domingo, 9 de agosto de 2026
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🌆 🎤 João Pessoa Revive Clássicos em Noite de Nostalgia Musical
🌟 Tributo que ecoa tradição e emoção no palco recifense
🎶 O Poeta Cantador em Corpo Inteiro: Flávio Leandro abre o coração, a estrada e o sertão
🎶 A trajetória de Flávio é profundamente marcada pela geografia afetiva do Araripe. Nascido em Bodocó, a poucos quilômetros de Exu, ele cresceu sob a sombra simbólica de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. “Essa influência geográfica já traz para mim todo o meu norte de composição”, afirma. Sua música nasce desse chão fértil, onde tradição e contemporaneidade convivem com naturalidade. Ao longo dos anos, Flávio transformou paisagens, histórias e personagens do sertão em canções que atravessam gerações e alcançam públicos de todo o país.
📸 No palco, o artista reafirma seu processo criativo particular, que ele define como um ato de fotografar o mundo. “Como poeta, eu me considero mais fotógrafo”, explica. Essa sensibilidade o levou a compor músicas que se tornaram símbolos de resistência, afeto e identidade, como “Chuva de Honestidade”, que marcou sua virada como intérprete. Flávio também se destaca por defender o forró pé de serra com firmeza, sem abrir mão da inovação, sempre respeitando o tripé essencial de sanfona, zabumba e triângulo.
🎭 O sucesso da apresentação no Recife confirma a força de uma carreira construída com autenticidade, coerência e muita estrada. A turnê De Mala e Cuia nasce do desejo de se aproximar ainda mais do público que acompanha sua trajetória pela internet e pelos palcos do Brasil. No teatro, Flávio encontra o ambiente ideal para cantar, conversar e tocar o coração das pessoas. E segue caminhando com a mesma filosofia que o guia desde o início: transformar fãs em amigos, e amigos em irmãos.
📸 Fotos: Reprodução Instagram do Artista
Vamos saber mais da entrevista?
Flávio, você é chamado de “Poeta Cantador”. Em que momento da sua trajetória você percebeu que poesia e música seriam inseparáveis na sua obra?
Olá, Taís. Coisa boa estar aqui com você. É isso. Eu creio que a questão da poesia é uma característica bem marcante da música popular nordestina. Isso já a partir do Luiz Gonzaga. Ele primava muito por essa coisa da poesia muito forte dentro da música. E, claro, como nossa poesia, como nossa poeta, ela é ligada diretamente à poesia do repente, onde os poetas também são chamados de cantadores, de poetas cantadores. Então, essa coisa talvez seja o diferencial de quem compõe para o Nordeste. Eu me descubro fazendo isso, compondo com essa medida, no terceiro disco, no terceiro álbum, que foi o álbum acústico. A poética dele foi tão forte que as pessoas realmente, de repente, começaram a me chamar de poeta cantador. Então, a partir daquele momento ali, eu praticamente assino um compromisso de continuar com esse olhar bem voltado para a poesia, não em detrimento da melodia, mas de uma forma que ela dê as caras primeiro. Porque a melodia, de todo modo, ela é uma característica sua já, ela é a sua impressão digital. Mas aí você tem que fazer com que sua poesia também se torne sua impressão digital. E é o que eu digo, você não aprende a ser poeta, não tem como. Porque isso tá muito dentro de você, é uma coisa muito peculiar. Mas aí você tem como melhorar essa poesia. Lendo mais, viajando mais, conhecendo mais, conversando mais. Observando mais. E é isso, eu tenho feito muito isso durante o meu caminhar de poeta, cantador.
Eu sou do sertão do Araribe pernambucano, de Bodalcó. É uma região que compõe, que é composta por dez municípios. Dentre eles, tem o mais importante de todos em se tratando de coordenada geográfica, que é Exu. Existe um ponto específico em Ashu, na fazenda Kaisara, onde nasceu Luiz Gonzaga, o rei do Baião. E eu tenho a felicidade de nascer a menos de 40 quilômetros de Luiz Gonzaga. Essa influência geográfica já traz para mim todo o meu norte de composição, de intérprete, de ver o mundo, de enxergar. Então, eu creio que existe uma determinada magia nesse entorno. Eu não vou nem citar somente o entorno da Caixara, em Pernambuco, eu vou citar o entorno da Chapada do Araripe todinha. Então, do lado de Pernambuco, nós temos Gonzaga, Flavlan, Jorginho do Axu, Taz Carvalho, Leninho, Do outro lado, e aí, claro, João Gomes, a gente não pode deixar essa geração de fora, Zé Vaqueiro, Akinori Kuri. Do outro lado, nós temos Patativo do Assaré, Sega Deraldo, os irmãos Aniceto, de forma mais contemporânea, Luiz Fidelis, grandissíssimo compositor, tacis do acordeon. Então você veja que esse entorno da chapada é bem mágico. É muito bom fazer parte desse contexto. E eu tenho essa influência direta a partir dessa visão, e a partir dessa observação, e a partir desse horizonte do qual fui gerado.
É isso. Eu sempre digo para as pessoas que, como poeta, eu me considero mais fotógrafo, porque minha mensagem poética é a mensagem de quem clica, de quem dá cliques na paisagem à frente do seu olhar. A minha poesia é bem dissertativa. Você colocou uma coisa aqui bem interessante, a necessidade de dizer algo. Eu creio que existe um pouco disso também. As coisas que eu clico ali e que me incomodam, ou que eu achei arretado e quero levar adiante essa mensagem. Então, tem um pouco de gozaga nessa coisa toda de sair dissertando sobre vários aspectos. Então, eu já falei sobre o embruseiro, Já falei sobre a pedra do claranã no meu município, sobre a minha terra, Bodalcó, sobre o Nordeste. E aí a gente vai dissertando. Então, como poeta, verdadeiramente eu sou um bom fotógrafo.
Chuva de Honestidade é um diferencial bem grande da minha carreira, porque até então eu era conhecido somente como compositor. Eu não conseguia, como intérprete, acompanhar minhas músicas. Eu fui assim com um monte delas. Mas aí chega Chuva de Honestidade e é a música que eu componho e que eu mesmo gravo. E que ela acontece comigo como intérprete. Então ela tem esse gosto bom de me mostrar para o mundo como intérprete. Eu já não estava mais sendo mostrado somente como compositor. A história dessa música é bem vasta, bem ampla, mas ela remonta 2013. Eu tinha acabado de chegar do Oriente Médio e tinha trazido algumas experiências de lá, porque eu tinha visitado o Oriente Médio todo ali. E eu estava, claro, buscando, fazendo uma pesquisa sobre as matrizes da cultura popular nordestina a partir de uma visão árabe. Estando no Oriente Médio, eu também não podia deixar de passar no Israel. Mesmo não tendo um existir árabe, mas o existir judaico no sertão nordestino também foi muito forte. E a gente queria trazer esses elementos todos para dentro da nossa pesquisa. E claro, como eu sou do sítio, da roça, eu também queria ver as experiências dos israelenses nos kibbutz e tal. Os kibbutz já nem existiam mais como foram originados, como foram concebidos. Já funcionavam mais como um ponto de turismo e tal. Mas a gente foi e viu várias pesquisas funcionando bem. E no sertão do Nordeste, pequenas práticas de irrigação mais sofisticadas, elas eram de origem israelense. E aí foi, tal. É uma música que eu fiz num ano de uma seca tremenda, mas que ela não é só daquele ano específico, ela é uma música de minha vida inteira, em contato com o semiárido nordestino. Tudo aquilo veio à tona, mas ela nasce por causa de um pedido de uma ONG, aliás, de uma ONG não, de várias ONGs da região do Araripe Pernambucano, que solicitaram que eu fizesse uma música, uma música não, um jingle, para ser colocado nos carros de som, e eu pelejei para fazer o jingle, mas aí só a música teimava em vir, teimava, então eu disse para o pessoal, pessoal, não me leve a mal, eu terminei compondo uma música e não um jingle, e mandei para eles. Eu fui para o estúdio ali, cheguei no Kraton com um amigo e aí a gente fez a música no estúdio em duas horas. Preparamos para mandar para o pessoal das ONGs, para botar nos carros de som. Terminou que eu botei também no meu palco MP3, que era a plataforma mais evidente à época. E ela foi sozinha criando isso, mas chuva de honestidade é de uma realidade localizada, específica para a região do Araripe e, claro, depois a dimensão do tumor me trouxe sabores e muitos de sabores, porque ela começou a ser utilizada com mediocridade por políticos no geral, que na verdade nem mereciam estar usando a música. E é isso. Ela ainda hoje é uma música muito forte.
Sobre o contemporâneo, Belchior dizia uma coisa interessante, o novo sempre vem. E eu acho que é inevitável. Porque o novo é exatamente uma condição humana. Essa própria ebulição, essa própria efervescência, eu acho que a marca maior do ser humano é a inovação. Mas também a humanidade só chegou viva até esse ponto por causa da cultura. Cultura, eu digo sempre, por onde eu passo, que cultura é acima de tudo sobrevivência. A cultura, na minha cabeça, são caminhos, vários caminhos. O caminho do São João, o caminho do forró, o caminho do reggae, o caminho do blue, da bossa nova, o caminho, são caminhos. E as pessoas que fazem a música do caminho do forró, elas vão caminhando e deixando as suas passadas, as suas pegadas, as suas marcas. É justo que essas pessoas, cada uma delas, elas queiram deixar as pegadas que melhor lhe definam nesses caminhos. Eu não posso passar de um caminho para o outro. Eu vou estar distorcendo. Então, o que ocorre muitas vezes, em muita coisa que se produz, é que o cara já saiu do caminho há muito tempo, ele não está mais naquele caminho. Por exemplo, para permanecer no caminho do forró, você não pode perder o contato com o sanfona, zabumba e triângulo. Você pode até colocar uma guitarra, um contrabaixo, um metal e tal, mas com esses três elementos bem na cara, disparadamente na cara, e com a rítmica, você consegue enxergar isso muito claramente. Então eu não quero tirar das pessoas, eu não sou muito Caxias nesse ponto, eu não quero tirar das pessoas a possibilidade delas deixarem as suas marcas nesse caminho, o caminho do forró. Mas também não quero dizer que tirando todos os elementos que caracterizam o forró, ela possa permanecer no caminho do forró. Ela já saiu, por si só ela já saiu. A gente viu muito muita cerveja vendida como vinho nesse tempo. É uma loucura. Então, a inovação é inevitável, mas o novo tem que ser feito olhando para dentro, respeitando esses caminhos que nos trouxeram vivos até aqui. O forró, para mim, eu considero como um pote em cima de um tripé. Ele está ali, cheio d'água, muito bonito. Você pode botar uma tampa de madeira, uma tampa de metal, uma tampa de lata, uma tampa de plástico. Você pode botar uma vestimentazinha, que tem muitas casas sartenesas que botavam uma vestimenta no pote. E aí você pode botar uma chita, você pode botar um saco de estopa, um saco de açúcar, um outro tecido que você goste. A única coisa que você não pode fazer é tirar um pé desse tripé, porque o pote vai cair e quebrar.
É interessante essa questão da relação com o público, porque eu sou do ramo já há 30 anos, mas tenho dois filhos que são na música também. E aí eu também inclusi essa minha esposa, que aí quando eu falo 30 anos meu, eu digo, eu não tenho, nós temos 30 anos já de caminhada. E eu digo sempre para os meus filhos que a gente tem que procurar fazer com que os fãs se tornem amigos. E depois de um certo tempo, de uma relação mais apurada, que esses amigos se tornem irmãos. E a gente tem muitos irmãos hoje espalhados no Brasil, pela proximidade que a gente permitiu. Então a nossa relação é muito de tato, de contato. Eu não consigo isso na virtualidade. Eu não consigo responder ninguém na virtualidade, a não ser nos comentários de postagens que eu faço. Eu gosto além de, após alguma postagem, fazer alguns comentários, vou responder alguns comentários. Eu gosto disso, mas no inbox, aquela coisa do... Eu não faço porque eu não consigo, porque aí eu começo a deixar de viver e de praticar aquilo que eu componho. A minha composição, ela traduz uma vida mais frugal, mais leve, onde você vive verdadeiramente. Então, se eu for me entregar totalmente à virtualidade da internet, eu não vou conseguir mais essa frugalidade. E essa relação com o público, ela nasce daí, dessa necessidade do tato, porque no ao vivo, a gente é muito forte. A gente consegue, mesmo que rapidamente, entrar na intimidade daquelas pessoas. Então, é uma coisa que a gente... Eu acho que é um diferencial muito forte, que são poucos os artistas que conseguem fazer isso. Até porque é exaustivo, né? Mas a gente faz com prazer enorme. Tanto eu quanto Cissa. Hoje eu já não consigo me dissociar de Cissa em relação a isso. E as pessoas também não querem ver só Flávio Leandro, querem ver Cissa também. Que é minha esposa, que toca triângulo e faz vocal junto comigo e cuida da parte administrativa também de tudo. Então essa relação é muito forte. A nossa relação é sempre essa, o norte. É transformar os fãs em amigos e os amigos em irmãos. E é isso, a gente vai caminhando muito tranquilamente assim e isso tem dado muito certo.
É isso, em relação à cultura nordestina, eu acho que a gente que faz música nordestina, isso já é a partir de Gonzaga. Ou a gente denuncia, ou a gente está denunciando alguma coisa, ou a gente está evidenciando alguma coisa, ou a gente apenas quer contar. Alguma coisa, mas que tenha essa ligação íntima com o Nordeste. Eu sempre faço a minha música de uma forma que eu não possa, de uma forma que eu não traduza apartheid, segregação, separatismo, eu não curto muito isso, apesar de muita gente pregar isso. E quando eu componho, eu componho com o sentimento de fortalecer uma região que por muito tempo foi injustiçada na balança do equilíbrio das federações. E quando a gente canta é para, de certa forma, repor um pouco dessa dívida. Meio que fazer um pagamento dessa dívida de longas datas. Uma dívida que o país inteiro tem com o Nordeste, em função desse desequilíbrio regional que houve por muito tempo. É só você ver que as oportunidades, quando são dadas, a gente solta os pés e corre, e vai pra longe. Então hoje você já não vê mais um movimento migratório, porque essas pessoas sempre tiveram a vontade de ficar no Nordeste. E a nossa música é feita a partir de Gonzaga para quem estava fora dele, com saudade, e no meu caso hoje para quem está nele com a certeza de que a gente vive um novo Nordeste. Mas eu repito, tudo isso deve ser feito com respeito às outras regiões para que a gente não parta para divisões desnecessárias, porque o Brasil é um país lindo e é bonito exatamente por causa dessas divergências existenciais de características, não de condições econômicas e sociais, que aí sim a gente tem que buscar uma coisa equitativa e justa para todas as regiões. Então, o Nordeste é muito forte em mim, nesse sentido da gente buscar essa justeza de causa, E, claro, hoje o Nordeste está em moda, está em voga, está sendo mais compreendido. A gente já não tem mais o Nordeste estampado pelos sertões de Euclides da Cunha ou ratificado pela denúncia do Luiz Gonzaga. A gente já tem um outro Nordeste diferenciado, mas que deve ser cantado e propagado cada vez mais pelos seus cantadores. Eu sou um deles.
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#SendoProsperidade com Mariângela Borba
A nova Torre de Babel e o preconceito contra o que não compreendemos
Por Mariângela Borba
Os textos, às vezes, começam muito antes da primeira frase.
Começam num áudio atravessado por risadas, numa noite inesperadamente bem dormida ou numa missa em que a homilia parece responder silenciosamente às perguntas que carregamos há dias.
Esta semana vivi essas três experiências. E, olhando agora com mais calma, percebo que todas falavam da mesma coisa: a dificuldade humana de escutar aquilo que não compreendemos imediatamente.
Tudo começou com um áudio de um amigo querido. Daquele jeito rude, afetuoso e absolutamente sincero que só algumas amizades conseguem sustentar sem cerimônia.
Ele confessou que tinha demorado a ler um artigo meu. Contou do corre-corre da vida, dos livros, das providências, da cabeça de velho — “que só serve pra separar as orelhas”, como ele mesmo disse. E então veio a frase que me fez parar para ouvir de verdade:
“Comecei a discordar… talvez meu machismo, né?”
Não havia pose de perfeição. Não havia preocupação em parecer moderno, desconstruído ou intelectualmente correto. Havia apenas um homem pensando em voz alta, reconhecendo o próprio desconforto diante de um tema que mexia com suas referências.
Ri quando ele reclamou dos filósofos e os definiu como “malucos que falavam sobre a vida inteiramente ao contrário”. Mas, passada a gargalhada, percebi algo precioso: ele continuou lendo.
Poderia ter abandonado o texto na primeira estranheza. Poderia ter me encaixado em algum rótulo conveniente — feminista demais, intelectual demais, complicada demais. Não fez isso. Permaneceu na conversa. E terminou reconhecendo que a comunicação valia a pena, mesmo atravessada pela divergência.
No dia seguinte, vivi outra experiência aparentemente sem relação com a primeira.
Fiz uma sessão de ventosaterapia após a aula de Pilates, por causa de um desconforto na coluna.
Não pretendo transformar uma experiência pessoal em tratado científico. Mas também não consigo ignorar um fato simples: após o Pilates, a ventosaterapia e as sessões de fisioterapia dos dias anteriores, dormi oito horas seguidas sem acordar de madrugada, algo que não acontecia havia bastante tempo.
E olha que preferi não recorrer a relaxantes musculares — não por desacreditar na medicina alopática, mas por optar, naquele momento, evitar possíveis efeitos colaterais.
Para quem repousa bem todas as noites, isso pode soar banal. Para alguém que há meses convivia com despertares sucessivos, tensão muscular, cansaço acumulado e a sensação de nunca concluir verdadeiramente o descanso, acordando cansada, não foi banal.
E foi justamente aí que os dois episódios se encontraram dentro de mim.
Percebi como somos rápidos em desqualificar aquilo que não cabe imediatamente em nossos esquemas mentais. Seja um texto que desafia nossas convicções, seja uma prática de cuidado sobre a qual sabemos pouco, a reação costuma ser instantânea:
“Placebo.”
“Bobagem.”
“Coisa de intelectual.”
“Exagero.”
“Mimimi.”
“Charlatanismo.”
Talvez exista uma arrogância silenciosa na necessidade de concluir tudo depressa.
E então veio a missa de hoje.
O padre Sérgio Absalão na homilia falou sobre a Sabedoria de Amenemope, sobre o alerta do Papa Leão XIV a respeito de uma humanidade que estaria construindo uma nova Torre de Babel, e terminou lembrando a oração de Pedro:
“Senhor, salva-me!”
Enquanto eu o ouvia, algo começou a fazer sentido.
A antiga sabedoria egípcia aconselhava prudência, humildade, escuta atenta e domínio da própria arrogância. O Papa falava de um mundo hiperconectado que já não consegue verdadeiramente se compreender. E Pedro, afundando nas águas, reconhecia aquilo que nossa cultura frequentemente tenta negar: o ser humano não é autossuficiente.
Foi impossível não pensar em mamãe.
Os ensinamentos de Amenemope me lembraram imediatamente aqueles conselhos simples que só entendemos plenamente depois de adultos: ouvir antes de responder, não humilhar ninguém, desconfiar das certezas excessivas, lembrar que cada pessoa carrega dores invisíveis.
Talvez toda grande sabedoria sobreviva porque um dia foi dita por alguém que nos amava.
E foi nesse ponto que compreendi o verdadeiro tema deste texto.
A nova Torre de Babel não é feita apenas de tecnologia, algoritmos ou redes sociais. Ela também é construída quando transformamos diferenças em trincheiras permanentes; quando reduzimos pessoas a rótulos políticos — direita, esquerda, Lula, Bolsonaro —; quando uma divergência vale mais do que uma história de vida; quando preferimos vencer discussões a preservar a humanidade do outro.
Vivemos cercados de vozes, opiniões e diagnósticos instantâneos, mas cada vez mais pobres em escuta verdadeira.
Jung dizia que a experiência humana é maior do que os compartimentos em que tentamos organizá-la. Muitas vezes somos transformados por algo antes mesmo de conseguirmos explicá-lo plenamente.
Lacan, por sua vez, lembrava que o sujeito nunca é totalmente transparente para si mesmo. Talvez por isso resistamos tanto ao que nos desloca: uma ideia, uma pessoa, uma fé, uma terapia, uma dor ou uma alegria que não conseguimos explicar completamente.
O problema do nosso tempo talvez não seja a existência de diferenças.
O problema é a incapacidade de permanecer humanos diante delas.
Não precisamos aceitar tudo sem senso crítico. Questionar é saudável. Investigar é necessário. Mas existe uma diferença profunda entre examinar algo com honestidade e descartá-lo por puro preconceito contra aquilo que ainda não compreendemos.
Hoje penso que tanto o áudio do meu amigo quanto minha noite de sono inesperadamente tranquila me ensinaram a mesma lição: há experiências que merecem, antes de qualquer julgamento, um pouco mais de escuta.
Escutar o outro.
Escutar o corpo.
Escutar a própria resistência.
Escutar aquilo que Deus talvez esteja tentando dizer através de caminhos que
não escolheríamos espontaneamente.
Num mundo que fala cada vez mais alto e compreende cada vez menos, prosperar pode ser um gesto surpreendentemente simples:
trocar a pressa de julgar pela coragem de escutar.
E talvez seja justamente essa coragem — humilde, imperfeita e profundamente humana — que ainda possa nos salvar da Babel que nós mesmos estamos construindo.
Mariângela Borba é jornalista (DRT-PE 4095), especialista em Cultura Pernambucana, produtora cultural, estudante de psicanálise e pesquisadora da palavra como território de poder. É autora da coluna #SendoProsperidade 🌻



