que me perguntou o porquê de eu não escrever sobre o dia-a-dia da prisão. Com o tempo, me deparei com os livros, comecei a ler e comecei a escrever, aos poucos e assim nasceu o livro Lo-Debar”. O nome Lo-Debar vem da Bíblia e significa “Terra dos Esquecidos”. E foi na escrita que Arquimedes, hoje com 35 anos, pavimentou o caminho para uma vida diferente e nova. 

Hoje, Nicastro trabalha como palestrante - principalmente em escolas, igrejas e instituições como a Fundação Casa, equivalente da Funase lá em São Paulo - onde conta a sua história e mostra como é a vida nas penitenciárias. Além das palestras, ele também é músico, videasta e produtor musical. Seu livro Lo-Debar: o submundo do crime, a vida na prisão pode ser adquirido em versões física e digital e você pode saber outras informações no site oficial

E a história do ex-presidiário que se tornou palestrante e youtuber, contando um cotidiano do ponto de vista de quem viveu agora chegou ao blog. Arquimedes também é estudante de Direito e muito de seu conteúdo nas redes sociais também analisa pontos de vista jurídicos e ele conversou em uma entrevista exclusiva onde ele fala de seu livro, de ressocialização, do poder das escolhas e até mesmo de haters e de como ele convive com a pecha de que ele é “defensor de bandidos”. 

Ressocialização é possível? 
A ressocialização é possível sim, com certeza. Só não é possível para todos os presos, não é possível para quem já é criminoso por natureza, de alta periculosidade, nesse caso é preciso uma avaliação com muita cautela. Mas a grande maioria tem sim, como ser ressocializada, recuperada. 

Através de que? 
Através da mudança de mentalidade da nossa sociedade, é impossível falar em ressocialização no Brasil porque o Brasil é um país preconceituoso e isso é culpa da mídia, que acabou contaminando a mente da galera. Isso de jornalistas sensacionalistas, então as pessoas veem o preso como alguém altamente perigoso, que eternamente vai estuprar, eternamente vai assassinar, mas nem todos são assassinos, a mentalidade da população é muito imbecil, do fato concreto do que é o sistema prisional, então é possível sim. Através de que? Da mudança de mentalidade da nossa sociedade, vejo isso como o ponto mais importante. 

O Brasil é o segundo país com maior população carcerária do mundo. O que, na sua visão, levou a isso? 
Se você observar, mais de 40% dos presos no Brasil é de pequenos traficantes, do traficante de biqueira, traficante que foi preso por 10g, 20g, os presídios estão lotados de pequenos traficantes. Se prende, portanto, os pequenos infratores, não se pensam em punições alternativas. Então isso acabou inchando o sistema prisional. O que levou isso foi a guerra idiota de combate ao tráfico. Isso nos Estados Unidos, em grande parte, já se abandonou, eu não vejo sentido nenhum, eu precisaria de mais tempo para explicar o porquê da guerra contra as drogas ser uma grande piada, no Brasil e no Mundo, na minha modesta opinião. 

E como, em sua opinião, isso pode ser revertido? 
Novamente eu digo que isso só pode mudar se a gente encarar esse debate sem paixões, só com a razão. Eu tenho um trabalho no YouTube (linka o canal dele) e eu percebo em alguns comentários, que as pessoas não entendem a mensagem. Eu mostro a mensagem, mas as pessoas não entendem o valor da mensagem, porque estão contaminadas por paixões, estão contaminadas por uma visão altamente equivocada. Por isso eu procuro trabalhar com o objetivo de mostrar uma visão um pouco mais equilibrada. 

Você escreveu um livro sobre sua experiência na prisão. Como foi a decisão de escrever o livro? 
A decisão partiu de um dia em que eu estava muito angustiado lá dentro; eu recebi um carta de uma amiga minha chamada Marta Carvalho, e ela me perguntou “por que você não escreve sobre o dia-a-dia da prisão?”. Num primeiro momento achei aquilo muito idiota quando eu li a carta, sobre escrever a respeito da minha vida na cadeia. E no meio das minhas angústias, muitos convites para eu acabar me drogando lá dentro, outros usando cocaína ou maconha, então me deparei com os livros, comecei a ler e amadurecer aquilo que minha amiga havia me sugerido, comecei a escrever, sem pretensões, aos poucos, tudo aquilo que acontecia no dia-a-dia da prisão e com o passar dos dias, fui amadurecendo a possibilidade, e assim nasceu o livro Lo-Debar, que significa “Terra do Esquecimento”, é um trecho tirado da Bíblia (linkar o trecho), e conta a história daqueles que eram excluídos, naquela época de Israel, e que foram viver nessa cidade, chamada Lo-Debar, em que todos os excluídos da sociedade eram enviados para Lo-Debar, a terra do esquecimento, dos excluídos para contar a minha história, e mesmo esse nome, que desperta a curiosidade, esse nome, Lo-Debar. 

Hoje você trabalha como palestrante e os públicos são escolas, igrejas e familiares de detentos. Como surgiu a ideia desse trabalho e o que você pretende mostrar aos seus públicos? 
Eu sou palestrante, eu faço palestras em escolas e um dessas palestras é exatamente “Entrando em Lo-Debar”, que tem, inclusive alguns trechos lá no meu canal, eu acho que Deus acaba designando algumas missões para a gente, e essa foi a missão que Deus me designou, de poder levar para as pessoas uma visão sobre o sistema prisional. O nome de uma das palestras é “O Poder das Escolhas”, que sintetizando, eu posso dizer “você pode escolher o caminho A e o caminho B”, cada escolha dessas tem uma consequência, você é livre, mas deve passar por qualquer uma dessas consequências, Então eu jogo essa responsabilidade onde ela deve estar, no sujeito, entendeu? Fazemos esse trabalho em clínicas - agora com essa pandemia parou mais - dei palestras na Fundação Casa (antiga FEBEM em SP) em escolas, igrejas, clínicas de reabilitação, tudo no propósito de convidar as pessoas para refletir, e até mesmo agora já engajado no YouTube, tenho tentado fazer isso, não que eu seja o dono da razão, mas convidá-los a refletir numa outra perspectiva, e isso começou quando uma professora me convidou para palestrar em um escola, na semana de prevenção e combate às drogas e assim uma palestra puxou a outra... 

Já aconteceu de chamarem você de defensor de bandido? Como vc lida com isso? 
Isso acontece no YouTube diariamente. Os comentários são diversos lá. Eu recebo muitas mensagens no YouTube, de pessoas que gostam do meu trabalho, e há uma boa porcentagem de pessoas que não entendem, que têm uma deficiência psicológica e até mesmo didática em entender que não estou aqui para defender bandido no YouTube. Meu papel ali, é mostrar outra perspectiva, de juntar as informações de uma forma mais sábia. Porque você vai sempre cometer equívocos na sua vida, se você for parcial. E o que te faz uma pessoa imparcial? É quando você analisa um ponto, depois analisa outro ponto, e vai juntar o contraponto e analisar de acordo com o seu senso crítico, seu senso moral, essa é a grande proposta. Mas como muitas pessoas não conseguem te vencer, pelo argumento, eles usam o que chamamos tecnicamente de Argumento Ad Hominem, que, em termos jurídicos, quer dizer “se eu não destruo suas ideias vou destruir você!” então essa é uma grande questão, difícil de lidar e hoje em dia, eu tento deixar muitos haters de lado, porque percebo que eles não conseguiram compreender a gênese do conteúdo do meu trabalho em si.

Veja aqui o anúncio do seu livro Lo-Debar: o submundo do crime, a vida na prisão:

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