Podcast Tais Paranhos

quarta-feira, janeiro 29, 2020

A Rua como Sala de Aula

Jessie Vidal, 28 anos, é do Rio de Janeiro e está se formando em Pedagogia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Militante do PSol, está à frente de uma iniciativa, ainda solitária, mas altamente política (não-partidária, ressalta-se) com a Educação Popular na Praça, onde quem quiser, pode sentar-se com ela e ter aulas de português, inglês, matemática e cidadania. Tem como sua maior influência o educador pernambucano Paulo Freire (1921-1997) e aproveitou suas férias para ler os livros Alfabetização: Leitura do mundo, Leitura da Palavra e Educação como Prática da Liberdade. Sua iniciativa está atraindo outros jovens e se você é do Rio de Janeiro e quer conhecer mais sobre a Educação Popular na Praça, segue o Twitter @EdPopnaPraca.

Leia a seguir o depoimento de Jessie:

Ao perceber que em 2018 o Brasil estaria entrando em um período bastante inflamado pelas divergências de ideais políticos e sociais, marcado tristemente pelo assassinato de Marielle Franco, e principalmente de alienação promovidos por um ataque cibernético de fake news, juntando minha vivência na Faculdade de Educação, com as discussões e leituras, percebi que algo deveria ser feito para promover uma Educação crítica, capaz de incitar dúvidas em assuntos muitas vezes dados como verdade absoluta.

Lembro que nesse mesmo ano, um projeto iniciado por Silvério Moron e intitulado "Adote um Aluno" surgiu por volta de março, o qual só tive conhecimento em outubro, momento oportuno para produzir meu trabalho etnográfico para a disciplina de Antropologia da Educação. Resolvi abordar os aspectos educacionais do projeto, visto que estava aprendendo sobre as teorias de ensino (tradicional, crítica, pós-crítica e pós-estruturalista), e também os critérios usados para recrutar os voluntários. Ao final da pesquisa, o projeto havia se expandido para o Grajaú e Flamengo, e eu sentia cada vez mais vontade de aplicá-lo no meu bairro, até registrado na conclusão da pesquisa, mas não me sentia preparada ou até mesmo formada para exercer tal função de extremo valor. 

Em 2019, acompanhando o quadro político brasileiro, resolvi me envolver em movimentos sociais de educação, me filiar ao Partido Socialismo e Liberdade, o qual me proporciona e proporcionou boa parte da minha formação crítica e também a atuar em uma ONG voltada ao ensino de Inglês. Encontrei no Twitter uma chamada para o Emancipa DEGASE (assumo que não conhecia o órgão e fui pesquisar, mas me empolguei ao saber que uma das figuras políticas que admiro, Marcelo Freixo, também havia atuado lá dentro), e ao ser selecionada, passamos por uma formação pedagógica intensa, e fomos juntos aprimorando a área pedagógica, formulando planos de aula e atividades a serem trabalhadas com os jovens em privação de liberdade, o que contribuiu imensamente para a minha emancipação. 

Posso dizer que o Emancipa DEGASE foi uma transformação na minha vida, não só por me achar politicamente em um movimento e estar lado a lado com seu magnífico bandeirão verde da Marielle nas aulas públicas ministradas nos dias de atos pela educação, mas por aprender a conhecer meus limites e ao mesmo tempo tentar sempre um pouco mais. Assim como o Emancipa, a atuação na ONG Cidadão Pró-Mundo, antes sendo em uma associação de moradores com estrutura precária no bairro do Corcovado - as janelas não tinham vidro, então em todo o período de chuvas do Rio de Janeiro precisávamos chegar mais cedo para secar as salas - e agora em um colégio Ph em Botafogo, RJ, foi imprescindível para minha relação com os educandos da região, provendo aulas de Inglês focadas em metodologia comunicativa e trabalhando com poucos recursos de modo a transformar as aulas. 

Por ter bastante experiência na área, completando 10 anos de profissão em 2019, pude contribuir com formações para os "volunteachers", como são chamados, em relação a dicas de sala de aula e a construção em conjunto de um quadro pedagógico da recém-criada unidade Botafogo. Por ter uma vida acadêmica bastante turbulenta - nos últimos 10 anos eu me aventurei em 5 cursos diferentes, iniciando por Letras Português-Inglês, perpassando por Moda e Publicidade, indo para Francês e finalmente me encontrando na Pedagogia depois de cogitar Filosofia -, pude ter uma miríade de experiências nas mais diversas áreas, e todo o conhecimento adquirido nesses cursos formam a essência do que me tornei hoje. 

Com isso, as aulas que proponho perpassam vários assuntos que me sinto apta a comentar e construir com meus educandos. Todo essa retrospectiva do meu trajeto é importante para entender melhor a gênese do projeto, que desde sua idealização demorou dois anos para sair do papel, me preparando e especializando, e principalmente cuidando de minha saúde mental. Na virada de 2019 para 2020, aproveitei o pequeno período de férias para atualizar minhas leituras, onde me propus a ler dois livros freirianos: Alfabetização: Leitura do mundo, leitura da palavra e Educação como Prática da Liberdade, que passei a considerar dois livros "sagrados" do autor e que me inspiraram para iniciar meu projeto. 

Lembro de ter um caderno ao meu lado e fazer as pontuações planejando o projeto, seus ideais, atividades propostas, dentre outros. O grande porém, no entanto, era criar a coragem necessária pra sentar na praça disposta a dialogar, ensinar e principalmente aprender. Posso afirmar que uma das razões para o projeto finalmente sair do campo das ideias e se solidificar foi a recente crise do MEC com o ENEM, prejudicando o processo seletivo para milhares de futuros universitários. Por ser uma militante da Educação e execrar os cortes e descaso desta no Brasil, me senti impulsionada a iniciar esse movimento. 

O Educação Popular na Praça tem objetivos claramente políticos, mas não partidários, e sim por se tratar de Educação e esta por si só ser um ato político. A ocupação do espaço público como forma de conscientização, de aprendizado e troca de vivências é uma das formas que achei de me comunicar com os moradores, trabalhadores e transeuntes da região. De atingir a classe trabalhadora, quem sofre a opressão diária de nosso sistema de capitalismo selvagem e quem não tem a oportunidade de ter uma educação que vai além dos conteúdos curriculares. 

Nesses dias de experiência, pude atuar como conselheira e psicóloga, pois acredito ser na base do diálogo, respeitando e sabendo ouvir que o conhecimento se constrói, além de aprender MUITO com todas as pessoas que encontrei. Tenho um caso em especial da Raquel, que conheci através de seu pai que veio conversar comigo, demonstrando preocupação com o que parecia ser um quadro depressivo, onde percebi que ele só precisava desabafar. Tentei fazer com que ele refletisse sobre a realidade de jovens como ela, que precisam decidir o rumo da vida, estão no limiar entre a juventude e adultidade, sendo jogadas a todo um novo mundo sem esperanças, afogadas em redes sociais...ele ouviu com carinho e a convidei para conversar. Ela apareceu dois dias depois, numa tarde chuvosa, e pude perceber a pessoa doce e inteligente que passou por tudo que eu e muitas pessoas já passaram: o ingresso na faculdade, a saída da escola, dentre muitas outras coisas. Conversamos bastante, juntamente com sua mãe e tornamos amigas, inclusive adotei um dos gatinhos resgatados por ela! 

Como não posso prever quem sentará na praça, não tenho traçado um plano curricular. Pretendo trabalhar conteúdos também, mas de forma interdisciplinar, crítica e trazendo para a realidade dos educandos, sempre provocando deles um tema a ser trabalhado. Estou recebendo várias mensagens de colaboração, como a Gabriela, educadora de História do projeto, que conheci vía Twitter após a divulgação em minha rede, e estamos estruturando uma forma de fazer uma formação crítica desses educadores que pretendem ajudar no projeto, pois acredito fielmente na frase que minha professora de Currículo, Regina Celi Cunha de Oliveira, uma vez proferiu em aula: "Um médico mal formado mata vidas. Um professor mal formado mata subjetividades". Essa frase tem grande impacto em mim até hoje, pois é essencial prover uma formação emancipadora aos educadores, pois somente assim serão capazes de transformar a realidade ao seu redor e a vida de seus educandos. 

Com a atuação no Emancipa DEGASE, aprendi que de nada vale o discurso salvacionista, a não ser para atrapalhar os planos de emancipação. O objetivo do processo educativo do projeto não se dá somente pela ascensão social, mas da ascensão de pensamentos, para que o sujeito em processo de emancipação reflita criticamente sobre a sociedade, seu processo histórico e seu papel nessa, com um sistema que intencionalmente massacra as ideias e gera sujeitos alienados e disciplinados. Eu não me sinto uma pessoa iluminada por passar meu conhecimento, e não estou lá para que as pessoas sejam "melhores" depois de falar comigo. Estou ali para dialogar, conhecer melhor meus vizinhos e principalmente para aprender com eles. Sinto que tenho tanto a aprender com as pessoas da rua que eles deveriam estar me dando aulas! E meu objetivo é deixar isso bem claro para todos que têm a intenção de participar do projeto, pois não gostaria de reproduzir os valores capitalistas de "salvação". 

Ninguém precisaria ser "salvo" da miséria se não houvesse uma disparidade tão grande entre classes. Enquanto um não tem o que comer, o outro reclama por pagar caro demais na passagem para o exterior. E é muito fácil fazer caridade para "sanar" o peso na consciência de explorar tanto a classe trabalhadora, ou mostrar pra mídia que se importa. Educação não deve ser tratada como mercadoria ou indústria. É algo que é intrínseco do ser humano, é libertador, é desafiador, é atravessar as barreiras da ignorância e do sectarismo, que envolve e encanta. 

Educar é uma das melhores coisas da minha vida e eu acredito realmente que a educação é o caminho para uma sociedade mais justa, unida e estruturada, com pessoas sabendo lidar com suas divergências e se apropriando de suas próprias vidas. Meu sonho de pedagoga pode parecer utópico, mas acredito que sabendo plantar pequenas sementes, conseguimos colher os frutos a longos passos, mas trilhados com sabedoria. Educação é uma solução a longo prazo que muitos não veem sentido em esperar, por isso sigo regando minhas plantinhas todos os dias com o pouco que posso oferecer.