💥 A participação em
“Cangaço Novo” representou um divisor de águas na carreira de Edvan,
consolidando a confiança profissional após um rigoroso processo seletivo e
ampliando a projeção internacional através do Prime Video. O reconhecimento do
público veio por meio de mensagens de diversos estados e países, com destaque
para o elogio de conhecidos de longa data que não o reconheceram em cena devido
à transformação. A vivência e a troca de experiências com outros atores nos
bastidores também trouxeram grande aprendizado e amadurecimento técnico para
explorar papéis desafiadores. Um dos trabalhos mais complexos até hoje foi no
curta “Serena Perfeição”, interpretando o personagem Júnior, que exigia três
estados corporais e psicológicos totalmente distintos na narrativa.
🎯 A vasta experiência
como preparador de elenco trouxe uma habilidade fundamental para a atuação: a
capacidade de analisar as cenas com um distanciamento técnico e uma visão
externa apurada. Essa dupla perspectiva enriquece o trabalho coletivo diante
das câmeras, aprimorando a escuta mútua, a percepção do espaço e o respeito à
composição artística dos colegas em cena. Em seus grupos de estudo e
treinamentos, Edvan Lima defende que a formação do ator deve ser contínua e
focada em criar espaços de prática e experimentação prática constantes. O
domínio das diferentes linguagens do audiovisual, desde o cinema até as redes
sociais, é visto como um caminho indispensável para transformar a técnica
rígida em pura organicidade.
✍️ Ao transitar entre a atuação,
a direção e a escrita, Lima expande seu controle criativo para pensar na
experiência completa do espectador, manipulando silêncios, enquadramentos e
iluminação. Na dramaturgia, busca visualizar o comportamento, o clima e a
atmosfera das cenas, sempre perseguindo o objetivo de fazer o público se sentir
totalmente imerso no universo narrativo apresentado. Para o futuro, o foco está
em consolidar o mercado audiovisual do Nordeste de forma sustentável, reduzindo
a dependência de editais externos e incentivando realizadores locais a contarem
suas próprias histórias. Entre os desejos de carreira, destacam-se a vontade de
interpretar personagens gêmeos na mesma produção e a experiência na rotina
intensa de novelas.
📸 Fotos: Ryan Galvão
Quando você inicia a criação de um personagem, qual é o
primeiro ponto de ancoragem que busca — corpo, memória, ritmo, conflito? E qual
personagem já exigiu a maior reinvenção do seu processo?
Eu costumo começar pela leitura do roteiro, tentando
entender quem é aquele personagem dentro daquele universo. A partir daí,
procuro os caminhos de pesquisa que podem me aproximar dele. Esse processo não
segue uma regra fixa: algumas construções surgem por meio da música, outros a
partir de vídeos, leituras, observação de pessoas ou referências muito
específicas. Na construção de Baraúna, em “Cangaço Novo”, por exemplo,
pesquisei criminosos paraibanos, facções, o cotidiano de pessoas privadas de
liberdade e questões ligadas a poder, hierarquia e vocabulário. Eu precisava
entender como aquele homem se organizava no mundo antes de tentar colocá-lo no
corpo. Para mim, o personagem começa do lado de fora, por meio da pesquisa e da
observação, mas precisa encontrar algo dentro de mim. Ele se conecta ao meu
repertório, às minhas experiências, aos meus medos, traumas e frustrações. É
quase uma simbiose: eu preciso dele e ele precisa de mim. "Não quero
apenas representar um personagem. Quando escuto “ação”, preciso estar
completamente disponível para viver aquele momento." O personagem mais
desafiador que compor até hoje foi Júnior, do curta-metragem “Serena Perfeição”.
Embora aparecesse em poucos momentos da narrativa, cada um exigia um estado
completamente diferente, quase como se eu interpretasse três personagens. Em um
desses momentos, ele já não tinha vida e se transformava em um boneco.
Encontrar corporalidades distintas para o mesmo personagem, sem perder a
ligação entre elas, tornou esse trabalho especialmente complexo.
Depois de Cangaço Novo, o que mudou na sua
percepção sobre escala de produção, responsabilidade artística e impacto
cultural do seu trabalho?
“Cangaço Novo” mudou minha carreira em dois sentidos. O
primeiro foi a confiança. Ser escolhido para um projeto dessa dimensão, depois
de um processo seletivo criterioso e de diferentes etapas de teste, faz você
entender que uma equipe experiente enxergou naquele trabalho exatamente o que
procurava para aquele personagem. Isso fortalece a confiança no próprio
processo. O segundo foi a dimensão que o trabalho ganhou. Uma produção lançada
em uma plataforma como o Prime Video faz o personagem chegar a lugares que eu
dificilmente alcançaria em outros formatos. Passei a receber mensagens de
pessoas de diferentes estados e até de outros países comentando sobre o
Baraúna. O mais curioso é quando pessoas que me conhecem há muitos anos dizem
que não me reconheceram em cena. Para um ator, esse talvez seja um dos maiores
elogios. Também aprendi muito observando outros atores. Cada um encontra um
caminho diferente para chegar ao personagem, e perceber isso acabou ampliando
minha forma de trabalhar. No fim, “Cangaço Novo” foi uma experiência que
contribuiu muito para o meu crescimento como ator e me deu ainda mais segurança
para seguir explorando personagens cada vez mais desafiadores.
Como sua experiência como preparador de elenco molda sua
presença diante da câmera? Há algo que você só compreendeu sobre atuação depois
de preparar outros atores?
A preparação de elenco me deu uma coisa que hoje
considero fundamental: a capacidade de olhar a cena também do lado de fora.
Quando estou preparando um ator, não observo apenas a construção do papel, mas
a relação dele com a cena, com os outros atores, com a câmera e com a história
que está sendo contada. Quando volto para o lugar de actor, levo esse olhar
comigo. Consigo perceber melhor o espaço, entender o que a cena precisa e
propor caminhos sem perder a disponibilidade para ouvir a direção. Isso me deixa
mais consciente tecnicamente, mas, principalmente, mais disponível para o
trabalho coletivo. Também acredito que preparar atores ampliou minha escuta.
Sempre enxerguei a atuação como um campo de possibilidades, e esse trabalho
reforçou ainda mais essa visão. Como ator, gosto de propor, de buscar caminhos
que sejam fiéis à história, mas que tragam surpresa, verdade e naturalidade. Ao
mesmo tempo, tenho muito cuidado para que essas propostas não interferiram no
trabalho do outro, respeitando a composição do colega em cena e contribuindo
para que todos possam construir juntos. Como preparador, estimulo exatamente
isso: que os atores compreendam as marcações e a estrutura da cena, mas que
possam fluir com organicidade, criando momentos que pareçam únicos, como se
estivessem acontecendo pela primeira vez. Conviver com essas diferentes formas
de construção só fortaleceu o meu próprio trabalho diante das câmeras.
Nos grupos de estudo e treinamento que você conduz, o que
percebe como lacuna mais urgente na formação de atores do Nordeste hoje?
Acho que hoje a maior necessidade não é apenas formar
atores, mas criar espaços permanentes de prática. Atuar é um ofício que se
desenvolve fazendo. Não basta conhecer técnicas; é preciso experimentar, errar,
ajustar e voltar para a cena. Também acredito que precisamos compreender melhor
as diferentes linguagens do audiovisual. A atuação para cinema, para streaming,
para televisão, para publicidade e até para as redes sociais não funciona
exatamente da mesma maneira. Cada formato tem seu ritmo, sua medida e sua forma
de comunicar. Quanto mais o ator entende essas diferenças, mais preparado ele
está para transitar entre elas. É justamente por isso que conduzo grupos de
estudo e treinamento de cena. A ideia é criar um ambiente onde seja possível
experimentar, desenvolver repertório e transformar técnica em organicidade.
Para mim, a técnica nunca é o objetivo final; ela é o caminho para que a
atuação aconteça com verdade. A formação do ator não termina quando ele conclui
um curso. Ela precisa ser permanente. É essa continuidade que dá segurança para
chegar ao set disposto a criar, ouvir a direção e responder às necessidades de
cada projeto.
Quando você dirige ou escreve, o que busca provocar no
público que talvez não consiga apenas atuando? Há uma camada de discurso que só
emerge quando você assume essas funções?
Quando estou atuando, minha responsabilidade é contar bem
a história a partir de um personagem. Já quando dirijo ou escrevo, consigo
pensar na experiência completa de quem está assistindo. Posso conduzir o olhar
do espectador, decidir o que ele vê, o que ele descobre, o tempo de cada
silêncio e até a forma como determinada emoção chega até ele. Gosto muito desse
pensamento porque acredito que nenhuma escolha em cena é aleatória. O
enquadramento, a luz, o ritmo, o silêncio, o movimento dos atores e até a ocupação
do espaço ajudam a contar a história. Meu interesse está justamente em pensar
como todos esses elementos podem trabalhar juntos para provocar uma
experiência. Quando escrevo, também costumo visualizar muito do que estou
criando. Não escrevo apenas os diálogos; gosto de imaginar o comportamento da
cena, o clima e, em alguns momentos, até sugerir possibilidades para a direção.
Não vejo isso como uma forma de limitar quem vai dirigir, mas de compartilhar a
imagem que surgiu enquanto aquela história era escrita. No fundo, seja atuando,
dirigindo ou escrevendo, continuo perseguindo a mesma coisa: fazer com que o
público não apenas assista a uma história, mas sinta que esteve dentro dela.
Qual marca estética, ética ou sensível você acredita
carregar como artista — aquela que deseja que o público reconheça imediatamente
nos seus trabalhos?
Espero que o público não enxergue apenas um personagem,
mas uma pessoa. Gosto quando alguém termina um trabalho e esquece que existe um
ator interpretando aquela história. Para mim, esse é um dos maiores elogios que
posso receber. Busco construir personagens que pareçam possíveis, que tenham
contradições, fragilidades e humanidade. Quanto mais verdadeiro aquele universo
parecer para quem está assistindo, maior a sensação de que a história poderia
acontecer na vida real. É essa sensação de autenticidade que procuro levar para
cada trabalho.
Como você enxerga o momento atual do audiovisual
nordestino e quais são os próximos degraus que ainda precisamos subir para
consolidar esse movimento?
Acredito que o audiovisual nordestino vive um momento
muito importante de reconhecimento, mas o próximo passo é consolidar esse
crescimento como mercado. Temos profissionais extremamente qualificados, mas
ainda dependemos muito de editais e de produções que chegam de outras regiões.
Gostaria de ver cada vez mais produtoras nordestinas desenvolvendo seus
próprios projetos, criando modelos sustentáveis de produção e pensando também
no audiovisual como um mercado capaz de gerar continuidade para quem vive desse
trabalho. Também acredito que precisamos contar mais histórias a partir do
nosso próprio olhar. Quem vive esses lugares conhece nuances, sotaques,
relações e experiências que dificilmente podem ser reproduzidas de fora. Quanto
mais fortalecermos nossos realizadores, mais diversas e verdadeiras serão as
histórias que chegam ao público.
Qual foi o bastidor mais inesperado, delicado ou
transformador que você viveu em set — aquele que mudou sua forma de trabalhar
ou de se relacionar com a equipe?
Um dos bastidores mais marcantes aconteceu durante as
gravações de "A Morte da Herança de Galinha". Eu interpretava Diana,
uma personagem que usa salto alto, e nunca tinha gravado uma cena inteira
nessas condições. Estávamos filmando em um cemitério, caminhando sobre
paralelepípedos, enquanto carregávamos outro personagem durante a cena. No meio
do percurso, perdi o equilíbrio. Consegui me recuperar quase até o fim da
tomada, mas acabei tropeçando pouco antes do corte. Na hora foi um misto de tensão
e vontade de rir. Hoje lembro desse momento com muito carinho porque ele mostra
que, por trás de toda vivência artística, também existe improviso, adaptação e
um pouco de caos, e faz parte do trabalho aprender a seguir em frente mesmo
quando as coisas fogem do previsto.
O que muda no seu corpo, na sua escuta e na sua técnica
quando você transita do teatro para o audiovisual?
A preparação para um personagem continua sendo
praticamente a mesma. O que muda é a forma de comunicar esse personagem. No
teatro, o corpo e a voz precisam alcançar uma plateia inteira. Existe uma
expansão natural da presença cênica. No audiovisual, acontece o contrário: a
câmera se aproxima e passa a perceber detalhes mínimos. Um olhar, uma
respiração ou um pequeno silêncio podem comunicar muito mais do que um grande
gesto. A intensidade do personagem continua existindo, mas ela precisa ser
dosada de outra maneira. No fim das contas, não muda a essência do personagem.
Muda apenas a escala em que essa verdade é apresentada ao público.
Que tipo de personagem ou projeto você sente que está
pronto para viver agora — algo que ainda não fez, mas que hoje encontra você no
momento certo?
Tenho vontade de viver personagens que me coloquem diante
de desafios que ainda não experimentei. Não penso tanto no tamanho do papel,
mas no tamanho da transformação que ele exige. Um projeto que desperta muita
curiosidade em mim seria interpretar dois personagens dentro da mesma obra,
como irmãos gêmeos ou figuras completamente distintas. Acho fascinante a
possibilidade de construir duas pessoas diferentes dividindo o mesmo universo
narrativo. Também tenho vontade de experimentar a rotina intensa de uma novela.
Ainda não vivi esse ritmo de gravação por meses seguidos, e acredito que seria
uma experiência importante para meu amadurecimento como ator. No fim, continuo
aberto ao que cada história pode me ensinar. Mais do que buscar um papel
específico, quero seguir encontrando histórias que ampliem meu repertório como
ator e como ser humano.



