ÚLTIMAS NOTÍCIAS
Carregando manchetes...

domingo, 16 de agosto de 2026

#SendoProsperidade com Mariângela Borba

Quando o outro deixa de ser espelho

Por Mariângela Borba.

Há alguma coisa acontecendo conosco.

Talvez seja mais do que uma crise de valores. Talvez estejamos atravessando uma crise ética: uma dificuldade crescente de reconhecer humanidade naquilo que não se parece conosco.

Uma família pode transmitir cuidado, afeto e pertencimento e, ao mesmo tempo, ensinar desconfiança diante de tudo aquilo que parece estranho ao seu modo de viver.

Freud desconfiava do mandamento de amar o próximo como a si mesmo. Não porque desconhecesse a força do amor, mas justamente porque conhecia o humano. O outro também incomoda. Pensa diferente, deseja diferente, escolhe caminhos que podemos reprovar. E a diferença pode despertar hostilidade, rivalidade e agressividade.

O amor, por si só, não resolve esse impasse.

Talvez porque amemos com mais facilidade aquilo que reconhecemos como semelhante — aquilo que, de alguma maneira, funciona como espelho.

Jung chamou atenção para aquilo que projetamos no outro: muitas vezes, aquilo que não suportamos reconhecer em nós mesmos aparece mais facilmente quando o encontramos do lado de fora. O estranho pode carregar justamente aquilo que preferimos manter distante de nossa consciência.

Lacan, ao pensar a constituição do sujeito e sua relação com o Outro, também nos lembra que não existimos isoladamente. Somos atravessados pelo olhar, pela linguagem e pelo desejo do outro. Mas isso não significa que o outro exista para confirmar aquilo que somos.

O problema começa quando queremos transformar o outro em espelho.

Quando ele deixa de refletir nossa imagem, nossa moral, nossa crença, nossa escolha política, nossa maneira de amar ou de viver, alguma coisa se rompe.

Isso acontece dentro e fora da família.

Um filho cresce e constrói valores que os pais não compartilham. Faz escolhas que eles não fariam. Deseja uma vida diferente daquela que imaginaram para ele.

E talvez uma das experiências mais difíceis da parentalidade seja justamente essa: descobrir que aquele ser que nasceu de nós não nasceu para ser nossa continuação.

Winnicott compreendeu profundamente essa tensão. O desenvolvimento saudável não consiste em produzir um indivíduo que corresponda às expectativas do outro, mas em oferecer condições para que ele possa tornar-se quem é. Há uma delicada tarefa entre cuidar e não possuir, proteger e não aprisionar, estar presente e permitir que o outro exista por si mesmo.

Amar um filho, portanto, também pode significar suportar que ele seja diferente de nós.

E isso vale para muito mais do que a família.

Alguém que amamos faz escolhas que não compreendemos. Uma pessoa estranha chega com outra cultura, outra crença, outra língua, outra maneira de organizar a própria existência.

É justamente aí que a ética deixa de ser uma ideia confortável.

Emmanuel Levinas colocou o rosto do outro no centro da experiência ética. O outro nos convoca antes mesmo que consigamos classificá-lo, explicá-lo ou julgá-lo.

Respeitar o outro exige suportar que ele continue sendo outro.

Não precisamos concordar para reconhecer dignidade.

Não precisamos gostar para respeitar.

Não precisamos compreender completamente para admitir que a existência do outro não depende da nossa aprovação.

Talvez seja essa uma das grandes dificuldades do nosso tempo.

Vivemos cercados por possibilidades de comunicação, mas nem sempre estamos dispostos ao encontro. Temos mais ferramentas para falar, responder, publicar e reagir — e menos disposição para escutar.

E, enquanto escrevia, lembrei do filme O Convite, de Olivia Wilde. Um jantar entre dois casais aparentemente comuns vai revelando, pouco a pouco, as fissuras de relações que pareciam conhecidas. Por trás da intimidade, aparecem desejo, ressentimento, comparação, hipocrisia e aquilo que cada um preferia não enxergar. Talvez porque, quando o outro deixa de corresponder à imagem que construímos, também sejamos obrigados a olhar para aquilo que escondemos de nós mesmos.

Talvez seja aí que a provocação de Valter Hugo Mãe, em seu mais recente livro O Século dos Imbecis, encontre o nosso tempo.

Estamos normalizando uma espécie de glorificação da ignorância.

Não aquela ignorância que reconhece humildemente o que não sabe — essa pode ser o começo do conhecimento.

Mas a ignorância transformada em orgulho.

A recusa em perguntar.

A incapacidade de admitir dúvida.

A certeza que dispensa investigação.

A opinião que se sente autorizada a existir antes mesmo de conhecer o assunto.

Pensar dá trabalho.

Escutar dá trabalho.

Mudar de ideia dá trabalho.

É muito mais confortável permanecer entre semelhantes, onde nossas convicções são confirmadas o tempo inteiro.

Mas uma sociedade não pode depender do amor para sustentar seus vínculos.

O amor oscila. Pode terminar. Pode se transformar. Pode carregar ambivalência e até conviver com agressividade.

Freud sabia disso.

Por isso, talvez a ética precise ir além do afeto.

Precisamos construir uma consideração pelo outro que alcance também aquele que não desperta identificação, simpatia ou amor.

O amor aproxima. O respeito sustenta a relação quando a semelhança acaba.

E talvez a ética comece exatamente aí: quando a diferença do outro deixa de precisar da nossa aprovação para continuar tendo direito de existir.

Hoje, 16 de agosto, é Dia do Filósofo.

Talvez a melhor maneira de celebrar a filosofia seja lembrar como ela nasceu: do espanto, da pergunta, da disposição de olhar para aquilo que parecia óbvio e perguntar novamente.

Em tempos de certezas instantâneas, talvez filosofar seja uma forma de resistência.

Parar.

Perguntar.

Escutar.

Desconfiar das próprias certezas.

E reconhecer que, diante do outro, talvez não seja necessário ter imediatamente uma resposta.

Às vezes, a sabedoria começa justamente quando conseguimos permanecer diante da pergunta.

E você: consegue reconhecer o outro quando ele deixa de ser seu espelho?

🌻 Mariângela Borba é jornalista (DRT-PE 4095), especialista em Cultura Pernambucana, produtora cultural, psicanalista em formação, pesquisadora da palavra como território de poder e autora da coluna #SendoProsperidade.