terça-feira, 19 de maio de 2020

Favelas do Recife são contempladas pela Usina da Imaginação durante a Covid


















A. Dias (24), cardiopata, e seu companheiro E. Barreto (27), asmático crônico, decidiram se isolar em casa. Já o amigo Cidicley Fagner (27), vendedor de ovos, não pode parar de trabalhar, mas está se protegendo com máscara. Dona Marta (60) mora no Arruda e, desconfiada de ter adoecido com a Covid-19, se deu conta do problema que a periferia do Recife enfrentaria indo aos hospitais e começou a fazer máscaras para distribuir. Essas histórias, muitas vezes invisíveis, se cruzam e expõem a realidade das comunidades do Brasil e o impacto do contágio nessas regiões.

“Pernambuco, apesar do alto índice de contaminação e letalidade, ainda não chegou ao pico, mas a situação em outros estados já mostra como a doença mostra faces diferentes de acordo com a classe social”, aponta a antropóloga Rita Oenning. Ela é uma das diretoras da Usina da Imaginação, instituição social que está desenvolvendo diversas ações nas comunidades do Recife com o objetivo de fortalecer os cuidados dos moradores.

Para dialogar com essa população, a Usina da Imaginação está atuando sob diversos eixos, como conscientização para crianças, adultos e idosos; fomento econômico; e articulação social. Todas as atividades foram concebidas respeitando a condição desses moradores, como a necessidade do trabalho para garantir o alimento do dia, ausência de cômodos para isolamento e separação de embalagens, além da falta de dinheiro para a compra de itens de higiene e máscaras.

Costura e renda – Em dez favelas localizadas em todas as regiões do Recife, a Usina da Imaginação está trabalhando com mulheres que têm como ofício a costura para financiar sua produção de máscaras. Elas recebem os tecidos, linhas e agulhas, além de instrução online sobre como preparar uma máscara segura e confortável. Algumas mulheres também ganham uma máquina de costura. D. Maria, moradora da Iputinga, que fazia máscaras a mão para a família, com uma máquina de costura que recebeu, passará a produzir o item para doar a pessoas de sua comunidade. Assim como ela, 10 outras pessoas integram a iniciativa.

Mensageiros – A tradicional frase “economiza comprando e compre economizando”, clássica na venda de ovos nas ruas, abriu espaço para transmitir também orientações às comunidades. Grupo de vendedores informa as pessoas sobre como podem, no seu dia a dia, agir contra a propagação do vírus e ajudar a achatar a curva de disseminação do vírus.

Notícias – A Usina da Imaginação traduz e simplifica as informações sobre os perigos e as precauções de maneira que faz sentido para o local. Com a página “FavelaNews” no Facebook (www.facebook.com/FavelaNews), as pessoas têm acesso a cards e vídeos didáticos que têm como protagonistas os próprios moradores. “A gente mostra o impacto que o vírus pode ter aqui e explica o que pode fazer para se proteger dentro dos becos onde moramos”, afirma Okado do Canal, rapper e ator que gravou videoclipe refletindo sobre as possíveis consequências da chegada da doença na favela. O canal traz também vídeo com dicas de trabalhadores, especialmente os informais e autônomos, como o vendedor de ovos Cidicley Fagner. Durante sua passagem pelas ruas das favelas, ele grava pequenas entrevistas com fregueses perguntando como cada um se protege e sobrevive em meio à pandemia.

Usina - “O melhor jeito de convencer as pessoas a cuidar-se é mostrando que pessoas como elas já estão fazendo isso,” explica Kurt Shaw, também diretor executivo da Usina. A instituição também possui canal no Facebook e Instagram gerando conteúdos com a estética e a linguagem da favela para traduzir a ciência de ponta para a periferia, por meio de cartazes sobre como se cuidar nas condições da favela, o que pode ser feito por quem precisa sair de casa para trabalhar e como a pandemia pode superar a capacidade do SUS. As plataformas também trazem artistas que têm relação com a favela e trazem mensagens sobre a doença, como se proteger, e como sobreviver emocionalmente. Já gravaram Beth de Oxum, Okado do Canal, Claudio Rabeca e Bell Puã. Cada artista faz a sua arte em casa, de forma protegida, e recebe uma ajuda de custo pela produção.

Crianças – Sempre vistas como um desafio para aliar trabalho, cuidados da casa e rotina escolar, muitas crianças não entendem o momento atual e nem seu papel nisso. Com a campanha Pirilampo Criativo, em suas redes, traduz conceitos e temas da pandemia, baixando assim o estresse gerado pela incompreensão da linguagem cientifica e adulta. Elas aprendem sobre a epidemiologia da doença — como uma criança que não mostra nenhum sintoma pode transmitir o vírus a pessoas de risco, como evitar a contaminação, como ajudar a família na proteção, como lavar as mãos de modo divertido. Também tem dicas para pais e mães nesse novo desafio.

Outra iniciativa em andamento é o “Fala de Crianças” para trazer a diversidade de vozes de crianças de diferentes idades, incluindo a primeira infância, e de seus cuidadores, propiciando a escuta de suas experiências e da reflexão e aprendizados dessas em diferentes contextos. Serão propostas fala em entrevistas com as crianças e também outras formas de expressão como cartas e desenhos sobre o tema. A atividade está sendo desenvolvida pela antropóloga Rita de Cácia Oenning da Silva com o projeto Global Leader para a Primeira infância (2019) e Usina da Imaginação.

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