🎤 O comediante Davi Villa Real encontrou no próprio diagnóstico de TDAH e em possíveis novas neurodivergências o ponto de partida para criar seu show Terapia da Comédia Comportamental. Ele explica que a comédia sempre foi uma forma de falar de si mesmo, e isso gera identificação imediata com o público. “Quando a gente fala das nossas dores, causa identificação com quem também tem essas dores”, afirma. A inspiração também veio ao ver outro artista lotar sessões com uma proposta semelhante, voltada à psicologia. Assim, percebeu que existe um público que quer rir, mas também refletir. Hoje, ele diz que o show vende mais pelo nome do que pelo seu próprio nome.
🧠 Em paralelo à carreira, Davi Villa Real vive seu segundo ciclo de terapia. Ele conta que não é de esconder nada da terapeuta, mas também não é alguém que chega falando espontaneamente sobre tudo. “Eu sou transparente ao ponto de que me perguntam e eu falo”, diz. Ainda assim, admite que não consegue puxar certos assuntos por conta própria. A terapia, segundo ele, é parte essencial do processo de autoconhecimento que alimenta seu trabalho. Entre sessões e reflexões, ele vai encontrando novas formas de transformar vivências em humor. E isso se reflete diretamente no palco.
🎭 Lidar com temas sensíveis não é um problema para Davi Villa Real, que afirma não ter dificuldade nem em fazer rir nem em abordar suas “neuras”. Para ele, o maior desafio do comediante é sempre encontrar boas piadas. Ele explica que, por também ser alguém que poderia estar sentado na plateia, entende exatamente onde pode tocar ou não. “Esse tato também ia me ferir”, comenta, mostrando sensibilidade ao tratar de temas delicados. Com quatro anos de carreira, diz que já domina técnica e prática o suficiente para navegar por assuntos complexos. E isso o ajuda a equilibrar humor e cuidado.
💡 O TDAH, segundo Davi Villa Real, não o ajuda — mas rende material. Ele admite que às vezes até esquece das próprias piadas sobre o tema. A memória de trabalho fragilizada já o fez se perder no texto quando ainda não sabia do diagnóstico. “Eu preciso estar bem para fazer o show”, afirma, destacando a importância da terapia e da medicação. A decisão de parar de beber também veio dessa busca por estabilidade. Ele quer se dedicar à comédia com profissionalismo e segurança. E isso inclui estar mentalmente alinhado para subir ao palco.
🍻 Como sócio do comedy club onde se apresenta, Davi Villa Real já viveu situações inusitadas no palco. Uma das mais marcantes aconteceu ao interagir com um casal que revelou ter perdido o primeiro filho — bem no meio de uma conversa leve sobre maternidade. Ele lembra do choque, mas também de como conseguiu transformar o constrangimento em humor. Já presenciou também público bêbado querendo transar no banheiro e até uma turma inteira fantasiada de Chaves aparecendo sem aviso. Situações que, segundo ele, poderiam acontecer em qualquer bar, mas que ganham contornos cômicos no ambiente da comédia.
🌟 Entre suas referências, Davi Villa Real cita Fábio Rabin e Rafinha Bastos como grandes inspirações. Ele conta que cresceu assistindo aos dois e que adoraria dividir palco com eles, mesmo sem saber se seus estilos combinariam. “O Rafinha… minhas pernas tremeram um bocado”, confessa. Também celebrou quando Hélio de la Peña se apresentou no Manguetown, alguém que ele via na TV quando criança. Para ele, esses encontros reforçam o quanto a comédia o conecta com memórias e sonhos antigos. E alimentam sua vontade de crescer ainda mais na cena.
😳 O momento mais constrangedor da carreira, ele garante, foi o episódio do casal que perdeu o filho. A situação poderia ter destruído a noite, mas Davi Villa Real usou o desconforto a seu favor. Inspirado no humor de constrangimento de The Office, colocou-se no papel de quem estava mais perdido do que todos. A plateia riu, e ele conseguiu entregar o palco “alto” para o próximo comediante. “Se fosse um Davi Villa Real com menos tempo de carreira, eu teria chorado no banho”, brinca. Hoje, vê o episódio como prova de maturidade cômica.
🎬 Sobre transformar sua vida em filme, Davi Villa Real diz que nunca pensou em um título, mas sabe que seria uma comédia. Sua trajetória é marcada por altos e baixos constantes, quase cíclicos. Ele lembra da época em república estudantil, das histórias de cachaça, dos momentos de ascensão e das quedas profissionais. “É muito engraçado minha vida assim, olhando de fora”, comenta. Entre caos e humor, acredita que sua biografia poderia ir do besteirol ao estilo Woody Allen. Mas admite que imaginar isso ainda lhe parece estranho.
🔥 Por fim, Davi Villa Real menciona a recente polêmica envolvendo Léo Lins e relembra uma entrevista em que falou sobre limites do humor. Ele sugere que, se for oportuno, o tema pode ser aproveitado na matéria. “Eu já tô perdendo seguidor mesmo”, ironiza. A frase resume bem sua postura: sincera, provocadora e sempre pronta para rir de si mesmo. Em meio a debates sobre humor e responsabilidade, ele segue firme no propósito de fazer graça com autenticidade. E de transformar suas dores — e as do público — em catarse coletiva.
🎤 Veja Entrevista completa com Davi Villa Real
Seu show Terapia da Comédia Comportamental mistura humor e psicologia. Como surgiu essa ideia?
A ideia veio muito do meu próprio processo. Eu sempre usei a comédia pra falar de mim, das minhas dores, das minhas neuras. E percebi que isso gera identificação imediata com quem vive algo parecido. Quando vi um comediante lotar três sessões só por trazer uma proposta ligada à psicologia, percebi que existia um público querendo rir, mas também querendo se enxergar no palco. A partir daí, pensei: “Eu tô vivendo isso agora, por que não transformar em show?”. Hoje, o nome do show vende mais do que o meu nome, e eu acho isso ótimo.
Você já tentou esconder alguma coisa do terapeuta e depois transformou isso em piada?
Eu não sou de esconder nada, não. Mas também não sou aquele paciente que chega despejando tudo. Eu respondo tudo que me perguntam, sou transparente, mas não puxo assunto sozinho. Então, às vezes, coisas que eu nem lembrava acabam virando material de comédia depois. O TDAH ajuda nisso: às vezes eu esqueço até das piadas que escrevi sobre o próprio TDAH.
O que é mais difícil: fazer o público rir ou lidar com suas próprias neuras no palco?
Hoje, nenhuma das duas coisas é difícil pra mim. O mais difícil mesmo é achar piada boa. Como eu também sou alguém que poderia estar sentado na plateia, eu sei exatamente onde posso tocar e onde não posso. Esse tato me protege também, porque se eu passasse do limite, ia me ferir. Então eu trato tudo com cuidado, mas sem medo.
Como o TDAH influencia seu processo criativo e sua performance no stand-up?
O TDAH não me ajuda em nada — mas me dá muito material. O problema é que, por causa da memória de trabalho fragilizada, eu já me perdi no texto várias vezes antes de saber do diagnóstico. Hoje eu preciso estar bem medicado, em terapia, alinhado mentalmente pra conseguir fazer um show inteiro com segurança. Até parei de beber por causa disso. Quero levar a comédia como profissão, e pra isso eu preciso estar bem.
Você se apresenta toda semana no Manguetown Comedy, no Recife. Qual foi a situação mais inusitada que já aconteceu por lá?
Cara, já aconteceu de tudo. Teve um casal super feliz falando do primeiro filho, e quando perguntei sobre a fase de não dormir, eles disseram: “A gente já passou por isso… nosso filho morreu”. E eu ali, abrindo o show. Já teve gente bêbada querendo transar no banheiro, já teve turma inteira fantasiada de Chaves aparecendo sem ninguém ter chamado. Situações que aconteceriam em qualquer bar, mas que na comédia ganham um brilho especial.
O humor tem limites? Existe alguma piada que você já se arrependeu de contar?
Eu acho que o limite é o tato. Eu sei onde posso ir porque eu também sou o cara que poderia estar sentado na plateia. Então, se algo me feriria, eu não faço. Não lembro de uma piada específica que eu tenha me arrependido, mas já vivi situações em que o contexto ficou pesado demais — e aí a gente aprende a navegar melhor. Inclusive, com essa polêmica recente do Léo Lins, o assunto voltou à tona. Se for oportuno, pode usar isso na matéria, viu? Já tô perdendo seguidor mesmo.
Se pudesse escolher qualquer comediante para dividir o palco, quem seria e por quê?
Fábio Rabin e Rafinha Bastos. São caras que eu assisti muito quando era mais novo e que me influenciaram demais. O Rabin eu já encontrei, mas nunca fiz show com ele. O Rafinha… minhas pernas tremeriam um bocado. E quando o Hélio de la Peña foi ao Manguetown, eu fiquei muito feliz — era alguém que eu via na TV quando criança.
Qual foi o momento mais constrangedor que você já viveu no palco?
Com certeza o do casal que perdeu o filho. O clima ficou pesadíssimo. Mas como eu gosto desse humor meio The Office, meio Michael Scott, eu me coloquei no papel do mais constrangido da situação. A galera riu, e eu entreguei o palco lá em cima pro próximo comediante. Se fosse no começo da carreira, eu teria chorado no banho.
Como você vê o cenário do stand-up no Brasil hoje? Está mais fácil ou mais difícil viver de comédia?
Acho que tá mais competitivo, mas também tem mais espaço. O público tá mais interessado, mais aberto a propostas diferentes — como a minha, que mistura comédia e psicologia. O difícil é construir uma cena forte, especialmente fora do eixo Rio–São Paulo. Mas a gente tá fazendo isso no Manguetown, tijolinho por tijolinho.
Se sua vida fosse um filme de comédia, qual seria o título e quem interpretaria você?
Eu nunca pensei num título, mas com certeza seria uma comédia. Minha vida é cheia de altos e baixos — quando eu tô chegando no médio, baixa de novo. Já vivi república estudantil, histórias de cachaça, altos e baixos profissionais… tudo muito engraçado visto de fora. Talvez fosse algo entre besteirol americano e Woody Allen. Agora, quem me interpretaria… aí eu realmente não sei.