Podcast Tais Paranhos

sexta-feira, março 06, 2020

Um evangélico a favor dos pobres

Alexandre Gonçalves é de Joinville/SC e há 25 anos é pastor evangélico e já serviu no JOCUM (Jovens com uma missão) em países como Cuba e Equador. Paralelo às atividades eclesiásticas, Gonçalves é policial rodoviário federal e diretor parlamentar do Sindicato dos Policiais Rodoviários Federais em Santa Catarina. Em meio às polêmicas causadas por "evangélicos", fariseus e adjacentes, Pastor Alexandre, em entrevista ao blog, esclarece muitas coisas, como, por exemplo, "crentefobia"...

Existe "crentefobia"?
Não. O que houve durante uma época (uns 30 anos atrás) era um preconceito generalizado contra protestantes em virtude de o Brasil ser ainda um país de maioria católica sincrética. Hoje o que ocorre é que os crentes, com seu apoio incondicional ao atual presidente, trouxeram para si toda a antipatia que o povo nutre por este mesmo presidente. Esse é um preço caro que a Igreja vai pagar por esse apoio e isso definitivamente não tem nada a ver com crentefobia.

O que é ser cristão?
Ser cristão, pela definição da palavra, é ser uma cópia de Cristo. Esse termo na verdade não era usado pelos primeiros cristãos tanto que na Bíblia ele é utilizado apenas 2 vezes e na boca de pessoas alheias à fé cristã. O termo que define melhor o chamado cristão é discípulo. Discípulo está na Bíblia mais de 200 vezes e se refere a um seguidor que ouve tudo o que seu mestre diz e cumpre. Ser discípulo de Jesus é ser um ser humano nascido de novo, pela água e pelo Espírito. É ter sido alvo do ato de regeneração do Espírito Santo. É ser alguém que, pelo Espírito, ama e serve aos outros como se estivesse amando e servindo a Cristo. É mais fácil definir do que ser.

Como o senhor vê a ascensão de lideranças evangélicas na seara da política?
Vejo com grande preocupação. Denuncio isso desde início da década de 1990 quando no RJ as igrejas foram orientadas a votarem em Francisco Silva, dono da Rádio evangélica Melodia e Arolde Oliveira, dono de uma gravadora evangélica. Essa mistura não tem nenhum amparo no evangelho. A Igreja deve manter-se em distância segura de qualquer governo. Uma coisa é um cristão querer se candidatar e procurar no meio do povo em geral esse apoio. Outra coisa é um pastor usar de sua função para se eleger. Isso é uma forma clara de corrupção da função ministerial.

O senhor é progressista, e ao mesmo tempo, Pastor. Como o senhor consegue conciliar tudo isso?
Não sei se sou progressista. Tenho medo desses rótulos. Sou apaixonado pelo Evangelho de Jesus e esse Evangelho não deixa eu aceitar que existam pessoas morando na rua, crianças sem refeições, banqueiros saqueando os recursos que deveriam ser usados para o povo. Não tolero, assim como Jesus, o ódio contra as minorias marginalizadas. Também não posso aceitar que um governo dê migalhas aos pobres enquanto os ricos se banqueteiam nas benesses estatais, tal qual os rentistas e os banqueiros. Se isso é ser progressista, então eu sou. Mas não abro mão de nenhuma doutrina do Evangelho. Quanto a dificuldade no meu meio, hoje é bem mais difícil. Em minha visão, um espírito de engano paira sobre os pastores. Algo que tem relação com a escatologia teológica. Tempos difíceis como Jesus definiu. É uma luta constante e nessa minha longa caminhada perdi muitos amigos que outrora visitavam presos nós presídios e hoje dizem que bandido bom é bandido morto.

Que mensagem o senhor deixa aos nossos leitores?
Que saibam diferenciar o joio do trigo. Existem muitos pastores e líderes protestantes que não se dobraram a essa onda de ódio. Nós só não temos recursos para termos a voz que os mensageiros do ódio têm. Tenham esperanças que o amor vence o ódio. Jesus é a prova disso pois mesmo que ele tenha sido crucificado pelo ódio e preconceito, ele ressuscitou e está vivo em nós e na história. Deus abençoe a todos!