A arquitetura do medo
Por *Mariângela Borba
“Age apenas segundo uma máxima tal que possas querer que
ela se torne lei universal.”
— Immanuel Kant, Fundamentação da Metafísica dos Costumes
(1785)
“Não façamos o mal para que venha o bem.”
— Carta aos Romanos 3,8
Há uma pergunta que atravessa séculos e continua
desconfortável: os fins justificam os meios?
Na ética kantiana, a dignidade humana não pode ser
instrumentalizada. Pessoas não são ferramentas a serviço de projetos maiores —
políticos, econômicos ou estratégicos. São fins em si mesmas. Quando esse
princípio é relativizado, o que se fragiliza não é apenas um argumento — é a
própria ideia de humanidade compartilhada.
Vivemos sob a promessa constante de segurança. Ela aparece
nos discursos, nas campanhas, nas decisões que endurecem políticas e aceleram
escolhas. Segurança tornou-se palavra-mestra. Palavra que encerra debates.
Palavra que silencia nuances.
Mas o que estamos chamando de segurança?
Quando estabilidade depende da produção contínua de ameaças,
quando a política se organiza em torno da antecipação permanente do perigo,
quando o medo se torna ferramenta legítima de gestão social, algo se desloca
silenciosamente.
Não é preciso explosão para que haja violência.
Existe violência na linguagem que desumaniza.
Na estrutura que exclui.
Na normalização da exceção como regra.
Há uma indústria do medo — sofisticada, difusa, eficiente.
Ela mobiliza afetos, organiza mercados, redefine prioridades. E, pouco a pouco,
molda nossa percepção do que é aceitável.
Desde Aristóteles, sabemos que a política deveria existir
para promover a vida boa em comunidade. Se o horizonte coletivo se estreita ao
ponto de transformar o outro em ameaça permanente, talvez estejamos confundindo
proteção com controle.
Prosperidade não é supremacia.
Prosperidade não é intimidação.
Prosperidade não é a capacidade de neutralizar.
Prosperidade é a possibilidade de florescimento mútuo.
O capital é instrumento — não finalidade.
O poder é responsabilidade — não troféu.
A influência é meio — não essência.
Quando aceitamos que certos meios são “inevitáveis” porque o
mundo é complexo demais, começamos a relativizar aquilo que deveria ser
inegociável: a dignidade humana.
E essa relativização raramente começa de forma dramática.
Ela começa em pequenas concessões.
Em silêncios confortáveis.
Em justificativas pragmáticas.
A pergunta que permanece é menos geopolítica e mais
interior:
Estamos construindo segurança ou apenas aprendendo a
conviver com o medo?
Porque quando a violência — ainda que simbólica — deixa de
nos causar estranhamento, algo fundamental já foi perdido.
Prosperidade que nasce do medo é frágil.
Prosperidade que nasce da dignidade é sustentável.
E talvez a verdadeira segurança não esteja na eliminação do
outro, mas na preservação do que nos impede de perder a alma.
Mariângela Borba é jornalista diplomada, especialista em
Cultura Pernambucana, produtora cultural e estrategista digital. Atuou no
Ministério da Cultura e em gestões públicas municipais, integra a AIP e a UBE e
tem formação, também, em Doutrina Social da Igreja. Pesquisa a palavra como
território político e relacional na interseção entre comunicação, cultura e
direitos humanos. Dedica-se atualmente aos estudos da Psicanálise.