Quando eu digo “eu quero”, quem está querendo?
Por Mariângela Borba.
Toda vez que uma trend explode, fico pensando no que ela revela sobre nós.
Lembra da febre das fotos “como eu seria nos anos 80”? Em poucos dias, as
redes sociais se encheram de cabelos volumosos, roupas coloridas, poses,
cenários e versões rejuvenescidas de quem nasceu muito antes, muito depois ou
exatamente naquela década.
A pergunta mais interessante, para mim, talvez nem seja “por que todo mundo
está fazendo isso?”. É outra: o que está por trás de uma trend?
Não falo apenas do mecanismo do aplicativo, do algoritmo ou da tecnologia.
Falo também do que se movimenta dentro de nós quando uma coisa se torna
desejável porque tanta gente parece desejá-la.
René Girard dedicou boa parte de sua obra a investigar justamente isso: por
que desejamos o que desejamos? Para ele, o desejo humano é frequentemente
mediado pelo desejo do outro. É o chamado desejo mimético.
Antes de querer alguma coisa, muitas vezes vemos alguém querendo. O olhar do
outro acende o nosso.
Pense no “morango do amor”. Durante um tempo, parecia impossível atravessar
as redes sem encontrar um. Confesso: ainda não comi. Agora, curiosamente, quase
ninguém fala mais dele. O desejo passou. A moda mudou. E nós seguimos adiante,
prontos para desejar a próxima coisa.
Com a foto dos anos 80, acontece algo parecido. A imagem pode ser divertida,
bonita, nostálgica. Não há nada de errado em participar de uma brincadeira
coletiva. A questão começa quando entramos no fluxo sem perceber que estamos
entrando.
Porque existe uma diferença entre escolher participar e
simplesmente seguir o movimento.
Uma trend é um pequeno laboratório social. Ela mostra como desejos
individuais podem ganhar velocidade quando encontram o desejo de muitos.
E há uma segunda camada, menos visível.
Quando enviamos uma fotografia para uma ferramenta de inteligência
artificial, não estamos apenas produzindo uma imagem bonita para publicar.
Estamos também enviando um dado. A fotografia sai do nosso dispositivo, é
processada pela plataforma e pode estar sujeita a regras específicas de
armazenamento, segurança, uso e compartilhamento, conforme o serviço utilizado.
Ou seja: enquanto pensamos estar apenas participando de uma brincadeira,
também estamos participando de um sistema de circulação de dados.
Isso não significa dizer que toda trend foi criada para “roubar”
informações. Seria uma conclusão fácil demais. A pergunta mais interessante é
outra: o que damos quando participamos de algo que parece gratuito?
A economia da atenção já transformou nosso olhar em mercadoria. A
inteligência artificial acrescentou outra camada a esse cenário: imagens,
textos, vozes e outros conteúdos enviados pelos usuários passaram a integrar
sistemas complexos de processamento de dados.
Talvez por isso uma simples foto dos anos 80 possa nos ensinar mais do que
parece.
Ela fala de tecnologia, claro. Mas fala também de pertencimento.
Há quem entre na trend porque achou bonito. Há quem entre porque todo mundo
está fazendo. Há quem entre para não ficar de fora. E há quem faça questão de
anunciar que não participa de nada disso — como se precisasse provar a própria
independência.
Esse último grupo me interessa particularmente.
Lacan, ao pensar a negação, ajuda a perceber que aquilo que recusamos também
pode revelar nossa relação com aquilo que recusamos. Nem toda negativa esconde
um desejo, evidentemente. Mas, às vezes, a necessidade de afirmar
ostensivamente “eu não quero isso” diz mais sobre a pessoa do que um simples
“não quero” diria.
Quem precisa anunciar que não se importa talvez esteja, de algum modo, se
importando.
Não necessariamente com a trend. Talvez com o lugar que ocupa diante dos
outros.
Porque pertencer é uma necessidade humana. E, justamente por isso, pode se
transformar em pressão. O desejo de fazer parte pode nos levar a repetir
comportamentos antes mesmo de perguntar se aquilo realmente nos interessa.
Saber disso não nos coloca acima da multidão. Apenas nos permite enxergar
melhor os mecanismos que também nos atravessam.
Sócrates já fazia perguntas incômodas muito antes de existirem redes
sociais. Em vez de aceitar as certezas da cidade, interrogava-as. Não oferecia
ao seu tempo o conforto de simplesmente concordar.
Talvez haja algo de socrático que continue fazendo falta na vida digital: a
disposição de interromper o fluxo por alguns segundos e perguntar por
quê?
Por que eu quero isso?
Por que estou fazendo isso?
O que me trouxe até aqui?
E, agora que posso transformar minha fotografia em qualquer coisa, o
que acontece com aquilo que entreguei para que essa transformação acontecesse?
A autonomia não está apenas na capacidade de dizer “não”. Também não está em
dizer “sim” só porque todo mundo disse.
Ela aparece quando conseguimos examinar as razões pelas quais dizemos sim ou
não — e sustentar uma posição própria, inclusive quando ela contraria a
maioria.
É aí que a reflexão encontra a liberdade.
Talvez seja essa a pergunta que uma trend aparentemente banal pode nos
devolver: quando todo mundo está desejando a mesma coisa, ainda conseguimos
escutar o nosso próprio desejo?
Quando uma trend explode, talvez a pergunta mais interessante não seja
apenas:
“Eu quero fazer?”
Mas:
“Por que eu quero fazer?”
E, antes de apertar o botão:
“O que está por trás disso?”
Porque, no fim, a questão não é somente se temos autonomia para fazer ou não
uma fotografia dos anos 80.
É saber se ainda temos autonomia para pensar.
Mesmo quando todo mundo pensa diferente.
Mesmo quando todo mundo parece querer a mesma coisa.
Mesmo quando o algoritmo já nos mostrou o que deveríamos desejar.
Quando eu digo “eu quero”, quem está querendo?
Mariângela Borba é jornalista (DRT-PE 4095), especialista em Cultura
Pernambucana, produtora cultural, psicanalista em formação, pesquisadora da
palavra como território de poder e autora da coluna #SendoProsperidade.