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segunda-feira, 15 de junho de 2026

#SendoProsperidade com Mariângela Borba

Ainda Resta uma Esperança

Enquanto Ainda Há Tempo

Por Mariângela Borba

Ontem (13/06/2026), durante uma aula, soube por um amigo que o Brasil se despedia do Vovô Anésio.

Achei curioso porque fui, justamente, eu quem “apresentei” o Vovô Anésio a esse amigo alguns meses atrás. E talvez por isso a notícia tenha nos atravessado de um jeito diferente.

Por muito tempo, o Vovô do Brasil me lembrou pessoas que amo. Em alguns momentos, lembrava minha mãe. Em outros, meu pai. Talvez por isso eu sorrisse tantas vezes ao assistir seus vídeos.

O luto é assim. Não é linear. Não tem ponto final. Há sempre algo que nos faz lembrar de quem partiu: um cheiro, uma música, uma frase ou até uma conquista que desperta aquela vontade de contar para alguém que já não está fisicamente aqui. Então nos damos conta de que a saudade continua existindo, mas também entendemos que o amor permanece. De alguma forma, quem amamos segue vivo em nós.

Acredito que muita gente tenha sentido algo parecido com o que senti. A prova disso é que não soube da notícia pelas redes sociais, mas por alguém que fez questão de compartilhar comigo.

E a razão talvez seja simples.

O Vovô Anésio não era apenas um influenciador. Ele era aquele idoso das coisas simples, das conversas sem pressa – assim como o meu pai –, da sabedoria popular, da família, da cervejinha "proibida", do café coado com bastante açúcar, do quintal de casa e da risada sincera. Era uma presença. Daquelas que já não precisam provar nada para ninguém.

Talvez poucos se lembrem, mas sua história nas redes não começou pela fama. Depois de uma sequência de infartos, seu neto, Caio, resolveu pegar o celular para registrar momentos com o avô. Não para viralizar, nem para conquistar seguidores. Apenas para eternizar lembranças.

O que era para permanecer dentro de casa acabou alcançando o Brasil inteiro.

Milhões de pessoas se apaixonaram por um senhor que simplesmente era ele mesmo. Não interpretava personagens, não seguia fórmulas e não parecia preocupado em agradar algoritmos.

Paradoxal, não?

Em um tempo em que tanta gente performa, talvez ele tenha conquistado tantas pessoas justamente por sua autenticidade.

Outra coisa que sempre me chamou atenção foi a reconciliação entre ele e a Vovó Elza. Uma história que nos lembrou que nunca é tarde para recomeçar. Depois de um período de distanciamento, voltaram a caminhar juntos, a compartilhar gestos de carinho e a redescobrir a companhia um do outro.

E isso me fez pensar em tantos casais de outra geração. Homens e mulheres que passaram a vida inteira juntos, construindo famílias, enfrentando dificuldades, dividindo alegrias e preocupações, mas que nem sempre aprenderam a verbalizar seus sentimentos. Talvez o amor deles estivesse mais nos gestos do que nas palavras. Um jeito diferente de amar, difícil de compreender com os olhos de hoje, mas nem por isso menos verdadeiro.

Mas existe outra reflexão que a história do Vovô Anésio desperta.

Há um trecho bíblico que diz: "Levanta-te diante das cãs e honra a face do idoso" (Lv 19,32).

E é exatamente aí que muitas vezes temos falhado.

Falhamos quando ignoramos nossos pais, nossos avós ou aquele senhor desconhecido que cruza nosso caminho. Falhamos quando criamos tecnologias que excluem quem mais precisa de acolhimento. Falhamos quando a correria ocupa o espaço que antes era reservado para a convivência.

Já sentei ao lado de idosos que ninguém visita. Já visitei abrigos, cantei para eles e com eles; vi seus olhos brilharem. E aprendi algo que nunca esqueci: a solidão nem sempre é falta de amor. Muitas vezes é falta de um tempo que a gente decidiu não ter.

Talvez seja por isso que a partida do Vovô Anésio tenha tocado tanta gente. Porque, no fundo, ela nos lembra que o tempo não para e que as presenças que hoje parecem garantidas um dia serão apenas lembranças.

E talvez este texto seja quase uma carta aos vivos. Aos que ainda podem telefonar, visitar, sentar para um café, ouvir uma história repetida pela décima vez e, mesmo assim, agradecer por ela existir. Aos que ainda podem abraçar, agradecer, pedir perdão ou simplesmente fazer companhia.

Porque é exatamente aí que muitos têm falhado.

Não é julgamento. É constatação.

Muitos se emocionaram com o Vovô do Brasil, mas não encontram alguns minutos para conversar com o vovô ou a vovó de suas próprias casas.

Que tal deixar o celular de lado e escolher uma prosa no sofá?

Com a partida do Vovô Anésio, não vai embora apenas uma pessoa. Vão histórias que ninguém mais poderá contar do mesmo jeito. Vai um pedaço de uma geração. Vai um pedaço da nossa própria origem.

Foi assim quando perdi minha avó. Foi assim quando perdi minha mãe.

Tantas histórias que não podemos mais ouvir.

E justamente por isso, preciso escutar com mais atenção aquelas que ainda me estão sendo contadas.

Sorte a minha que ainda tenho meu pai ao meu lado. Até quando, eu não sei. Mas enquanto Deus permitir, seguiremos compartilhando nossas missões, fortalecendo um ao outro e construindo novas memórias.

Gostaria que fosse diferente? Claro.

Gostaria que o tempo não passasse e que as despedidas não existissem.

Mas os planos de Deus não são os nossos, e o nosso tempo jamais será o tempo Dele. Estamos vivendo apenas uma etapa da caminhada; o restante pertence ao mistério e à fé.

Talvez essa tenha sido a maior lição deixada pelo Vovô do Brasil: a vida não é feita dos dias que acumulamos, mas das presenças que cultivamos.

E presença, ao contrário do tempo, ainda é algo que podemos escolher oferecer.

Enquanto ainda há tempo.

 

Mariângela Borba é jornalista, produtora cultural e estrategista digital. Especialista em Cultura Pernambucana, atua na interseção entre comunicação, cultura e política. Com passagem pelo Ministério da Cultura e gestões públicas, integra a AIP e a UBE. Pesquisa a palavra como território de poder e estuda Psicanálise.