domingo, 29 de março de 2026

#SendoProsperidade com Mariângela Borba

A inteligência artificial está moldando o pensamento humano

Por Mariângela Borba.

 

A expansão acelerada da inteligência artificial no cotidiano profissional e pessoal já não levanta apenas questões tecnológicas. O debate agora avança sobre um território mais sensível: a autonomia do pensamento humano.

Relatórios recentes do World Economic Forum, especialmente no Future of Jobs Report, indicam que habilidades como pensamento crítico, criatividade e capacidade analítica seguem entre as mais valorizadas do futuro — ao mesmo tempo em que se intensifica a dependência de sistemas automatizados para tomada de decisão. A tensão é evidente.

Na prática, nunca se produziu tanto conteúdo em tão pouco tempo. Ferramentas de IA entregam textos mais estruturados, respostas mais completas e raciocínios aparentemente mais refinados. Mas especialistas começam a questionar o custo desse ganho.

Pesquisas e discussões conduzidas pela American Psychological Association apontam para um fenômeno emergente: a possibilidade de redução do esforço cognitivo em atividades complexas, o que pode impactar diretamente a capacidade de elaboração própria ao longo do tempo. Em outras palavras, pensar pode estar se tornando uma atividade parcialmente terceirizada.

O ponto central não está apenas na ferramenta, mas no padrão que ela ajuda a consolidar.

Estudos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD) sobre inteligência artificial e produtividade já sinalizam que sistemas amplamente utilizados tendem a influenciar critérios de qualidade, confiabilidade e até mesmo lógica argumentativa. Quando milhões de pessoas recorrem às mesmas bases e estruturas, o que se estabelece não é apenas eficiência — mas também uniformização.

Essa leitura é aprofundada por centros de pesquisa como o Stanford University (Human-Centered AI), que investigam como sistemas inteligentes interferem na tomada de decisão humana. Um dos achados recorrentes é que, diante de respostas bem estruturadas, indivíduos tendem a reduzir o questionamento — mesmo quando há espaço para contestação.

No Instituto de Tecnologia de Massachusetts ( MIT), estudos sobre criatividade e automação reforçam esse alerta ao identificar que, embora a IA amplie a geração de ideias em volume, pode reduzir a diversidade criativa em nível coletivo, à medida que padrões se repetem.

O resultado é um paradoxo contemporâneo: produzimos mais, mas corremos o risco de pensar de forma cada vez mais parecida.

Esse cenário ganha uma dimensão ainda mais relevante quando observado sob a ótica do trabalho. A recente atualização da NR-1, ao incorporar a gestão de riscos psicossociais, amplia o entendimento sobre saúde ocupacional e inclui fatores que vão além do ambiente físico.

Embora não trate diretamente da inteligência artificial, a norma abre espaço para uma reflexão inevitável: quais são os impactos cognitivos e emocionais de um ambiente em que decisões, ideias e análises passam a ser mediadas por sistemas?

A possível perda de autonomia intelectual, ainda que sutil, se insere nesse contexto como um risco emergente.

Especialistas apontam que mesmo profissionais que não utilizam diretamente ferramentas de IA tendem a ser impactados. A padronização de entregas e expectativas de desempenho cria uma pressão indireta por adaptação, reduzindo margens para estilos próprios e abordagens divergentes.

Nesse ambiente, o diferencial competitivo começa a se deslocar.

Se, por um lado, a inteligência artificial amplia capacidades, por outro, valoriza-se cada vez mais quem consegue sustentar pensamento crítico independente — inclusive diante das respostas prontas.

A questão, portanto, não é rejeitar a tecnologia, mas compreender seus efeitos.

Porque “pensar fora da caixinha” exige esforço, conflito interno, tempo de maturação e, acima de tudo, estudo e conhecimento.

E é justamente esse processo — imperfeito e, por vezes, desconfortável — que sustenta a originalidade.

Ao reduzir fricções, a IA também pode reduzir a profundidade.

A longo prazo, o risco não é apenas técnico. É cultural.

Menos divergência, menos ruído, menos identidade.

E, talvez, menos humanidade no modo como construímos conhecimento.

Diante desse cenário, a pergunta deixa de ser sobre eficiência e passa a ser sobre consciência:

👉 Estamos usando a inteligência artificial para expandir o pensamento — ou para substituí-lo?

👉 E mais: em um mundo de respostas cada vez mais rápidas, ainda estamos dispostos a sustentar perguntas difíceis?

Porque, no fim, prosperar não será apenas acompanhar a tecnologia.

Será preservar aquilo que ela não consegue padronizar completamente:

a capacidade de pensar por conta própria.

 

Mariângela Borba é jornalista diplomada, especialista em Cultura Pernambucana, produtora cultural e estrategista digital. Atuou no Ministério da Cultura, em redações e emissoras de rádio, TV e jornais, além de integrar gestões públicas municipais.

Integra a AIP e a UBE e possui formação também em Doutrina Social da Igreja. Pesquisa a palavra como território político e relacional, na interseção entre comunicação, cultura e direitos humanos.

Dedica-se atualmente aos estudos da Psicanálise, investigando as relações entre linguagem, memória e experiência social.