O passado não entra em campo
Por Mariângela Borba
Quando terminou a partida entre Brasil e Noruega, era
natural que as conversas se concentrassem no placar.
Uns procuraram culpados.
Outros apontaram erros individuais.
Houve quem responsabilizasse o treinador.
Houve quem elegesse um jogador como símbolo da derrota.
É uma reação humana.
Quando algo nos frustra, nosso cérebro tenta encontrar uma
explicação simples para acontecimentos que, quase sempre, são muito mais
complexos.
Mas talvez a pergunta mais importante fosse outra:
O que uma derrota como essa revela sobre nós?
Durante semanas alimentamos o sonho do hexa.
No entanto, a eliminação trouxe uma lição que vai muito além
do futebol.
Nenhuma conquista passada garante o resultado de amanhã.
O Brasil construiu uma das histórias mais vitoriosas do
futebol mundial.
Mas história, por si só, não entra em campo.
Prestígio não marca gols.
Camisa pesa.
Mas não decide partidas.
Talvez seja exatamente aí que more uma das maiores
armadilhas da vida.
Quantas vezes continuamos acreditando que aquilo que
conquistamos ontem será suficiente para sustentar o amanhã?
Carreira não se faz em um único grande momento.
Constrói-se todos os dias.
Relacionamentos também.
Credibilidade também.
Excelência também.
Aristóteles já dizia:
"Somos aquilo que repetidamente fazemos. A
excelência, portanto, não é um feito, mas um hábito."
Os resultados que aparecem hoje são consequência dos hábitos
que repetimos quando ninguém está olhando.
Excelência não nasce do improviso.
Nasce da repetição.
Do treino.
Da constância.
Da disciplina silenciosa.
Há quem diga que grandes resultados exigem grandes
renúncias.
Independentemente de concordarmos integralmente com essa
ideia, a provocação permanece.
Estamos vivendo a disciplina que cobramos dos outros?
Enquanto criticamos a falta de preparo alheia...
Como está o nosso preparo?
Enquanto cobramos comprometimento...
Estamos honrando a palavra que damos?
Enquanto apontamos a falta de foco...
Quanto tempo desperdiçamos diariamente em distrações que
pouco acrescentam à nossa vida — como permanecer rolando infinitamente as redes
sociais ("scrollando"), na expectativa de que o próximo conteúdo
finalmente traga aquilo que estamos procurando?
Freud talvez dissesse que nem sempre percebemos como
racionalizamos nossos fracassos.
É mais confortável localizar a culpa fora de nós do que
reconhecer aquilo que precisa ser transformado em nosso próprio modo de viver.
Jung lembraria que a sombra nunca habita apenas o outro.
Ela também aparece quando projetamos, sobre alguém, aquilo
que ainda resistimos em reconhecer em nós mesmos.
Talvez por isso derrotas despertem julgamentos tão rápidos.
Quando o Brasil perdeu, muitos buscaram imediatamente um
culpado.
Mas vitórias e fracassos raramente pertencem a apenas uma
pessoa.
São consequência de processos.
Processos de formação.
Processos de liderança.
Processos de cultura.
Processos de escolhas.
Talvez o problema também não esteja apenas dentro das quatro
linhas.
Raymundo Faoro, em Os Donos do Poder, descreveu o estamento
burocrático como uma elite dirigente que se perpetua no comando, frequentemente
mais preocupada em conservar o próprio poder do que em promover renovação.
Guardadas as devidas proporções, essa reflexão nos convida a
olhar para além do futebol.
Quantas instituições permanecem prisioneiras das próprias
estruturas, confundindo permanência com competência?
Hannah Arendt lembrava que cada geração recebe um mundo
antigo, mas é responsável por renová-lo.
Conservar não significa repetir.
Significa manter vivo aquilo que continua fazendo sentido.
Nenhuma instituição permanece viva apenas por aquilo que
realizou no passado.
O mesmo vale para pessoas.
O mesmo vale para nós.
Nietzsche dizia que tornar-se quem se é exige uma permanente
disposição para a superação.
Talvez seja justamente isso que a derrota oferece.
Ela interrompe a ilusão.
Rompe a acomodação.
Obriga-nos a abandonar a nostalgia.
E devolve a pergunta que realmente importa:
O que faremos daqui para frente?
Minha avó, ufanista como poucas, costumava torcer contra a
Seleção.
Foi com ela que aprendi, além do patriotismo, o Hino
Nacional, o Hino à Bandeira, o Hino da Independência, o Cisne Branco...
Quando eu perguntava por quê, respondia com uma serenidade
desconcertante:
"Ganhando ou perdendo, o Brasil continua sendo
Brasil."
Na infância, eu entendia a frase.
Hoje compreendo a profundidade dela.
Psicóloga e educadora extraordinária, ela não falava apenas
de futebol.
Falava da vida.
Nenhuma vitória resolve todos os nossos problemas.
Nenhuma derrota explica quem somos.
Talvez a maior derrota não seja perder uma Copa do Mundo.
Talvez seja acreditar que conquistas antigas bastam para
sustentar o futuro.
Porque legado não vive de lembranças.
Ele precisa ser renovado.
Todos os dias.
A vida não pergunta quantas estrelas já carregamos no peito.
Ela pergunta, silenciosamente,
o que estamos construindo hoje para que o amanhã tenha, de
fato, algo a celebrar.
Jornalista (DRT-PE 4095), especialista em Cultura
Pernambucana, produtora cultural, pesquisadora da palavra como território de
poder e autora da coluna #SendoProsperidade🌻