🎶 Don Betto — registrado como Alberto Lorenzo Nan Pierre — nasceu no Uruguai e encontrou no Brasil o território onde sua música floresceria. Sua formação inicial, marcada por tango, bolero, salsa, merengue e flamenco, encontrou na bossa nova um novo horizonte. “Eu já era apaixonado pela música brasileira… achava muito bonitas as harmonias e melodias”, relembra. Ao chegar ao país aos 19 anos, ele não apenas absorveu a cultura local: fundiu-a com sua bagagem latino-americana, criando uma identidade musical única.
🎼 A influência da música latina nunca deixou de pulsar em suas composições. “Tudo isso me marcou muito”, afirma. Ao mesmo tempo, nomes como Tom Jobim, Ivan Lins e Milton Nascimento moldaram seu olhar harmônico e melódico. O resultado foi uma sonoridade híbrida, sofisticada e acessível, que atravessou décadas sem perder frescor. “Fui criando um estilo que me fez atravessar décadas tocando”, diz, orgulhoso da própria trajetória.
🎤 Don Betto sempre se reinventou. A cada fase, novas camadas se somavam ao seu repertório. “Aí eu incorporei o jazz também e umas outras informações que fizeram que a minha música fosse pop, mas é aquele pop que é trabalhado”. Essa busca constante por refinamento o transformou em um dos artistas mais versáteis de sua geração, transitando entre MPB, soul, latinidade e world music com naturalidade.
🎸 Entre os capítulos mais marcantes de sua vida está a temporada como guitarrista de Raul Seixas. “Banda de rock mesmo eu nunca tinha feito… então para mim foi maravilhoso”, conta. A convivência rendeu histórias que revelam o espírito livre do Maluco Beleza. “Ele chegou e abriu a mala e jogou todo o dinheiro em cima da cama… e falou: pega um pouco aí, deixa um pouquinho pra mim. Esse era o Raul.” Uma experiência que ampliou seu repertório musical e humano.
📺 O grande público conheceu Don Betto através das trilhas de novelas. “Pensando Nela”, tema de Dona Xepa, nasceu quase por acidente. “Quando eu voltei, ele estava com o meu caderno na mão… e falou que eu não tinha mostrado aquela música”. Mesmo achando simples demais, tocou. “Ele falou: é essa, pode parar”. No dia seguinte, estava gravando. “Foi maravilhoso… já de cara tive esse presente”. A canção se tornou um marco em sua carreira.
🎵 Nos anos 1990, Don Betto mergulhou na world music durante temporadas na Alemanha e Itália. “Eu estava vendo as tendências… e me encantei”. Misturando elementos africanos, brasileiros e latinos, encontrou um novo caminho criativo. “Fui tirando um estilo meio world music que caiu muito bem também”. A experiência ampliou sua visão e reforçou sua vocação para a mistura. Do Uruguai, cita Ruben Rada e Raymer Ross. Do Brasil, Ivan Lins e João Bosco. Na guitarra, Hélio Delmiro. No cenário internacional, Wes Montgomery. “Foi o cara que mais curti e curto até hoje”. Um mosaico de referências que explica a riqueza de sua obra.
Você nasceu no Uruguai e veio para o Brasil ainda jovem. De que forma sua formação uruguaia e latino-americana moldou sua identidade musical e pessoal?
Eu nasci no Uruguai e vim para aqui muito jovem ainda com 19 para 20 anos e já vinha com uma formação da música do meu país, que eu sempre toquei desde pequeno, cantou e cantei, fiz jingles e fiz um uma série de coros para discos e outras pessoas e tal, eu já tinha uma formação musical lá, com música latina, de todo tipo, né, tango, bolero, salsa, merengue, todas essas coisas, música flamenca, espanhola e tal. E aí quando eu vim para cá, eu já era apaixonado pela música brasileira, pela bossa nova, que na época era na bossa nova. e achava muito bonita as harmonias e as melodias, e isso tudo foi mudando, com o tempo foi mudando, e eu fui incorporando a música brasileira, a música latina que eu já trazia, e isso foi moldando minha forma de fazer as coisas, minha forma de interpretar a música que eu estava compondo.
Quais elementos da música latina — ritmos, harmonias, tradições — você sente que mais influenciaram seu estilo e aparecem de forma mais marcante nas suas composições?
Com relação a qual foram os elementos da música latina, ritmos, harmonias e tradições, tudo isso me marcou muito. Como eu falei agora, a música brasileira, Tom Jobim, gosto muito de Ivan Lins, Milton Nascimento, toda essa coisa que existia na época aqui, que ainda existe, mas que na época era bem forte, o movimento era bem forte. A bossa nova já estava praticamente acabando na época, né? Anos 70, assim, ela já estava mais. Mais Internacional, digamos assim, né? Mas mesmo assim, as harmonias, melodias me marcaram muito.
Sua carreira atravessa décadas e diferentes fases da música brasileira. Como você enxerga sua própria trajetória e os momentos que considera mais transformadores?
Os momentos mais transformadores assim na minha música foi quando eu incorporei bastante essa coisa da música brasileira com a música Latina e fui criando um estilo que me fez atravessar décadas tocando e ainda continuou tocando e continuarei tocando muito ainda. Aí eu incorporei o jazz também e umas outras informações que fizeram que a minha música fosse pop, mas é aquele pop. Que é trabalhado, né?
Você foi guitarrista da banda de Raul Seixas. Como era a dinâmica musical e pessoal com ele, e o que essa experiência acrescentou à sua formação artística?
Com relação a Raul Seixas, foi um convite que eu recebi de um músico que tocava com ele na época argentino, chamado Tony Ozana, que ele mora na Alemanha hoje em dia, há muitos anos já, e ele era muito amigo do Raul e estava montando a banda e ele me convidou. Eu estava por São Paulo assim, falou, poxa, você não gostaria de fazer alguma coisa e tal e foi muito legal, né? Porque assim, banda de rock, rock mesmo com... Com esse estilo Raul Seixas, eu nunca tinha feito ainda, então para mim foi assim, uma coisa maravilhosa. Foi como o guitarrista do Elvis Presley, que convidou ele para tocar e nossa, quando o Raul me convidou foi maravilhoso!!!
Existe alguma história curiosa, inesperada ou pitoresca dessa fase com o Raul que você nunca esqueceu e que ajuda a revelar quem ele era nos bastidores?
Sim, tem uma história com o Raul que foi muito legal, que a gente estava fazendo um show e naquela época se recebia assim, você recebia em grana mesmo, não existia Pix, não existia nada. E então ele recebia aquela mala com grana, né? Então nós estávamos todos num hotel em Brasília, me lembro, e ele chegou e abriu a mala e jogou todo o dinheiro em cima da cama. E aí ele olhou para nós e falou, pega um pouco aí, pega aí, deixa um pouquinho para mim. Esse era o Raul.
Você gravou temas para várias novelas da Globo. Como era o processo de criação e gravação dessas trilhas, e o que representou para sua carreira aparecer em produções tão populares?
Olha, em relação as músicas da novela que eu tive, pensando nela, foi a música que mais se destacou na época, que foi o tema da novela Dona Xepa. E foi assim curioso, porque eu fui na casa de um produtor que estava com fazendo as trilhas para Rede Globo. Apresentei, aí eu estava apresentando meu trabalho para gravar meu disco, nossa imaginação, que depois a seguir eu comentarei. E aí eu mostrei todas as músicas, ele achou muito legal. E aí eu queria ir no banheiro. Aí eu pedi para ir no banheiro. Quando eu voltei, ele estava com o meu caderno na mão dele e falou que ele não tinha mostrado aquela música, aquilo “pensando nela”. Eu falei, puxa, mas essa música é uma música muito simples, é a mais simples que eu tenho. Ele falou, não, mas me mostra. Aí eu fiz, tchan, tchan, quando a chuva. E ele falou, é essa, pode parar. Aí ele pegou o telefone e ligou para São Livre, para o Guto Graça Mello na época e falou cara, achei a música para novela. E aí eu gravei no outro dia a música, a música entrou na novela e depois eu fiz o disco. A primeira música eu fui pensando nela, só gravei ela para a novela exclusivamente. Foi maravilhoso, né? Representou muito para mim, porque eu estava no começo de tudo, né? E de repente, já de cara assim, já tive essa, essa. Esse presente, né? Digamos assim...
Nos anos 1990 você se aproximou da world music, especialmente durante suas temporadas na Europa. O que despertou esse interesse e como essa estética ampliou sua visão musical?
É o World Music é um estilo que eu morei um tempo na Alemanha, depois morei na Itália e tal, eu estava vendo assim as tendências na época de como é que estava rolando a música para o mundo, para Europa, principalmente, né? E me encantei porque eu tenho um estilo assim que se adapta muito bem a esse tipo de coisas, né? Então eu misturando coisas africanas com coisas brasileiras, com coisas latinas e não sei o que, fui tirando um estilo meio world music que caiu muito bem também, né? Cheguei a gravar na Alemanha e tudo, né?
Quais artistas — brasileiros, uruguaios, latinos ou internacionais — você considera suas maiores influências, tanto na guitarra quanto na composição?
Bom, houveram vários artistas brasileiros, uruguaios no Uruguai, tem o Ruben Rada, tem o fator urso, tem o Raymer Ross, todos os caras que são muito pouco conhecidos aqui, né? E aqui nacionais aqui do Brasil, vários, como o Ivan Lins. Eu gosto de vários, Ivan é um cara que tem assim uma admiração muito grande por ele, pelas harmonias, as melodias. Ele me influenciou bastante na coisa, né? E João Bosco também, eu gosto pelo ritmo, pelo balanço e na guitarra, assim, eu gosto muito do Hélio Elmiro, que é um brasileiro que tem uma linguagem bem Internacional e que eu acho super legal. Internacionais é o Wes Montgomery, que foi o cara que mais curti assim, que eu curto até hoje, né?


