Maturidade Não É Conforto
Indefinição não é neutralidade — é estrutura
“Por causa desta palavra, podes ir.” (Mc 7, 29)
Nem todo vínculo termina por ausência de afeto.
Alguns terminam porque a indefinição deixa de ser tolerável.
Por Mariângela Borba*
A contemporaneidade romantizou o “viver o momento”. No entanto, quando o momento se prolonga sem direção, deixa de ser leveza e torna-se suspensão.
O Carnaval — nossa catarse coletiva mais explícita — ilustra bem essa lógica. A inversão de papéis, a euforia, o excesso. Depois, a quarta-feira de cinzas. Não se trata de moralizar a folia, mas de reconhecer que toda extravasão exige eixo. Sem centralidade, a liberdade se confunde com dispersão.
Suspensão emocional não é fase. É modelo.
A repetição do quase
Freud identificou na compulsão à repetição o retorno insistente a arranjos psíquicos familiares, ainda que insuficientes. No campo afetivo, isso se manifesta na manutenção de vínculos que oferecem presença e intimidade, mas evitam inscrição simbólica.
Há convivência.
Há proximidade.
Há usufruto.
Mas não há posição.
Pausa não é projeto.
Os atos falhos — que não se limitam à linguagem — também se expressam em condutas. Adiar definições.
Habitar a intimidade sem assumir reciprocidade estrutural. Reiterar o mesmo formato relacional sob a justificativa da espontaneidade. O comportamento revela aquilo que o discurso prefere não fixar.
Quando a dinâmica se repete, já não é ruído. É padrão.
O corpo como fronteira
Lacan advertiu que o desejo precisa ser reconhecido na ordem simbólica. Quando não o é, retorna como sintoma. O corpo antecipa a razão: aperto no peito, inquietação, sensação de redução subjetiva.
Não é excesso. É desalinhamento.
Entre a chuva fina e o trovão, há um acúmulo silencioso. O carnaval expõe máscaras; a consciência recoloca limites. A folia revela. A maturidade organiza.
Maturidade não é conforto
Donald Winnicott associou maturidade à capacidade de sustentar responsabilidade pela própria vida interna, tolerando frustração sem regressão. Em termos diretos: não brincar de casinha fora de fase.
Simular estabilidade onde não há estrutura é autoengano sofisticado.
O amor pode permanecer — mas sem brilho quando não encontra reciprocidade simbólica. O medo de perder é humano. Perder-se para manter é corrosivo.
Prosperidade emocional não é intensidade; é expansão de identidade. Quando um vínculo exige redução da voz, contenção do brilho, acomodação da ambição e vigilância constante da própria leveza, há incompatibilidade estrutural.
Direção é maturidade
Em Matrix, a realidade já estava posta; o que muda é a decisão de enxergá-la. A maturidade opera nesse registro: não altera de imediato o cenário externo, mas redefine a posição subjetiva.
Direção, aqui, não é controle do outro. É condução de si.
Indefinição prolongada não é neutralidade. É escolha — ainda que silenciosa.
Entre pausa e projeto, há decisão.
Quem se torna menor para caber adapta-se.
Quem sustenta a própria dimensão amadurece.
Maturidade não é conforto.
É lucidez com responsabilidade.
Prosperar, no campo psíquico, é permanecer inteira — mesmo quando isso implica sair da suspensão.
*Mariângela Borba é jornalista diplomada, especialista em Cultura Pernambucana, produtora cultural e mestre de cerimônias. Pesquisa a palavra como território político, simbólico e relacional, atuando na confluência entre comunicação, cultura, direitos humanos e inclusão. Professora, revisora credenciada e estrategista digital, atualmente dedica-se aos estudos da Psicanálise. Integra a UBE e a AIP.