domingo, 11 de janeiro de 2026

#SendoProsperidade com Mariângela Borba

Não foi a cancela que me prendeu. Foi a falta de cuidado

Quando o detalhe afasta: a experiência do cliente começa onde ninguém olha

Por Mariângela Borba*

 

Olá, você, leitor do #SendoProsperidade, tudo bem?

Nunca faça com seu cliente o que uma grande rede de supermercados aqui do Nordeste e, que chegou relativamente há pouco aqui na capital pernambucana, fez comigo. Pode parecer pouco. Pode soar irrelevante. Mas são esses “poucos” que constroem — ou destroem — relações.

Depois da missa de domingo, saí para almoçar com meu pai. A ideia inicial era um restaurante de frutos do mar, mas estava lotado. Mudamos o plano e fomos para um supermercado próximo, que tem um buffet bem servido no horário do almoço.

Chegamos. A cancela do estacionamento estava aberta. Entrei, estacionei no subsolo e subimos. Almoçamos, tomamos o cafezinho, demos uma volta no mercado e compramos alguns itens para casa. Como eu havia guardado espaço para a sobremesa, fui de gelato — calor do Recife pede isso.

A moça me serviu, mas não me devolveu a nota. Normalmente devolve. Desta vez, não.

Quando fui sair, a cancela estava fechada.

Aproveitei que não havia carro atrás e falei com um segurança ali perto. Educado, ele disse:

— Não tem problema, senhora. Encoste ali e vá ao guichê pegar um bilhete avulso.

Fui. Havia um casal atendendo: uma moça já de mochila, como quem estava saindo, e um rapaz no computador. Expliquei tudo. A moça pediu meus documentos, entregou ao rapaz, que mal conferiu e devolveu.

Ele pediu a placa, sem conferir com o documento. Eu disse.

Perguntou o horário de entrada. Domingo, sem relógio. Fiz uma estimativa mental. Ele digitou, pediu a nota. Entreguei a do mercado. Ele perguntou se havia outra. Fui ao carro buscar a do almoço.

Registrou. E disse:

— Vai dar dois reais.

Perguntei:

— Dois reais de quê?

Ele não soube explicar. Só disse que era pelo tempo de permanência. No balcão, ironicamente, havia um Código de Defesa do Consumidor, bem surradinho.

Expliquei que a atendente do gelato não havia me devolvido a nota. Disse que éramos clientes frequentes. Ele, impassível, respondeu que eu teria que ir atrás da moça — que, a essa altura, já tinha jogado a nota fora muito provavelmente.

Perguntei quem era o responsável. Ele disse que não tinha. Insisti. Ele chamou pelo rádio.

Depois de um tempo, veio uma senhora com uniforme do supermercado — não da empresa terceirizada do estacionamento, que se diz de “gestão profissional e operação eficiente”. Quando o estacionamento era operado pelos próprios funcionários, o atendimento era infinitamente melhor.

Expliquei tudo de novo. Ela perguntou ao rapaz se ele tinha dado determinado comando. Ele disse que sim. Ela suspirou, balançou a cabeça e digitou outra coisa no sistema.

— Pronto. É só colocar esse papel na cancela.

Agradeci. Voltei ao carro.

Ironia das ironias: quando fui sair, a cancela estava aberta.

Passei. Por ela mesma, lógico .

A coluna desta semana não é sobre estacionamento. É sobre cuidado.

É sobre zelo com o cliente.

É sobre atenção ao detalhe.

Se aquele atendente tivesse sido treinado, seguido protocolo ou, simplesmente, chamado a supervisão por iniciativa própria, nada disso teria acontecido. Se o supermercado acompanhasse de perto os serviços que terceiriza, também não.

Isso faz parte da jornada de compra. Do primeiro passo dentro da loja até o último contato com a marca. Cada ponto importa. Cada contato comunica.

Chamamos isso de pós-venda. Ou, no jargão do mercado, Customer Experience — o tal do CX.

Parece pequeno? É.

Mas muitos “pequenos” acumulados viram motivo para trocar de marca, de loja, de fornecedor.

Isso acontece o tempo inteiro: com empresas grandes, médias ou pequenas. Por isso trago essa história para o #SendoProsperidade: para lembrar que não existe crescimento sem cuidado.

Terceirizar não é abandonar.

Delegar não é se isentar.

Dá trabalho? Dá.

Mas é isso que aumenta o LTV — Lifetime Value — o tempo que o cliente permanece comprando de você.

Cuidar da experiência é cuidar da saúde do negócio.

Um LTV alto significa clientes fiéis, recorrentes e mais lucrativos.

Prosperar não é só vender mais.

É fazer o cliente querer voltar.

E isso começa onde quase ninguém olha:

No detalhe.

 

*Mariângela Borba é professora, jornalista diplomada, produtora cultural e mestre de cerimônias. Pesquisa a palavra como território político, simbólico e relacional, atuando na confluência entre comunicação, cultura, direitos humanos e inclusão. Professora, revisora credenciada e estrategista digital, atualmente dedica-se aos estudos da Psicanálise. Integra a UBE e a AIP.