🌟 A obra de Ezio Rosa emerge de um Brasil onde espiritualidade, corpo e território se misturam sem pedir licença. Suas esculturas e narrativas visuais atravessam o Candomblé, a Umbanda e o cotidiano das periferias, revelando Exus e Pombagiras como figuras vivas, humanas e politicamente potentes. Ao transformar entidades em trabalhadores, mulheres trans, profissionais do sexo e pessoas vulneráveis, Ezio devolve ao sagrado sua origem popular e sua força de resistência.
🌟 O artista, criado entre benzedeiras, centros espíritas, terreiros e a fé católica de sua mãe, carrega no corpo o sincretismo que molda o Brasil. Essa mistura não é apenas referência: é matéria-prima. Em suas mãos, o sagrado deixa de ser distante e se torna vizinho, caminhando pelas mesmas ruas que ele percorre desde sempre na Zona Leste de São Paulo. A periferia, para Ezio, não é cenário — é fundamento espiritual e estético.
🌟 Ao representar Exus e Pombagiras como corpos marginalizados, Ezio denuncia o racismo religioso, a desigualdade urbana e a violência estrutural que atravessam o país. Seus “santinhos do novo mundo” são mais que esculturas: são espelhos que revelam quem somos e quem poderíamos ser. A arte, para ele, é provocação, liberdade e responsabilidade com sua própria verdade — mesmo quando isso incomoda setores mais conservadores das religiões de matriz africana.
🌟 Nesta entrevista, Ezio fala sobre sincretismo, ética, periferia, sonhos, crítica social e sobre quem serão as entidades de amanhã. Suas respostas revelam um artista que não apenas cria imagens, mas também tensiona imaginários, desloca fronteiras e reivindica novas formas de ver o sagrado no Brasil contemporâneo.
✨Sua trajetória passa por referências tanto do Candomblé quanto da Umbanda. Como essas experiências distintas se encontram dentro da sua produção artística?
Eu sou iniciado no Candomblé há nove anos, e antes disso eu já frequentava alguns terreiros de Umbanda, então esses universos sempre permearam minha arte.
🔥Quando você trabalha com a figura de Exu, como diferencia o Òrìṣà do Candomblé das entidades da Umbanda, e o que cada dimensão espiritual significa para você?
Minha arte traz muitas referências de Orixá e Entidades da Umbanda, e isso acontece de forma muito natural por conta da minha vivência frequentando ambas religiões. Nós entendemos que é cada um no seu quadrado, mas na prática essas energias acabam se misturando.
💃 A Pombagira é uma entidade profundamente ligada à Umbanda e ao cotidiano das periferias. O que te interessa nessa figura enquanto símbolo cultural e social?
A Pombagira pra mim é um símbolo de liberdade e eu faço arte pra me sentir livre. Então naturalmente eu não poderia deixar essas figuras de fora da minha pesquisa.
🌍 Sua obra parece nascer de um Brasil onde fronteiras religiosas são fluidas. Como você enxerga esse sincretismo e como ele se manifesta nas suas criações?
Fui criado por uma mãe católica que sempre me levou em benzedeira e centros espíritas, mais tarde conheci a Umbanda e Candomblé, então eu vivo essa questão do sincretismo de uma forma muito natural, está no DNA do Brasil. A minha arte reflete tudo de mais tocante que eu vivi e vivo na religiosidade como todo.
🧿 Ao representar entidades e divindades, você sente algum tipo de responsabilidade espiritual, ética ou comunitária? Como isso orienta suas escolhas?
Eu me sinto responsável com a minha verdade. É claro que é preciso ter ética, mas ética é um conceito que pode ser discutido. Quero dizer, não me sinto desrespeitando o sagrado, no entanto existem religiosos que não enxergam dessa forma. Minha pesquisa se apoia na minha vivência de quase dez anos de iniciado no candomblé, somado a um olhar que foi criado pelos movimentos sociais. É impossível criar arte sem colocar o dedo em algumas feridas.
🏙️ A periferia é um espaço onde Umbanda, Candomblé e outras práticas convivem. Como esse território espiritual influencia sua visão estética?
Nunca morei em outro lugar que não fosse a periferia, então esse ponto de vista está intrinsecamente ligado a minha forma de fazer arte. É o meu ponto de partida para qualquer lugar que eu vá.
⚡Você frequentemente associa entidades a corpos vulneráveis ou marginalizados. O que essa aproximação revela sobre o Brasil de hoje?
O meu trabalho com os santinhos do novo mundo é também uma denúncia. Esse trabalho é uma reflexão profunda da religiosidade e sociedade contemporânea, como os atravessamentos que a gente vive possam coexistir.
🔥 Como você lida com críticas vindas de religiosos que consideram suas releituras ousadas demais ou fora da tradição?
Eu lido bem! A arte ela existe para provocar, fazer pensar, deixar inquieto… E quando percebo que as pessoas estão discutindo sobre a minha arte, me sinto no caminho certo. Gosto de convidar as pessoas a pensarem fora das suas zonas de conforto.
🌙Seu processo envolve sonhos, vivências e símbolos espirituais. Como esses elementos se transformam em imagem, forma e narrativa?
Sou diariamente inspirado por tudo que me cerca, mantenho o olhar afiado pra de fato enxergar quem está a minha volta. Ver e enxergar não são a mesma coisa e isso muda totalmente minha forma de fazer arte.
🔮Quando você imagina “quem serão as entidades de amanhã”, o que você acredita que está mudando na forma como o Brasil se relaciona com Exu, Pombagira e os Òrìṣàs?
Existe um movimento de artistas que estão conseguindo traduzir os elementos das religiões de matriz africana de uma forma muito original e tocante, esses artistas são pilares na discussão sobre arte contemporânea e racismo religioso. Com a minha arte quero refletir sobre essas questões e de alguma forma fazer parte desse processo de desconstrução deste imaginário social racista.
📸 Foto: Acervo Pessoal
