🎭 O lançamento do livro As Entidades Espirituais do Carnaval e Suas Agremiações, realizado ontem (20/08) na sede do Clube das Pás, foi um sucesso absoluto, reunindo pesquisadores, brincantes e apaixonados pela cultura popular. A obra do professor e teólogo Álvaro Melo aprofunda as conexões entre espiritualidade, religiosidade e manifestações carnavalescas, revelando como elementos de matriz africana atravessam ritos, personagens e tradições que moldam o Carnaval pernambucano.
📚 Com uma abordagem que une Teologia, antropologia e história, Melo evidencia que a presença espiritual nas agremiações não é novidade, mas sim parte essencial da construção simbólica do Carnaval. Personagens como o Homem da Meia-Noite e o Calunga ganham destaque como expressões de uma espiritualidade própria, que dialoga com fé, ancestralidade e identidade coletiva.
🎶 O autor também ressalta o papel do samba como canal direto com o mundo espiritual, reforçando sua importância como linguagem cultural e ritualística. A obra se apresenta como convite para enxergar além do espetáculo, valorizando saberes que atravessam gerações e combatendo preconceitos ainda presentes na sociedade.
📸 Fotos: Milena Ferreira
SERVIÇO
Lançamento do livro “As Entidades Espirituais do Carnaval e Suas Agremiações” — Álvaro Melo
📅 Data: 20 de agosto
📍 Local: Clube das Pás — Rua Odorico Mendes, 263, Campo Grande, Recife
🏷️ Editora: Composé Edições Literárias
A Sra. Adaura Martins, esposa de Álvaro Melo
ENTREVISTA — Álvaro Melo
1. Como sua formação em Teologia moldou o modo como você interpreta a presença das entidades espirituais nas manifestações carnavalescas, especialmente em contextos onde fé e festa parecem, à primeira vista, opostos?
É justamente isso. Quando você tem a profundidade do conhecimento, quando você se aprofunda neste conhecimento teológico, e também em ciências da religião, você percebe que a religião está como um código de conduta. Muito mais para organizar, para coibir excessos em uma sociedade, do que é relacionado realmente com o espiritual. Todavia, dentro do contexto carnaval, dentro do contexto festa, o que parece ser, à primeira vista, paradoxal, está muito ligado. É uma situação onde as pessoas que cultuam independente da crença, também leva em consideração a busca pela felicidade, pelo prazer de estar bem. Então, se esse rito leva também a isso... Vou dar um exemplo simples. Nas igrejas, independente de protestantes, evangélicas, católicas, tem o louvor. E na Umbanda, no candomblé, tem os toques. Então, esse rito é comum. É de natureza comum de todas as religiões. Eu vejo, neste momento, a questão, e a palavra chave para mim é essa, é respeito. Com um olhar antropológico de diferenças entre crenças, costumes, ritos, mas com muito respeito.
2. Ao investigar a relação entre agremiações e religiões de matriz africana, que descobertas mais lhe surpreenderam sobre como esses saberes são preservados — mesmo diante de séculos de preconceito?
Ao investigar essas relações, o que mais me surpreendeu é a desinformação e um certo preconceito das pessoas que estão desinformadas. Na verdade, todas as religiões têm o lado místico da coisa e me parece que dentro do Aspas, cristianismo, ou como queria chamar, catolicismo, tem as pessoas que creem em Jesus, creem em Deus, Pai, creem inclusive, eu chamarei de santos da igreja, no candomblé nombana, seriam entidades como Maria, São Benedito, Santo Antônio, São João, São Pedro, não é? Esse processo, desse sincretismo que existe lá, faz com que as pessoas professem sua fé de forma aberta, sem nenhum preconceito, e até de forma tranquila, do que é comum a uma sociedade. Todavia existem algumas situações em que existe um preconceito, O questionamento, mesmo tendo professado sua fé, elas ficam com o pé atrás. Ou seja, começa a não professar essa fé, começa a cultuar de forma secreta, a não colocar expondo que tem crenças de determinadas circunstâncias. Mesmo mediante tantos preconceitos que existem em uma sociedade machista, arcaica como é a nossa, hoje isso está sendo quebrado. O que eu percebi, dentro dessas pesquisas, é que as pessoas hoje não têm tanto medo da opinião do outro. Estão mais empoderados. E aí se apresentam e se mostram e professam a sua fé, seja ela qual for.
3. O que você percebeu sobre o papel simbólico de figuras como o Homem da Meia-Noite e o Calunga na construção de uma espiritualidade própria do Carnaval pernambucano?
O Homem da Meia-Noite é um ícone do carnaval, com várias histórias, várias versões. Em um dado momento, alguém diz que ele era uma pessoa que andava pelas ladeiras de Olinda, muito bem vestido, com seu fracso, a bengala. A sua cartola, que era só um personagem, um ser humano comum, e que depois se tornou esse personagem do carnaval. E outros momentos que eles teriam... Na verdade, é um calunga, uma entidade oriunda também dos ritos do candomblé, com relação a Konyemanjá e etc. Então, para o carnaval, a festa em si, não tem o que discutir, é unanimidade, é um dos maiores blocos de carnaval do Recife, se não do Brasil. Não à toa, sai de meia-noite, em um sábado depois, após o Gado da Madrugada, que é outro fenômeno de popularidade e de população participando, de contingente humana participando de um evento, de uma festa, até no Guinness Book, o Gado da Madrugada está, e ele consegue sobreviver, e ele consegue atrair essas multidões. Este é o lado do carnaval. Tem o lado místico. Algumas pessoas atribuem que, sendo ele um calunga, uma entidade, por isso que essas pessoas estão lá. As pessoas que culturam, as pessoas que gostam, as pessoas que professam essa fé. Mas é importantíssimo esse lado, tanto místico, religioso e cultural, como a questão da festa em si, a festa do carnaval, que andam juntos. Paralelamente, é um conjunto transformam e que traz para as pessoas que frequentam, que participam desse rito-festa, muito benefício e muito prazer.
4. Como você enxerga o impacto do preconceito religioso na forma como o público interpreta elementos espirituais presentes nas agremiações? Há mudanças perceptíveis nos últimos anos?
O preconceito é oriundo da desinformação. Isso sempre vai existir. Até o momento em que você não consegue enxergar o outro, quando você começa a pensar que suas verdades são absolutas, o preconceito sempre vai existir, né? Dentro dessas agremiações, existem as pessoas que estão mudando, que estão hoje participando dos eventos, porque o que eu enxergo quanto forma do de opinião, de historiador, de teólogo. É simples. É a questão de você se pôr no lugar do outro, ter empatia, de entender que aquilo que pra você não parece ser muito bom para o outro é excelente e que você precisa respeitar. Você não é obrigado a concordar com práticas, mas você é obrigado com certeza a respeitar. Então, isso está sendo quebrado. Estamos aí no século XXI, por isso que quando se vê os fake news, os retrocessos que envolvem questões sociais, políticas e religiosas, é um absurdo. Para mim, choca uma sociedade que deveria estar evoluindo e não retroagindo ao tempo do século XVII, do século XVIII. Daqui a pouco, estão querendo caçar até as bruxas. É um absurdo, um absurdo! Mas eu vejo com otimismo e penso que vai ser só um momento. Daqui a pouco, o respeito prevalecerá. Vai prevalecer nesse sentido que todos poderão, aliás, professar sua fé sem nenhum constrangimento, sem nenhuma restrição, como deveria ser.
5. Durante a pesquisa, quais tensões você encontrou entre a prática espiritual das comunidades e a forma como essas práticas são representadas no espetáculo carnavalesco?
As apresentações espirituais estão presentes desde o momento em que toca os clarins até o encerramento do desfile, das escolas de samba, das ancestralidades e de qualquer outro bloco que tenha um vínculo com o carnaval, que tenha um víngulo com a espiritualidade. Já começa com o ritmo, samba, frevo, maracatu. Uma pesquisadora do passo do frevo, Me passou, em um determinado momento, uma informação que até os ursos, que antigamente chamavam alaúça, aquela alaúça que, sei lá, quem é alaúça? Quem é dinheiro? Quem não é é pirangueiro. Até os ursos que hoje são blocos também de carnaval, têm uma relação, para surpresa, da Alimenta B. Na área, quando me passou esse relato, ela também se surpreendeu. Até os ursos. Veja o que acontece. Todo bloco carnavalesco, toda entidade de carnaval não é uma pessoa jurídica sem ninguém, sem pessoa física. Ela comporta pessoas que têm fé, crença, costumes, religião, que têm direitos, que têm deveres e que têm objetivos. Então, é isso que acontece. Mas, dentro desse contexto, eu acredito que É tudo uma questão de evolução e vai dar certo, porque eu creio nisso. Espero que para frente... Com a evolução da tecnologia, com a ciência avançando, com os conhecimentos sendo mais distribuídos, com a desigualdade sendo diminuída, essa questão vai ser praticamente rapidamente deixada de lado e as pessoas poderão seguir com suas crenças, com suas fés normalmente na sua vida.
6. De que maneira o samba — enquanto ritmo, linguagem e tradição — funciona como ponte entre espiritualidade, ancestralidade e identidade cultural?
O samba funciona como ligação direta. A partir do momento que dá o primeiro toque, o primeiro som que sai dos tambores, dos atabates, dos bombos, ele já está fazendo uma ligação direta com o mundo espiritual. O samba é um canal direto com a ancestralidade e com a espiritualidade. Que às vezes as pessoas, mesmo não fazendo parte de qualquer religião de matriz africana, se envolvem, sentem uma mudança no seu comportamento, no seu estar de momento, no seu bem-estar. Então, o samba é um canal direto, não tem nenhum que se discutir, isso comprovadamente. A gente sabe que todas as vezes que tem um ritmo... Agora, não vamos confundir. Não é pagode. Pagode é outro tipo de samba. Estou falando do samba raiz, o samba com matriz africana, onde tem os oloduns, onde tem os toques, os atabaques, onde existe a presença das nações, tipo Urubá, o pessoal de Angola, aí é outro estado. Eu vou aproveitar o ensejo e dizer pra você o seguinte. Eu compreendo, sim, que os rituais eles trazem uma coletividade sustenta, sim, a questão da situação de estar junto, de fazer essa conexão. E esses elementos espirituais, para quem acredita, para quem tem fé, eles estão participando daquele momento. Fazendo uma evolução de culto. E as pessoas estão ali e estão participando daquele momento. É como se fosse uma preservação de uma memória ancestral dos antepassados que se foram e que hoje estão ali. Isso em muitas culturas do mundo são assim. Quando se usa isso para colheitas, para a celebração de vida pós-morte, do dia dos mortos, etc. O carnaval também tem essa passagem.
7. Você acredita que o Carnaval pode ser compreendido como uma forma de ritual coletivo? Se sim, quais elementos espirituais sustentam esse ritual e como ele se transforma ao longo das décadas?
Infelizmente, em alguns momentos, a pesquisa acadêmica só tem leitores ou só tem público para quem está na academia, para quem se interessa especificamente pelo assunto. Quando não, fica realmente invisível para as pessoas. É por isso que uma das minhas intenções neste livro, neste trabalho, é fazer com que as pessoas compreendam que existe um universo diferenciado e que o preconceito que tem com determinadas religiões de matriz africana, especificamente candomblé e umbanda, às vezes não está na questão do culto, do rito, dos cânticos, das manifestações. Está, na verdade, principalmente, na minha modesta opinião, na cor da pele. Talvez, se fossem todos brancos, não tivesse tanto preconceito. Seria mais bem aceito. Os evangélicos fazem quase a mesma coisa, guardando as devidas proporções. Não estou falando de religião. Estou apenas fazendo uma analogia. O que está na internet, o que está exposto para que todos possam ver, é que determinados rituais, vou chamar assim, porque é realmente um ritual, dentro das igrejas evangélicas, parece que você está no terreiro de Umbanda, que o pessoal chama erroneamente de Macumba. Macumba é outro processo. E aí as pessoas fazem toda aquela manifestação espiritual, com manifestações de louvor, com manifestações também corporais, com possessões, e ninguém critica, ninguém diz nada. Eu acho tão interessante que as pessoas aceitam com naturalidade. Aceitam com naturalidade, mas não aceitam no terreiro.
8. Ao registrar saberes e memórias no livro, como você percebe o papel da pesquisa acadêmica na preservação das tradições espirituais que muitas vezes permanecem invisíveis ao grande público?
O desafio para que as pessoas possam entender é grande. Na noite do lançamento, eu tenho alguns amigos que me perguntaram se eu ia estar de branco, se eu estaria usando um turbante, qual era o meu santo de cabeça, se eu ia ter vela acesa, se eu ia jogar água de sal, tudo de forma bem irônica, numa brincadeira que, lá no fundo, é pejorativa e preconceituosa. E eu expliquei que não, que eu professo minha fé, de batismo católico cristão, mas... Eu acredito muito num poder maior e não em determinadas entidades que são defendidas ou divulgadas por homens que são ligados a conceitos de religião, de dogmas, de doutrinas. Mas eu acredito que, na minha visão, Deus é maior do que tudo isso. Deus é o arquiteto do universo e não tem condições de mensurar Deus na minha pequenez humana. Deus é tudo.
9. Que desafios você enfrentou ao tentar traduzir para o leitor a complexidade das relações entre fé, cultura popular e agremiações — sem reforçar estereótipos ou simplificações?
Eu espero, sinceramente, do meu leitor que ele consiga alcançar a mensagem, que ele consiga compreender que ali está um relato de três agremiações. Os Guerreiros do Passo, o Homem da Meia Noite e o Clube das Paz. Além do maior ritmo, na minha opinião, do Brasil, que é o samba. Esse conjunto, esse caldeirão, traz para o leitor conhecimentos de que, vou abrir um parêntese, fazer um adendo, o Guerreiro do Paço. Estão aí há mais de 15 anos defendendo uma sistemática de ensinamento trazido por Nascimento do Paço. E hoje Lucélia, Eduardo Araújo e outros lá que tem Mestre Limão, Miro, E tantos outros que trabalham frio há tantos anos com essa bandeira. Todos são de religiões diferentes. Um é espírita, o outro é ducal noblé, o outro é católico, o outro tem simpatia pelos evangélicos, mas vivem em comunhão, tranquilidade e paz. Porque eles compreenderam que as diferenças existem, mas que a gente precisa respeitá-las.
10. O que você espera que leitores — especialmente aqueles que não têm contato com religiões de matriz africana — compreendam sobre a presença das entidades espirituais no Carnaval após a leitura do livro?
Finalizo dizendo que, após a leitura do livro, quem tiver uma mente aberta a novas informações, a novas coisas, ao novo, ao evangelho, que é a nova memória, a nova mensagem, uma nova era, é uma boa nova, é uma notícia nova, ele vai conseguir enxergar e vai poder naturalmente sem nenhum preconceito, cumprimentar o irmão dele, cidadão, que não é da mesma religião, que não tem o mesmo pensamento, que não professa a mesma fé, mas que, acima de tudo, é humano. Não existe diferença de raça, todos somos humanos. Existem diferenças de sociedade. Eu costumo dizer nas minhas aulas de teologia ou de filosofia, onde eu ministro para os meus alunos, que Deus, Ele é geográfico. Hoje, ocidental, nascido no Brasil, com a fé voltada para o mundo cristão, a gente acredita, somos monoteístas e acreditamos em um Deus único. Mas se eu tivesse nascido lá na Índia, se eu tivesse nascido na China, se eu tivesse nascido no Japão, não teria o mesmo pensamento. Se eu fosse judeu, Eu até aceitaria que existisse um homem chamado Jesus Cristo, mas que não é o Messias, que ainda estou à espera dele, que não tem essa mesma característica. Se eu fosse muçulmano, eu diria que Jesus foi um grande profeta, mas que não foi o maior, porque o maior era Maomé. Então, a gente tem que entender que cada espaço geográfico do mundo professa sua fé de forma diferente. E o que a gente precisa, dentro desse contexto, mais uma vez trazendo essa bandeira, é respeitar e não atacar, querer prejudicar, perseguir, porque as pessoas têm o direito de pensar diferente. É isso.