segunda-feira, 8 de junho de 2026
🌧️ Chuva em Cena: Pernambuco Entra na Semana com Céu Carregado
domingo, 7 de junho de 2026
#SendoProsperidade com Mariângela Borba
Tudo evoluiu. Menos a inclusão
Por Mariângela Borba.
Recentemente participei de um dos maiores eventos sobre
futuro urbano, inovação, gestão pública e sustentabilidade do país. Durante
dias, ouvi especialistas discutindo Inteligência Artificial, transformação
digital, cidades inteligentes e novas tecnologias.
Tudo muito necessário.
Mas voltei para casa com uma inquietação.
Quem estamos deixando para trás nessa corrida?
Uma das palestras trouxe um estudo realizado pelo MIT que
analisou a forma como estudantes produziam textos utilizando Inteligência
Artificial, mecanismos de busca ou apenas seus próprios conhecimentos. Os
resultados apontaram algo importante: quando o indivíduo participa menos da
construção do raciocínio, tende a reter menos conhecimento.
Não porque a tecnologia seja ruim.
Mas porque aprender continua exigindo participação.
Enquanto refletia sobre isso, lembrei de uma frase que ouvi
durante toda a minha vida:
“Inteligência é resolver novas situações.”
Era assim que a minha dona mamãe definia inteligência.
E talvez seja exatamente isso que esteja faltando em muitas
discussões sobre inovação.
Não basta criar novas ferramentas.
É preciso criar novas soluções para novas realidades.
Meu pai trabalhou durante décadas no sistema bancário e
participou da implantação de tecnologias que transformaram a forma como lidamos
com o dinheiro, daquela época até hoje. Mas, depois de aposentado, fez uma
escolha legítima: não quis continuar acompanhando cada novidade tecnológica. E
está tudo certo. É um direito que o assiste.
Recentemente, durante um tratamento oncológico dele, surgiu
uma demanda judicial que exigia o envio de documentação por e-mail.
Ele não utiliza e-mail.
Não por incapacidade.
Por opção.
Ao entrar em contato com o escritório responsável pelo
processo, expliquei a situação. Redigi a mensagem, encaminhei os documentos
necessários e a advogada anexou tudo aos autos.
O processo seguiu normalmente.
Ninguém foi prejudicado.
Ninguém foi excluído.
E sabe por quê?
Porque alguém abriu os horizontes e resolveu a situação.
Inclusão não é eliminar a tecnologia.
Inclusão é construir pontes.
Hoje, envelhecer também significa aprender a sobreviver
digitalmente.
Aplicativos.
QR Codes.
Biometria.
Reconhecimento facial.
Senhas.
Confirmações por SMS.
Prova de vida digital.
Ferramentas que facilitam a vida de muitos, mas que também
podem se transformar em barreiras para quem não cresceu nesse ambiente.
Não estou defendendo o abandono da tecnologia. Pelo
contrário.
Ela reduz fraudes, amplia acessos e traz eficiência.
Mas eficiência sem humanização pode produzir um efeito
colateral perigoso: a exclusão.
Outro dia, ao entrar no prédio onde moro, meu pai ouviu da
portaria eletrônica:
“Acesso facial negado.”
Uma frase simples.
Mas carregada de simbolismo.
A máquina não reconheceu alguém que ajudou a construir parte
do mundo que hoje ela representa.
E essa exclusão não atinge apenas idosos.
Recentemente conheci um profissional que trabalhou durante
mais de duas décadas em uma grande empresa internacional. Descobriu, já adulto,
possuir um grau de autismo que jamais o impediu de desempenhar suas funções com
excelência.
Mesmo assim, acabou afastado.
A questão nunca foi capacidade.
A questão foi adaptação.
O mundo moderno fala muito sobre diversidade.
Mas ainda pratica pouco a inclusão.
Talvez por isso a atualização da NR-1 seja tão relevante.
Ao reconhecer a importância dos riscos psicossociais, a
norma amplia a compreensão de que saúde não é apenas ausência de doença.
Saúde também envolve pertencimento.
Acolhimento.
Escuta.
Condições para que as pessoas possam participar plenamente
da vida social e profissional.
A ciência avança.
A tecnologia avança.
A Inteligência Artificial avança.
Mas nenhuma inovação será realmente transformadora se deixar
pessoas para trás.
Prosperidade não é apenas crescer.
Prosperidade é garantir que todos possam continuar
caminhando juntos.
Porque inovação sem inclusão não é evolução.
É abandono disfarçado de modernidade.
*Mariângela Borba é jornalista, produtora cultural e
estrategista digital. Especialista em Cultura Pernambucana, atua na interseção
entre comunicação, cultura e política. Com passagem pelo Ministério da Cultura
e gestões públicas, integra a AIP e a UBE. Pesquisa a palavra como território
de poder e estuda Psicanálise.
📣 Rogério Rangel celebra 21 anos na Caminhada do Forró com show no Recife Antigo
🟡 ⚽ Samba, telão e festa: Olinda se prepara para viver a estreia do Brasil em clima de carnaval
📣 Mar à Mesa: uma noite de sabores no litoral recifense
🌊 Regata transforma esporte em ação ambiental e retira mais de 69 kg de resíduos do Rio Capibaribe
📣 Pernambuco acende o maior São João Gomes da história
✋ Cinco Perguntas para Assisão
Qual foi o momento em que percebeu que o forró seria seu caminho?
“Quando eu percebi no termo da Jovem Guarda, que eu era roqueiro naquela época, percebi que o rock não seria papo para mim. Então eu me debrucei sobre a cultura nordestina e comecei a forró, isso nos anos 60.”
Como você enxerga o forró de hoje em relação ao tradicional?
“Só deram o nome de forró e forró, mas o forró mesmo é o tradicional. Não existe uma coisa que não é, que não é o porqueiro que diz, não é. Então só fica o tradicional mesmo.”
O que significa para você ser considerado um mestre do forró?
“Eu me sinto feliz porque me taxaram com esse nome que dão a mim e eu agradeço muito, porque eu gosto muito do forró e gosto também de quem gosta do forró.”
Qual foi a história mais curiosa ou divertida que viveu na estrada?
“No dia que a gente comeu uma comida azeda no hotel, fomos tocar. Então, a banda todinha se cagou no palco, porque dava dor de barriga rapidamente, todo mundo.”
O que você espera deixar para as próximas gerações de forrozeiros?
“Bem, eu espero deixar o legado, não é? Por sinal, estou preparando as crianças no forró. Porque os que já estão taludos não vão entrar no forró. As crianças estão entrando na baixadinha mesmo. Então, é isso aí. Os que vão seguir daqui a 40 anos estão adultos.”
🩺 Olinda leva Clínica Móvel e Odontomóvel a cinco localidades nesta segunda semana de junho
🟢 Ruas do Recife ganham cores e torcida com mutirão “Pintando o Hexa”
🌀 Chuvas ganham força e colocam Pernambuco em estado de atenção
sábado, 6 de junho de 2026
📰 Chuva Persistente Mantém Pernambuco em Estado de Observação
🎉 Sabores, tradição e memória: Vila Nestlé estreia no São João de Caruaru
📣 Doce tradição: Pé-de-moleque gigante toma conta de Caruaru neste sábado
🌺 Flores que Encantam: Holambra Transforma o Mês dos Namorados em um Jardim de Emoções
🟡 🌧️ Camisas da Solidariedade: Instituto Vizinhos convoca torcida para ajudar famílias afetadas pelas chuvas
🍇 Inovação que brota da terra: o vinhedo que redesenha o futuro da Cooperativa Garibaldi
📣 Forró na Veia: Andrezza Formiga Embala o São João de Pernambuco
🩷 Esperança em Dose Urgente: A Corrente Que Se Forma por Coca
🎙️ É possível empreender no Podcast? Especialistas revelam as Chaves para empreender na Podosfera
🎙️ É possível empreender no podcast?
🎙️ Para responder essa pergunta, é fundamental olhar para o tamanho desse mercado no Brasil, que já se consolidou como o segundo maior produtor de podcasts do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. O consumo por aqui tem sido absurdamente alto, alcançando a marca aproximada 32 milhões de ouvintes, de acordo com a Associação Brasileira de Podcasters (Abpod). Essa densidade de público transformou o formato em um verdadeiro modelo de negócios. Em Pernambuco, onde a economia criativa é pulsante, as oportunidades são gigantescas para nichar conteúdos em cultura, turismo, educação e negócios locais, entre outros temas.
🎙️ Mas como surgiu essa mídia que hoje nos permite falar com o mundo? O podcast propriamente dito nasceu em dois mil e quatro, da inquietação de Adam Curry e da tecnologia do feed criada por Dave Winer. No início, a mídia era vista apenas como um hobby, uma espécie de rádio particular. Com o tempo, as produções se tornaram robustas, comerciais e elaboradas, provando-se como um mercado rentável. Fazer podcast é um trabalho árduo, muitas vezes solitário e que exige perseverança.
🎙️ Diante de um mercado de jornalismo tradicional cada vez mais restrito e desafiador em Pernambuco, o áudio digital deixou de ser um mero passatempo para se consolidar como uma verdadeira tábua de salvação e alternativa de carreira para muitos profissionais do setor. O jornalista Cássio Zirpoli, sócio do icônico Podcast 45 Minutos, recorda que o projeto nasceu de forma despretensiosa, mas ganhou força e relevância comercial diante das frequentes demissões em massa que assolavam as redações locais. Ele relata a transição e a realidade dessa jornada com muita clareza: "E aí o podcast foi crescendo como alternativa de virar até o emprego principal. E sobre empreender, ele passa basicamente na forma de rentabilizar o projeto".



📸 Fotos: Arquivo Pessoal
🎙️Serviço
Para acompanhar o trabalho dos especialistas e projetos citados, siga no Instagram:
*Podcast 45 Minutos: @podcast45
* Lina Fernandes: @linafernandes.pe
*Sebrae Pernambuco: @sebraepernambuco
*Academia do Podcast: @academiadopodcast
🌧️ Chuva em Foco: Pernambuco Entra em Semana de Instabilidade
🌟 Nos Braços do São João: Elba Ramalho lança single e inicia maratona de shows pelo Nordeste
📀 Só Elas: o São João da Globo Nordeste ganha voz e força feminina em edição especial
sexta-feira, 5 de junho de 2026
🥁 Baqueba: o maracatu que atravessou oceanos e encontrou eco no Japão
🌍 O maracatu nação
encontrou um espaço inesperado para florescer no Japão, onde o grupo Baqueba
mantém viva uma tradição pernambucana desde 2008. Criado por uma intercambista
japonesa que voltou de Recife decidida a continuar tocando maracatu, o grupo
ganhou novo rumo quando Tact Hirose, músico profissional e integrante
desde o início, assumiu a liderança. Ele conta que, ao pesquisar mais
profundamente, sentiu uma forte atração pelo som do Maracatu Nação Porto Rico,
cuja energia ritual e senso de comunidade o impressionaram. Em 2017, decidiu ir
a Recife aprender diretamente com a comunidade.
🥁 A trajetória de Tact
Hirose combina música, pesquisa e articulação cultural. Como profissional
da música, ele ajudou o Baqueba a crescer e criou oportunidades de
apresentações e intercâmbios. Também colaborou para formar uma rede entre
grupos de maracatu de Tóquio, Nanto, Nagoya, Osaka e Kyoto, chamada
Confederação Japonesa de Maracatu. Para ele, o maior desafio não é ensinar os
ritmos, mas transmitir o contexto cultural, histórico e humano que sustenta o
maracatu. As barreiras linguísticas e as referências desconhecidas tornam o processo
ainda mais complexo.
🎎 O público japonês reage
ao maracatu com surpresa e encantamento, especialmente pela força coletiva do
batuque. Mesmo sem entender as letras, muitos sentem a energia transmitida
pelos tambores. Tact Hirose observa que sons graves sempre fizeram parte
da relação dos japoneses com a natureza — terremotos, trovões — e que, quando
organizados na música, despertam outra sensibilidade. Em festivais do interior,
a recepção costuma ser ainda mais calorosa. O Baqueba, assim, abre uma janela
para um Brasil que muitos japoneses ainda não conhecem.
🌿 A espiritualidade ocupa
um lugar central na visão de Tact Hirose, que percebe afinidades entre o
Candomblé e o xintoísmo, ambas tradições ligadas à ancestralidade, à natureza e
às forças invisíveis. Ele recorda a cachoeira sagrada de sua infância e como se
impressionou ao conhecer a imagem de Oxum no Brasil. Para ele, o respeito nasce
da compreensão das diferenças, e essa sensibilidade espiritual o ajuda a
participar das vivências em Recife com sinceridade e reverência. Essa dimensão
fortalece a relação do Baqueba com o Porto Rico.
🚀 Para o futuro, Tact
Hirose sonha em fortalecer a presença do Maracatu Nação Porto Rico na Ásia
e formar novas lideranças jovens no Japão. Ele também desenvolve projetos que
aproximam a arte contemporânea da energia ritual do maracatu, buscando criar
portas de compreensão. Acredita que, ao conhecer uma cultura criada do outro
lado do mundo, jovens japoneses podem compreender melhor suas próprias raízes.
Para ele, o maracatu ainda pode alcançar lugares aonde hoje não chega — e ele
está determinado a fazer isso acontecer.
📸 Fotos: Reprodução Facebook
🎤 ENTREVISTA COMPLETA COM
TACT HIROSE
1. Como surgiu a ideia de criar um grupo de maracatu
nação em Tóquio e qual foi o seu primeiro impulso para iniciar esse movimento?
O BAQUEBA foi fundado em 2008, mas eu não sou o fundador do grupo. Tudo
começou quando uma intercambista japonesa voltou de Recife e quis continuar
tocando maracatu no Japão. Ela reuniu pessoas interessadas na cultura
brasileira e criou o grupo. Eu também fazia parte dos membros iniciais. Naquela
época, já estava começando minha carreira profissional como baixista. Além do
contrabaixo elétrico, eu buscava novas ideias musicais nos instrumentos graves
brasileiros, como a zabumba e o surdo. Com o passar dos anos, continuei
trabalhando profissionalmente com música e, eventualmente, assumi a liderança
do BAQUEBA.
2. Como se estabeleceu a relação do Baqueba com o
Maracatu Nação Porto Rico e o que essa conexão representa para você?
Curiosamente, a fundadora do BAQUEBA havia estudado maracatu em Recife
através de um grupo ligado ao Estrela Brilhante. Mas, à medida que fui
aprofundando minhas pesquisas — na época principalmente através da internet e
de informações transmitidas por outras pessoas — comecei a sentir uma forte
atração pelo som do Maracatu Nação Porto Rico. Eu admirava todas as nações que
conhecia através de gravações e vídeos, mas havia algo especial no Porto Rico.
A presença do agbê e do atabaque dentro do conjunto, a energia ritual, o senso
de comunidade e o orgulho transmitido pela música me impressionaram
profundamente. Naquela época eu já trabalhava como diretor de grupos
comunitários no SUKIYAKI MEETS THE WORLD, um dos maiores festivais de world
music do Japão. Eu já entendia que o maracatu não era apenas uma manifestação
carnavalesca, mas uma tradição ligada à fé, à identidade e à vida comunitária.
Por isso senti que tinha uma responsabilidade pessoal: ir até Recife, bater à
porta do Porto Rico e aprender diretamente com a comunidade. Isso finalmente
aconteceu em 2017.
3. Qual foi o seu caminho até se tornar líder de um grupo
de maracatu no Japão? O que te trouxe para essa tradição?
O Japão é um país curioso. Existem pesquisadores e apaixonados por
praticamente qualquer tradição musical do mundo. Os grupos de maracatu mais
antigos do Japão, por exemplo, surgiram em cidades como Nagoya, Osaka e Kyoto.
Quando viajei pela primeira vez para Recife, recebi muitos conselhos de
integrantes desses grupos pioneiros. Como músico profissional, consegui
contribuir para o crescimento musical do BAQUEBA, mas também para a criação de
oportunidades de apresentação, intercâmbios e projetos culturais. Com o tempo,
ajudei a organizar uma rede de cooperação entre grupos de maracatu de Tóquio,
Nanto, Nagoya, Osaka e Kyoto, chamada Confederação Japonesa de Maracatu. Não
existe uma liderança formal, mas procuramos colaborar através de encontros,
oficinas e turnês de mestres convidados. Para mim, esse trabalho de construção
de pontes é tão importante quanto tocar.
4. Quais são os maiores desafios de ensinar e praticar
maracatu em um país com uma cultura tão diferente da brasileira?
O maior desafio não é a música. Os ritmos podem ser ensinados. O mais
difícil é transmitir o contexto cultural, histórico e humano que existe por
trás deles. Tentamos sempre mostrar que o maracatu não é apenas uma
performance, mas uma tradição viva. Ao mesmo tempo, as barreiras linguísticas
continuam sendo importantes. Não apenas a língua portuguesa, mas também
palavras de origem africana, referências religiosas e aspectos da história
brasileira que não são familiares para a maioria dos japoneses. Por isso,
ensinar maracatu no Japão significa também ensinar histórias, valores e formas
de enxergar o mundo.
5. Como o público japonês reage ao maracatu? O que mais
surpreende ou encanta eles?
O público japonês costuma ficar impressionado com a força coletiva do
batuque. Muitas pessoas não entendem a letra das músicas, mas conseguem sentir
a energia. Curiosamente, tenho a impressão de que o maracatu é recebido com
ainda mais entusiasmo em festivais tradicionais do interior do Japão do que nos
grandes centros urbanos. Existe uma teoria interessante de que, historicamente,
os japoneses desenvolveram uma certa desconfiança em relação aos sons graves e
muito fortes, porque eles lembram terremotos, trovões e outros fenômenos
naturais que sempre fizeram parte da vida neste arquipélago. Mas quando esses
sons aparecem organizados dentro da música, acontece algo diferente. As pessoas
sentem uma conexão profunda com um pulso coletivo, quase como se o batuque
reconectasse o corpo humano aos ritmos da natureza.
6. Como você trabalha a formação do batuque no Baqueba?
Existe algo que você considera essencial para manter a identidade do Porto
Rico?
A técnica é importante, mas não é suficiente. Sempre procuro transmitir
respeito, disciplina, escuta e responsabilidade coletiva. A identidade do Porto
Rico não está apenas nos toques, mas na forma como as pessoas se relacionam
umas com as outras. Ao mesmo tempo, precisamos lidar com a realidade do Japão.
Alguns integrantes são músicos profissionais, mas a maioria trabalha em tempo
integral na enorme metrópole de Tóquio. O tempo é limitado, os espaços também.
Por isso, às vezes utilizamos recursos práticos, como pequenas anotações ou
partituras simplificadas, mesmo sabendo que o maracatu não pode ser reduzido a
uma partitura. Mais importante do que isso é criar oportunidades para que os
integrantes conheçam Pernambuco pessoalmente. Também me esforço para que cada
vez mais pessoas da Comunidade do Bode e do Nação Porto Rico possam visitar o
Japão. Nada substitui a experiência direta de convivência.
7. Para você, qual é o papel da espiritualidade dentro do
maracatu nação e como isso é vivido dentro do Baqueba?
Esta talvez seja a pergunta mais importante. Curiosamente, sinto muitas
afinidades entre o Candomblé e o xintoísmo, a religião tradicional do Japão.
Não porque sejam a mesma coisa, mas porque ambos nasceram de relações profundas
entre comunidade, ancestralidade, natureza e forças invisíveis. Eu venho de uma
pequena região montanhosa do centro do Japão. Na tradição da minha família
existe uma grande cachoeira considerada sagrada. Em ocasiões especiais, meus
ancestrais vestiam roupas brancas, subiam a montanha, faziam oferendas de
alimentos e saquê, cantavam e dançavam. Desde criança eu imaginava aquela
cachoeira como uma mulher vestida de dourado. Quando conheci a imagem de Oxum
no Brasil, fiquei profundamente impressionado. Claro que Candomblé e xintoísmo são
tradições diferentes. Talvez essas semelhanças sejam apenas resultado da forma
como diferentes povos perceberam o mundo ao seu redor. Mas eu valorizo muito
essa espécie de simpatia espiritual. Não procuro misturar as tradições nem
afirmar que são iguais. Pelo contrário. O respeito nasce justamente da
compreensão das diferenças. Talvez por isso eu sempre tenha conseguido
participar das vivências e cerimônias em Recife com sinceridade e reverência.
Sinto que, apesar da distância geográfica e cultural, não estamos tão longe uns
dos outros quanto imaginamos.
8. O Baqueba mantém intercâmbios só com o Nação Porto
Rico ou também com outras nações? Como essas trocas influenciam o grupo?
Quando visitei Pernambuco pela primeira vez, também tive a oportunidade de
conhecer o Leão Coroado e o Estrela Brilhante de Igarassu. Eu gostaria muito de
ter visitado o Encanto da Alegria também, mas infelizmente não houve tempo
suficiente. Todas as nações que conheci possuíam mestres extraordinários e
comunidades admiráveis. Para ser sincero, ainda existem muitos lugares onde
gostaria de aprender. Mas a cultura do maracatu é profunda demais. Existe tanta
história, tanta informação e tantas camadas que é impossível conhecer tudo ao
mesmo tempo. Além disso, também sinto uma responsabilidade com a Comunidade do
Bode, que me acolheu e me ensinou durante todos esses anos. E, claro, durante o
Carnaval as nações também são concorrentes dentro da competição. (risos) Mesmo
assim, tenho profundo respeito por todos os mestres que conheci. Não apenas por
meu pai Chacon, mas também por pessoas como Mestre Afonso e Mestre Gilmar.
Mestre Afonso infelizmente já partiu, mas continua vivo através da comunidade
que ajudou a construir. O que mais admiro em todos eles é a capacidade de
preservar e transmitir a cultura de suas comunidades para as próximas gerações.
9. Como o Baqueba impacta a comunidade brasileira e
japonesa em Tóquio?
Acho que o BAQUEBA funciona como uma ponte entre mundos diferentes. No ano
passado, por exemplo, participamos de um grande festival em Toyota, cidade que
abriga uma das maiores comunidades brasileiras do Japão, e tivemos a honra de
tocar ao lado de Saulo Fernandes, da Bahia. Depois da apresentação, muitos
nordestinos vieram conversar conosco emocionados. Alguns disseram que o som do
maracatu trouxe lembranças da infância, da família e do Carnaval. Momentos como
esse acontecem várias vezes ao longo do ano. Ao mesmo tempo, em Tóquio
costumamos participar de festivais organizados por rádios, eventos culturais e
projetos ligados às artes. Nesses contextos, sinto que o BAQUEBA ocupa um lugar
especial. Enquanto o samba e a MPB já são relativamente conhecidos no Japão, o
maracatu traz algo diferente: o vento do Carnaval de Pernambuco e do Nordeste
brasileiro. Talvez nossa função seja justamente essa: abrir uma pequena janela
para uma parte do Brasil que muitos japoneses ainda não conhecem.
10. Onde você imagina o Baqueba daqui a alguns anos?
Quais sonhos ou projetos você ainda quer realizar com o grupo?
O Japão enfrenta um processo de envelhecimento populacional e o número de
jovens vem diminuindo ano após ano. Mesmo assim, fico feliz em ver que uma nova
geração de batuqueiros está surgindo em várias regiões do país. Meu maior sonho
não é apenas formar bons percussionistas. Quero que esses jovens aprendam não
somente a tocar, mas também a compreender o valor da comunidade, da
responsabilidade coletiva e da liderança. Paradoxalmente, acredito que ao
conhecer uma cultura criada do outro lado do mundo, em comunidades populares de
Pernambuco, eles podem compreender melhor suas próprias raízes e sua própria
sociedade. Outro sonho é fortalecer a presença do Maracatu Nação Porto Rico na
Ásia. Tenho alunos, amigos e parceiros na Coreia do Sul, em Taiwan e em outros
lugares da região. Gostaria de criar oportunidades para que mestres, ogãs,
agbêzeiras e jovens da nação possam ser conhecidos por novos públicos e
estabelecer novas conexões internacionais. Este ano estivemos muito próximos de
realizar um projeto desse tipo. Meu desejo é trazer ao Japão não apenas os
mestres, mas também pessoas que representam a força atual e o futuro da nação.
Nos últimos anos também tenho trabalhado cada vez mais no campo da arte
contemporânea e da criação sonora. Tive a oportunidade de participar de
festivais internacionais importantes ao lado de artistas indígenas do Japão,
criando pontes entre diferentes culturas tradicionais. Existe um projeto que me
acompanha há muitos anos: encontrar formas de apresentar, através da arte
contemporânea, aquela energia única que nasce nos terreiros, nas ruas e nos
momentos em que o ritual se manifesta. Não para substituir a tradição. Pelo
contrário. Quero criar portas para que mais pessoas possam compreender a
profundidade cultural, espiritual e humana que existe dentro do maracatu. Se
conseguirmos fazer isso, acredito que o nome do Maracatu Nação Porto Rico
poderá alcançar lugares onde hoje ainda não chega. Não é um projeto simples.
Mas eu acredito que vai acontecer. Podem esperar.





