O PONTEIRO DO RELÓGIO
Está clara a lonjura que me devora:
atrasa a vida — um passo a menos,
e rumina um fardo inteiro de feno
sem perceber o adiantar da hora.
O ponteiro do relógio até que chora
de tanto correr atrás do seu tempo;
em busca de si mesmo, meio lento,
sempre a se chegar à mesma hora.
Se me causa espécie a tua demora,
recorro ao relógio da parede agora,
que conta os minutos sofregamente.
Intransponível, essa distância vigora
e, ainda por cima, se alimenta da hora
que em mim se encurta; por isso, sente.
Achel Tinoco é escritor e poeta
paraense de nascimento, baiano por adoção