domingo, 19 de julho de 2026
📣 Arte que Resiste: Sarau das Artes celebra democracia em sua 246ª edição
🕺 Reviva a era de ouro: Roy Rosselló convoca fãs para o #DesafioDoRoy
📣 Cimbres Vibra com Cultura: Festival Pernambuco Meu País Aquece o Distrito com Arte e Alegria
🌟 Inscrições abertas para a 3ª edição do projeto FERA movimentam a formação audiovisual no Recife
📣 Ave Sangria, Paulo Miklos e outras atrações brilham na segunda noite do Palco Pernambuco Meu País em Pesqueira
🪗 Domingo de Xamego Embalado na Sala de Reboco
`✨ Salgueiro recebe formação criativa no Festival Pernambuco Meu País, iniciando atividades com gestão cultural, música, moda e sustentabilidade
#VcNoBlog Linia Brandt
Você pode levar o que sabe fazer para além das fronteiras. Pode, sim. Nós, nordestinos, somos capazes.
Eu sou uma nordestina soteropolitana e há quase três décadas construo carreira e relações na Suíça. Não digo isso como quem repete uma frase bonita de autoajuda. Digo como quem viveu cada estação dessa travessia, inclusive as mais frias. E foi ao longo dela que entendi uma coisa que mudou tudo. A distância maior a ser vencida não é a que separa o Recife de Genebra, nem a que separa Salvador de Zurique. Existe um oceano bem mais difícil de atravessar do que o Atlântico, e ele fica dentro da gente.
Chamo isso de fronteira interna. É aquela linha invisível que a gente mesmo desenha, quase sem perceber, entre o que somos capazes de fazer e o que acreditamos ser capazes de fazer. Ela não aparece em mapa nenhum, não tem posto de imigração, não pede visto. E, ainda assim, é a fronteira que mais gente boa deixa de cruzar a vida inteira. A pessoa até sonha com o mundo, mas, por dentro, já decidiu que o mundo é grande demais para ela. Antes de qualquer avião decolar, ela já ficou.
Essa fronteira se constrói de coisas silenciosas. De um “quem sou eu para tanto?”. De um “lá fora é para os outros, não para mim”. De uma modéstia que começa como educação e, com o tempo, endurece e vira cerca. A pessoa passa a acreditar que o próprio valor tem endereço fixo, que só funciona no lugar onde nasceu, entre quem já a conhece. É uma crença confortável, porque poupa do risco de tentar e não conseguir. Mas é falsa. E o mais cruel é que ela se disfarça de humildade, quando, na verdade, é medo.
Aprendi, na pele e com o tempo, que atravessar a fronteira interna vem antes de atravessar qualquer outra. Não adianta ter passaporte, diploma e passagem comprada se, por dentro, você continua se pedindo licença para existir. Enquanto a cerca de dentro estiver de pé, o mundo lá fora permanece trancado, por mais aberto que esteja. Foi só quando comecei a questionar as fronteiras que eu mesma havia levantado dentro de mim que as de fora começaram, uma a uma, a ceder.
E o consolo é que essa travessia interna está ao alcance de todos, sem depender de dinheiro nem de sorte. Ela começa mudando o tamanho do pensamento. Aquilo que você faz bem feito, com dedicação e com verdade, não perde a validade ao cruzar uma fronteira. O que muda não é o seu valor, mas a necessidade de reconstruí-lo diante de quem ainda não o conhece. E reconstruir não é começar do nada. É recomeçar levando por dentro tudo o que você já é.
Vivemos, ainda por cima, um tempo generoso para quem decide atravessar. A inovação derrubou muros que antes eram intransponíveis. Uma reunião do outro lado do planeta cabe numa tela, um trabalho pode ser entregue de qualquer lugar, uma relação profissional pode nascer de uma mensagem e crescer entre continentes. O mundo, que já foi vasto e distante, hoje cabe na palma da mão. Nunca foi tão possível se internacionalizar sem precisar, de imediato, arrancar as próprias raízes. As fronteiras externas nunca estiveram tão baixas. Falta derrubar a de dentro.
Mas há uma verdade que a euforia digital costuma esconder, e eu não seria honesta se a omitisse. A tecnologia aproxima, porém não faz o trabalho por você. Ela encurta a distância, não a travessia. A rede de contatos que você levou anos para construir na sua terra não atravessa a fronteira sozinha, nem mesmo pela internet. Do lado de fora, o seu nome ainda não abre portas, porque ninguém o pronunciou antes. A sua reputação ainda não pesa, porque ninguém a viu de perto. E esse anonimato, que dói no começo, não é um sinal de fracasso. É apenas o ponto de partida honesto de todos os que constroem algo verdadeiro longe de casa. Quem entende isso cedo sofre menos e caminha mais.
Foi assim, aliás, que compreendi de verdade o que hoje chamam de networking e que eu, à moda antiga, sempre chamei de agenda de contatos. Descobri que rede não é acúmulo, é cultivo. Não se mede pelo número de nomes guardados, mas pela quantidade de relações que sobrevivem ao dia em que você precisa pedir algo. Rede é construir pontes, uma a uma, com paciência, entre você e as pessoas certas. E, mesmo neste mundo hiperconectado, o segredo continua profundamente humano. É saber encontrar a pessoa certa, no lugar certo e na hora certa. Uma única pessoa certa vale mais do que mil contatos soltos que nada têm a ver com o seu caminho.
Pontes internacionais não se constroem distribuindo cartões de visita. Elas nascem quando oferecemos valor, cultivamos confiança e construímos relações genuínas. É essa solidez que permite que oportunidades atravessem fronteiras e se transformem em parcerias duradouras.
Então fica aqui não um convite apressado, mas uma reflexão que ofereço com o orgulho de quem veio do Nordeste e ganhou o mundo sem jamais deixar de ser daqui. Pense além das fronteiras, sobretudo daquelas que você mesmo desenhou dentro de si. Construa as suas pontes internacionais com verdade, com tempo e sem atalhos, porque é assim que se constrói o que dura.
Nós, nordestinos, somos capazes. Sempre fomos. E a história continua provando isso todos os dias.
A primeira ponte a atravessar é a que liga você a você mesmo, a que separa quem você é de quem você acredita poder ser.
Depois dessa, nenhuma outra distância assusta. O próximo passo não depende de passaporte nem de sorte. Ele começa no instante exato em que você decide dar.
E você? Qual é a primeira ponte que precisa construir para que o seu talento alcance novos horizontes?
Linia Brandt é Escritora, Articuladora de Conexões Internacionais e CEO do Grupo ELB Network na Suíça
#SendoProsperidade com Mariângela Borba
Só é ruim não poder abraçá-la
"Mamãe está comigo. Só é ruim porque eu não posso
abraçá-la."
Por Mariângela Borba
Há crianças que nos ensinam aquilo que adultos passam a vida
inteira tentando compreender.
Foi impossível assistir à entrevista da pequena Antonela
durante a cobertura da Festa de Nossa Senhora do Carmo, padroeira do Recife,
sem sentir o mesmo impulso confessado pela jornalista Bianka Carvalho:
simplesmente abraçá-la.
Dois meses antes, ela havia perdido a mãe.
Ainda assim, quando perguntada sobre a saudade, respondeu
com uma serenidade que não negava a dor, mas também não permitia que ela
tivesse a última palavra.
Sua mãe continuava com ela.
Apenas não podia abraçá-la.
Há uma profundidade desconcertante nessa resposta.
Vivemos numa cultura que tenta explicar tudo, superar tudo e
seguir em frente rapidamente, como se o luto fosse um problema a ser resolvido
e não uma travessia a ser vivida.
É justamente por isso que aquela frase tocou tanta gente.
Ela nos lembra que existem ausências que retiram a presença
física, mas não conseguem expulsar o amor da vida de quem fica.
Nem da vida de quem parte.
Donald Winnicott dizia que o primeiro ambiente da existência
humana é o colo. Muito antes das palavras, aprendemos segurança, confiança e
pertencimento nos braços de quem nos acolhe.
Quando uma mãe parte, não perdemos apenas uma pessoa.
Perdemos o primeiro lugar onde aprendemos o que significa
abrigo.
É como se uma parte da nossa geografia afetiva fosse
alterada para sempre.
A neurociência ajuda a compreender esse fenômeno ao mostrar
que os vínculos afetivos não desaparecem com a morte. Eles permanecem inscritos
na memória emocional, influenciando nossa forma de amar, de lembrar e até de
sentir proteção. O cérebro registra o vínculo — o coração continua chamando de
saudade.
Talvez seja por isso que aquela menina tenha respondido com
tanta naturalidade que sua mãe continuava ali.
Porque, de alguma maneira, continuava mesmo.
Freud chamava de pulsão de vida essa extraordinária
capacidade humana de continuar amando, criando vínculos e encontrando sentido
mesmo quando a morte atravessa nossa história.
Não se trata de negar a ausência.
Trata-se de permitir que o amor sobreviva a ela.
Soube, depois, que aquela criança é conhecida pela família
como uma menina arco-íris, expressão usada para filhos que chegam depois de
perdas gestacionais.
Achei impossível não enxergar aí um símbolo.
Sua própria existência já havia nascido carregando a marca
da esperança.
Agora, diante de outra perda, ela volta a nos ensinar que a
vida continua encontrando caminhos para florescer.
Também quero registrar minha admiração pela sensibilidade da
jornalista Bianka Carvalho.
Quando confessou que sua vontade era apenas abraçar aquela
criança, deixou de ser apenas a repórter diante da câmera. Tornou-se expressão
de algo profundamente humano: a capacidade de reconhecer a dor do outro sem
perder a ternura.
Há momentos em que o jornalismo ultrapassa a informação.
Ele acolhe.
Ele humaniza.
Ele nos lembra que agir com gentileza, oferecer presença e
permitir que o amor atravesse nossas atitudes talvez seja uma das formas mais
concretas de tornar Deus visível entre nós.
Ninguém fala de como é difícil estar quebrado por dentro e,
ainda assim, precisar continuar funcionando.
Aquela menina, sem saber, falou por milhares de filhas e
filhos que carregam essa saudade silenciosa.
Nenhum de nós poderia devolver-lhe o abraço que ela tanto
deseja.
Quem já perdeu a mãe sabe que há abraços que continuam sendo
procurados mesmo quando a vida segue em frente.
Há saudades que não pedem explicação. Apenas permanecem...
Mas, por alguns instantes, Antonela conseguiu oferecer ao
Brasil inteiro algo igualmente precioso.
Essa foi, para mim, a maior reportagem daquele dia.
Não a da festa.
Não a da procissão.
Mas a de uma menina que, em poucas palavras, lembrou ao
Brasil inteiro uma verdade que costumamos esquecer: o amor não termina quando a
presença física acaba.
Às vezes, ele apenas muda de forma.
E continua vivendo onde sempre viveu: na memória, no afeto e
no abraço que seguimos procurando, mesmo quando já não podemos mais tocá-lo.
Mariângela Borba é jornalista (DRT-PE 4095), especialista em
Cultura Pernambucana, produtora cultural, pesquisadora da palavra como
território de poder e autora da coluna #SendoProsperidade. 🌻