🎵 A história da música jovem brasileira ganhou um novo e monumental capítulo graças à dedicação minuciosa da pesquisadora e professora Selma Teixeira. Com uma sólida bagagem acadêmica e vasta experiência em preservação de memória institucional, Selma mergulhou em uma profunda pesquisa documental e iconográfica para estruturar o projeto que celebra a trajetória de uma das bandas mais emblemáticas do país. "Entendi, desde a década de 60, que um projeto futuro dedicado a resgatar a trajetória artística da banda teria que ter uma estrutura gigante que comportasse não só a diversidade musical dos integrantes", afirma a pesquisadora sobre a complexidade dos hoje 64 anos do grupo.
🌐 O resultado desse esforço hercúleo se materializou em uma estrutura robusta que combina salvaguarda jurídica, resgate fonográfico e inovação digital para as novas gerações. Um dos grandes marcos dessa iniciativa foi o lançamento do Portal Banda Os Incríveis, o primeiro site interativo integralmente dedicado a músicos brasileiros, que reúne 165 páginas de conteúdo histórico e acesso à discografia. "Tomei a precaução de registrar, em domínios nacionais e internacionais, o projeto na expectativa de garantir que os fatos registrados por mim permaneçam fiéis às informações que obtive durante a pesquisa", destaca Selma sobre o rigor técnico.
🎨 Além do ambiente digital, o projeto se destaca pela riqueza de suas ações artísticas e afetivas, que incluem a criação de identidades visuais exclusivas, tirinhas e obras de arte personalizadas. Peças como a tela homenagem pintada por Cristina Fauquemont e as caricaturas desenvolvidas pelo artista gráfico Marco Jacobsen ajudaram a reatar laços emocionais entre os músicos, herdeiros e o público. "Olhando para a tela você vê, no plano superior, os músicos já falecidos, acompanhados de seus instrumentos, enquanto os ex-integrantes ladeiam a foto da formação atual da banda", descreve a autora, emocionada com a sensibilidade da obra.
🎶 O resgate minucioso da discografia, composta por impressionantes 95 álbuns, exigiu da pesquisadora uma verdadeira engenharia auditiva para identificar instrumentos, catalogar raridades e corrigir lacunas históricas deixadas pelas gravadoras da época. Entre os achados mais preciosos da pesquisa estão discos raros gravados no exterior, fitas demos esquecidas e até mesmo um álbum raríssimo de música gospel gravado pelo vocalista Mingo em 1988. "A organização da ficha técnica de cada uma das faixas gravadas nos 95 álbuns da banda também foi um grande desafio que exigiu de mim um cuidado redobrado", pontua Selma.
📖 Todo esse universo de descobertas, bastidores inéditos, entrevistas exclusivas e análises de impacto cultural estará reunido em um livro comemorativo que promete reposicionar o grupo em seu devido lugar de destaque na MPB. A obra surge como um documento definitivo para que o público compreenda o fenômeno de audiência e a sofisticação técnica que transformaram esses músicos em ídolos nacionais. "O que eu espero é que na reprodução do material que produzi, os créditos sejam dados a quem teve essa iniciativa", conclui a pesquisadora, reforçando a importância do respeito à memória e à pesquisa histórica.
Entrevista Completa e Exclusiva para o Blog Taís Paranhos
Selma, coordenar um projeto tão amplo exige visão sistêmica. Em que momento você percebeu que seria necessário montar uma estrutura quase “institucional” para dar conta da complexidade dos hoje 64 anos da banda?
Conheci a banda Os Incríveis por intermédio do programa de televisão que os músicos apresentavam na TV Excelsior de São Paulo nos anos de 1966 e 1967, um programa pensado de forma a explorar as amplas possibilidades musicais de cada um dos músicos que integravam a banda. Dividido em quadros, o programa proporcionava aos músicos apresentarem e tocarem instrumentos raros quase desconhecidos do grande público; montarem esquetes bem humorados em cima de cenas de filmes, ou passagens de óperas; apresentarem ritmos característicos de diferentes países; tocarem músicas que fizeram sucesso na primeira metade do século acompanhadas de instrumentos próprios de cada gênero musical; além de acompanharem cantores e grupos vocais que integravam o elenco fixo do programa, entre muitas inovações cênicas. O conhecimento de toda essa diversidade musical e cênica, aliado às audições detalhadas dos discos lançados pelas gravadoras a que a banda pertencia (eu ouvia cada faixa dos discos lançados repetidas vezes com a intenção de conhecer a melodia, ou ritmo, de cada um dos instrumentos tocados pelos músicos), me permitiu, desde a década de 60, entender que um projeto futuro dedicado a resgatar a trajetória artística da banda teria que ter uma estrutura gigante que comportasse não só a diversidade musical dos integrantes da banda concretizada na vasta discografia lançada (são 95 álbuns), como também as diferentes facetas das atividades dos músicos que integravam a banda Os Incríveis. A partir dessa consciência foi possível criar o projeto 60 anos banda Os Incríveis que reúne 25 ações estando, dentre elas, o Portal Banda Os Incríveis, o primeiro portal dedicado a músicos brasileiros. Com 165 páginas interativas, o Portal Banda Os Incríveis foi lançado no dia 20 de março deste ano e pode ser conhecido acessando o link https://bandaosincriveis.com.br_
Durante o contato com músicos e herdeiros, houve alguma conversa que mudou sua percepção sobre a história dos Incríveis?
Em geral, os contatos que fiz e continuo fazendo com os familiares dos músicos já falecidos, e com os músicos que integraram, ou integram as formações mais recentes, sempre foram para esclarecimentos de dúvidas de fatos que eu apresentava para eles. Uma única vez foi apresentada a mim uma novidade: a da data correta do nascimento do Mingo, guitarrista e vocalista da banda Os Incríveis que, até então, por um erro de divulgação em algumas contracapas de discos da banda lançados pela gravadora Continental, era comemorado pelos seguidores da banda, inclusive por mim, como sendo no dia 1º de janeiro de 1943 quando, na realidade, Mingo nasceu no dia 6 de dezembro de 1942. Tirando esse fato, eu é que acabei lembrando fatos esquecidos a familiares e músicos da banda que se surpreendiam com as informações que eu estava apresentando.
O registro oficial do projeto garante proteção histórica. Mas, para você, qual é o valor simbólico desse reconhecimento formal?
Quando idealizei o projeto 60 anos banda Os Incríveis tinha por objetivo resgatar a história de uma banda que permanece, até os dias atuais, como uma referência no cenário da música jovem do país. Acredito ter conseguido alcançar esse meu objetivo, mas eu precisava de um amparo legal que inibisse a “apropriação” de conteúdos criados por mim por pessoas que costumam ter esse tipo de comportamento. Por isso contratei os serviços de um escritório especializado em direitos autorais para registrar o projeto em meu nome e defender os meus direitos. O projeto 60 anos Banda Os Incríveis foi criado por mim e reúne a pesquisa e os textos feitos por mim. O que eu espero é que na reprodução do material que produzi, os créditos sejam dados a quem teve essa iniciativa. Tenho plena consciência de que essa é uma prática rara nas redes sociais, mas é o que deveria acontecer. Projetos, textos, e pesquisas históricas foram feitos por alguém e o crédito dado a esse alguém é o mínimo que pode ser feito como um sinal de consideração e respeito pelo trabalho realizado.
Ao registrar domínios nacionais e internacionais, que tipo de estratégia digital você imaginou para preservar o legado da banda nas próximas décadas?
As informações que circulam nas redes sociais carecem, em sua grande maioria, de seriedade científica. O ambiente digital está repleto de “conhecedores” de verdades questionáveis e que, sem uma análise mais criteriosa, acabam transformando afirmações descompromissadas, em fatos realmente acontecidos. Posso citar o exemplo de um seguidor do grupo Banda Os Incríveis, do Facebook, que, com a intenção de acrescentar um fato inédito à biografia do vocalista da banda que eu havia postado, chegou a afirmar que “soube pela Internet” que a cantora Tiê era filha dele quando, na verdade, ela é filha de um dentista e de uma artista plástica que não tem nenhum parentesco, ou conhecimento, com o vocalista da banda. Conhecedora de toda essa realidade, tomei a precaução de registrar, em domínios nacionais e internacionais, o projeto 60 anos banda Os Incríveis na expectativa de garantir que os fatos registrados por mim nas diferentes ações do projeto permaneçam fiéis às informações que obtive durante a pesquisa que realizei, ao longo de muitos anos, em fontes fidedignas.
Entre tantos jornais e revistas analisados, qual documento trouxe uma revelação que você jamais imaginaria encontrar?
A pesquisa documental e iconográfica realizada por mim para o projeto 60 anos banda Os Incríveis reúne jornais, revistas, livros, blogs, sites, depoimentos exclusivos, e entrevistas com familiares e artistas ligados aos músicos da banda. Computando todo o acervo pesquisado temos um total de 56 títulos de jornais e revistas período 1960-2026; cerca de 40 livros; inúmeros blogs e sites ligados á música jovem do Brasil; 20 depoimentos exclusivos, e muitas entrevistas com familiares e artistas que conviveram com os músicos de Os Incríveis. É um material vasto e de extrema importância que me proporcionou um conhecimento preciso de fatos pertencentes à trajetória da banda. Selecionar um desses fatos é difícil, mas gosto de considerar o acesso a revistas italianas que noticiaram, em matéria de capa, o pretenso namoro entre o baterista Netinho e a cantora Rita Pavone; a polêmica documentada do registro do nome da banda entre Antonio Aguillar, o primeiro empresário da banda, e os músicos de Os Incríveis; as matérias de capas de revistas feitas com a banda; o registro das premiações; o momento “psiu” que manteve a banda separada por cinco dias; a fotonovela estrelada pela banda, entre muitos outros documentos.
A cantora Rita Pavone, com a banda em turnê na Itália (o homem
de terno preto era Teddy Reno, empresário da artista)
O selo comemorativo tem uma estética muito particular. Que elementos visuais você considerou indispensáveis para representar seis décadas de trajetória?
O selo (foto que ilustra o início da matéria) e o banner comemorativos aos 60 anos da Banda Os Incríveis são de autoria do artista gráfico Marco Jacobsen que foi contratado por mim para criar a identidade visual do projeto. Em nossas primeiras conversas sugeri a ele que incluísse instrumentos musicais na criação do selo e ele optou pelo bumbo, tido como o “coração” de um grupo musical. Para vincular o instrumento à trajetória de 60 anos da banda, o Marco resgatou um dos logos criados para uma das capas de discos lançados pela banda Os Incríveis que acabou virando a marca oficial da banda.
A “tela homenagem” é uma peça afetiva. Qual foi o sentimento predominante ao ver essa obra finalizada pela primeira vez?
O de ter escolhido a artista plástica certa para fazer a tela. Cristina Fauquemont, a artista contratada por mim para criar essa tela homenagem tinha um grande desafio pela frente que era o de retratar 12 músicos que integraram e integram a banda, e ela foi muito feliz ao escolher planos que permitem ao observador da tela entender em que “momento” os músicos estavam em 2022, ano do 60º aniversário da banda. Olhando para a tela você vê, no plano superior, os músicos já falecidos, acompanhados de seus instrumentos, enquanto os ex-integrantes ladeiam a foto da formação atual da banda. A sensibilidade e a sutileza da Cristina levaram a artista a registrar, na tela, a primeira viagem internacional da banda retratada nos prendedores da foto central pintados nas cores vermelho e verde que, com o branco da moldura da foto, remetem às cores da bandeira da Itália, para onde a banda viajou, em 1964, para acompanhar a turnê da cantora Rita Pavone por cerca de 30 cidades italianas.
Quadro significativo para a banda: na foto, a atual formação; nas fotos ao lado, ex-integrantes ainda vivos, e no Céu, os integrantes das primeiras formações. A obra é da artista plástica Cristina Fauquermont
As caricaturas trazem humor e memória. Algum integrante ou familiar se emocionou ao ver a versão caricata de si mesmo?
As caricaturas foram apresentadas aos músicos pelo próprio autor, o artista gráfico Marco Jacobsen , durante a terceira live que fiz reunindo integrantes e ex-integrantes da banda, e os dois artistas gráficos contratados por mim para o projeto. A reação dos músicos foi de surpresa e de contentamento pelo que viram. Sandro Haick chegou a comentar que iria usar a caricatura dele, o que realmente passou a fazer em suas redes sociais, e que las caricaturas dariam uma boa capa de disco. Segue o link da live para quem quiser rever/assistir o (re)encontro dos músicos e dos artistas gráficos
As “Tirinhas do Théo” são um recurso narrativo criativo. Como surgiu a ideia de usar quadrinhos para contar a história da banda?
As Tirinhas do Théo é um projeto criado em 2012 pelo artista gráfico Marco Jacobsen para registrar, em forma de tirinhas, o crescimento e os aprendizados de seu filho Théo. Quando o filho entrou na adolescência, Marco percebeu que ele pouco conhecia sobre a história de bandas que se tornaram referência no mundo do rock e resolveu criar um “braço” das Tirinhas para ensinar para o Théo a história dessas bandas. E assim surgiram as Rádio tirinhas do Théo que tem em um jovem disc-jockey o mentor musical de Théo que conta para ele fatos relevantes e significativos das trajetórias de diferentes bandas. O trabalho desenvolvido para o projeto 60 anos Banda Os Incríveis, levou Marco a escolher a banda brasileira para dar início à nova série de Tirinhas. Veiculadas inicialmente no jornal Folha de Londrina, as Rádio tirinhas do Théo chegaram com uma novidade: um QR Code que permite ao leitor acessar músicas, filmes e shows da banda Os Incríveis, enquanto lê sobre momentos importantes da trajetória artística da banda divididos em doze capítulos.
Administrar comunidades de fãs é quase um trabalho antropológico. O que mais te surpreende no comportamento e na memória afetiva desse público?
É interessante constatar o quanto os seguidores da banda Os Incríveis são fiéis aos músicos das primeiras formações da banda. O reconhecimento das qualidades musicais de cada um deles permanece nos comentários feitos a postagens de fotos, interviews , e músicas gravadas por eles. Tenho o hábito de divulgar, no dia do aniversário de cada um dos músicos que integraram e integram a banda Os Incríveis, a biografia que escrevi sobre eles a partir dos dados reunidos na pesquisa que fiz para o projeto, e o número de visualizações feitas nos dias dos aniversários dos músicos que iniciaram a história da banda é surpreendente. Para você ter uma ideia nesse ano, no dia do aniversário do Manito, o número de visualizações orgânicas da postagem da bio do músico acompanhada de uma foto foi de 43.700. É um número que impressiona e que está totalmente ligado ao reconhecimento do músico que o Manito foi, e à história que ele deixou. É bonito perceber essa permanência do público mesmo tendo passado tantos anos que as formações originais se desfizeram.
O canal Banda Os Incríveis Oficial, do YouTube, virou um arquivo audiovisual precioso. Como você equilibra nostalgia, raridade e qualidade técnica na hora de escolher o que publicar?
Como você bem definiu, o canal Banda Os Incríveis Oficial, do YouTube, é um arquivo audiovisual. Ele foi criado por mim com o objetivo de reunir, em um mesmo local, o maior número possível de informações sobre a banda e sobre os músicos que integraram e integram o grupo. Como um arquivo, o canal está sempre em crescimento e aberto para resgatar vídeos, depoimentos, e postagens sobre a banda que forem surgindo na Internet, ou que sejam produtos com exclusividade para o canal. Tenho comigo, por exemplo, depoimentos dados por artistas que trabalharam e conviveram com os músicos da banda Os Incríveis, assim como depoimentos dos músicos da banda que, após a publicação do livro que estou escrevendo, estarão disponíveis no canal.
A discografia da banda é extensa e atravessa várias gravadoras. Qual item foi o “Santo Graal” mais difícil de localizar?
Existiram diferentes níveis de dificuldades na pesquisa discográfica da banda. A primeira delas foi precisar redesenhar o selo dos seis 78 RPMS gravados pela banda no início de sua carreira tendo em vista que os discos físicos são raros e, quando encontrados, tinham os selos rasurados. Coube ao designer do Portal Banda Os Incríveis executar muito bem essa árdua tarefa. Outra dificuldade foi estabelecer o ano de lançamento dos discos iniciais. Para isso tive que recorrer a publicações em jornais e revistas da época do lançamento de cada um dos discos tendo em vista que, no início dos anos 60, os álbuns não traziam o ano de lançamento impresso no selo, ou na capa dos discos. A organização da ficha técnica de cada uma das faixas gravadas nos 95 álbuns da banda também foi um grande desafio que exigiu de mim um cuidado redobrado com a audição de cada música no sentido de identificar os diferentes instrumentos tocados pelos músicos.
O Manito, como multi-instrumentista que era, chegou a gravar mais de dois instrumentos diferentes em algumas faixas e essa informação precisava constar nos créditos da ficha técnica. Identificar também quais músicas tiveram uma única gravação e, por esse motivo, são raridades dentro da discografia da banda, exigiu atenção redobrada. Descobrir a existência de gravações que não foram comercializadas demandou tempo no sentido de localizar os acervos onde essas relíquias estavam depositadas e tentar conseguir , infelizmente sem sucesso, acesso a essas gravações. Dentre essas gravações-relíquias existe uma fita demo gravada pelo compositor de uma das músicas feitas especialmente para a banda que está em posse de um colecionador que, após dois longos anos, consegui localizar, mas que não permitiu o meu acesso à gravação. Raridades também são os discos gravados pela RCA Victor espanhola e pela RCA Victor portuguesa destinados à divulgação do trabalho da banda nos mercados de países que têm as línguas portuguesa e espanhola como idiomas.
O disco gravado pela banda nos estúdios da gravadora inglesa Decca e que os músicos, segundo depoimento dado em uma entrevista pelo baixista do grupo, o Nenê, esqueceram de trazer para o Brasil, é outra raridade que foi acrescentada à discografia da banda com um selo de imagem ilustrativa criado pelo designer do Portal Banda Os Incríveis especialmente para o projeto 60 anos Banda Os Incríveis. Outro desafio foi encontrar a gravação da música Corinthians (Nosso time para sempre o campeão), de autoria de Zé Márcio, gravada em 1977 pela banda Os Incríveis Mingo, Nenê e Risonho, que consegui encontrar, depois de anos de pesquisa, em um canal de músicas do Corinthians, no Youtube. Mas a “cereja do bolo” foi, sem dúvida, ter localizado um disco raríssimo gravado pelo Mingo com músicas gospel. Lançado em 1988, o álbum, considerado como um dos marcos da música gospel no Brasil, conta com a parceria do pastor Rod Mayer e tem 10 faixas de autoria dos dois músicos.
Ao estudar as carreiras solo, qual artist do grupo te surpreendeu pela versatilidade ou pela reinvenção musical?
Não chegou a ser surpresa, mas sim a constatação da versatilidade musical do multi-instrumentista Manito que produziu discos de artistas como o segundo álbum da cantora Vanusa, visto como um dos principais discos da artista pelos arranjos e efeitos inovadores; formou a banda Som nosso de cada dia tida como “a primeira banda de rock genuinamente progressivo do Brasil”; e gravou, como músico convidado, com artistas como Rita Lee, Zé Ramalho, Carlinhos Borba Gato, e com bandas de diferentes estilos e gêneros como A Chave, Camisa de Vênus, Placa Luminosa, Patrulha do Espaço, Turma da Pompeia, e Ultraje a Rigor, entre outras. Outra constatação foi a da capacidade de reinvenção musical do baixista Nenê também ele multi-instrumentista e reconhecido como um dos maiores contrabaixistas do país. Respeitado por toda a classe artística, Nenê foi convidado por Elis Regina e César Camargo Mariano para integrar a banda que acompanharia a cantora na turnê do show Elis vive dirigido por César Camargo realizada, em 1979, por todo o país e pela América Latina.
Sete anos depois, Nenê Benvenuti receberia, em seu estúdio, o cantor Raul Seixas que ali gravaria o álbum Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum! que lhe renderia o seu terceiro disco de ouro conferido pela gravadora Copacabana. Das nove faixas gravadas, três músicas de gêneros completamente diferentes contaram com a participação de Nenê tocando baixo: a Abertura jazzística; o tango Cambalache, do argentino Enrique Santos Discépolo; e a balada Cantar, de Raul Seixas e Claudio Roberto. Ainda dentro do quesito carreiras solo, temos o disco solo do guitarrista Mingo voltado para a música gospel disponível com exclusividade no canal Banda Os Incríveis Oficial, do Youtube, e no Portal Banda Os Incríveis; e o projeto Deus abençoe as crianças, do baterista Netinho , que emociona por mostrar o olhar do músico em direção aos que necessitam de ajuda. Idealizado, em 2000, em parceria com Antônio Cruz Hernandez, o projeto resultou na gravação de um CD cuja venda foi totalmente destinada à Casa Ninho (CACCC- Centro de Apoio à Criança Carente com Câncer). O CD traz uma faixa bônus com música de autoria de Marinho Marcos e Eunice Barbosa gravada por 36 artistas e que pode ser assistida nos canais O incrível Netinho, e Banda Os Incríveis Oficial, do Youtube; e no Portal Banda Os Incríveis.
As coletâneas ajudam a medir o impacto cultural da banda. Qual delas você considera mais representativa para entender a permanência do grupo no imaginário popular?
O formato Long Play (LP) que comportava até 25 minutos de música da cada lado em oposição às duas faixas de curta duração reunidas nos 78RPMs, abriu caminho para as gravadoras agruparem, em um único disco, os sucessos de diferentes artistas por elas contratados. Surgiam as Coletâneas que, ao mesmo tempo em que divulgava os catálogos dos artistas de cada gravadora, aumentava o número de vendas de álbuns gravados por esses artistas dando um lucro considerável para as gravadoras. Carro chefe de vendas das duas gravadoras a que pertenceram, a Continental e a RCA Victor, a banda The Clevers/Os Incríveis esteve presente em todas as coletâneas lançadas por elas ao longo das décadas de 60 e 70. A certeza das gravadoras de que os álbuns venderiam pela simples presença da banda em uma das faixas era tão grande que, no caso da RCA Victor, a banda chegou a gravar faixas inéditas para duas coletâneas. Da mesma forma, a enorme representatividade cultural atingida pela banda levou os diretores da RCA Victor a incluírem uma das músicas já gravadas pelos músicos na coletânea internacional a ser lançada pela gravadora no fórum comercial ligado a profissionais do setor musical, o Latin American A&R Convention , de 1969.
As bandas de origem dos integrantes revelam muito sobre suas influências. Que característica musical comum você encontrou entre elas?
Uma das características musicais é a opção, nos primeiros álbuns, pela música instrumental. A banda The Clevers/Os Incríveis era conhecida, no início da carreira, pelos arranjos instrumentais que gravaram e que tornavam evidentes a qualidade técnica dos músicos que eram. Vale lembrar que o primeiro sucesso nacional da banda foi o primeiro 78 RPM gravado em agosto de 1964, e que trazia a versão instrumental do pasodoble El Relicario, de Padilha, em ritmo de twist. O repertório gravado nos primeiros álbuns é outra característica. Com forte influência de bandas como The Ventures e The Shadows, que influenciaram também as bandas de origem dos músicos, a banda The Clevers/Os Incríveis regravou muitos sucessos desses dois grupos internacionais.
Depois da formação clássica, muitos projetos paralelos surgiram. Qual banda derivada você acredita que merecia mais reconhecimento histórico?
Acredito que, dentro dos caminhos escolhidos pelos músicos de Os Incríveis depois da parada que resolveram dar em 1972, todos conseguiram sucesso e destaque em suas trajetórias. Manito, ao lado de Pedro Baldanza e Pedrinho Batera, criou o grupo de rock progressivo O som nosso de cada dia, a primeira banda de “rock genuinamente progressivo”, segundo depoimento de Pedro Baldanza em entrevista ao jornal paulista Coletivo Só, em maio de 2008. Netinho se aliou a Aroldo, Piska, Cargê e Pique Riverte e montou a banda Casa das Máquinas, considerada até os dias atuais como uma das bandas mais importantes do rock brasileiro. Mingo, Nenê e Risonho, por sua vez, adotaram o nome Os Incríveis Mingo, Nenê e Risonho e gravaram, acompanhados de músicos de estúdio e também da Orquestra e Coro RCA Victor, álbuns que reúnem sucessos como Isso é a Felicidade, de autoria de Palito Ortega, e o hit Marcas do que se foi, de Ruy Maurity e José Jorge, cantada até hoje nas festas de final de ano. Podemos perceber que o trabalho desenvolvido pelos músicos nas bandas formadas depois da parada de 1972 manteve, em termos de público, o reconhecimento que eles sempre tiveram concedendo, às novas bandas formadas por eles, um lugar de destaque dentro da história do rock nacional.
Nas participações especiais, há verdadeiras pérolas escondidas. Qual colaboração você considera essencial para entender a amplitude artística dos integrantes?
Sem dúvida as participações de Manito como produtor do segundo álbum da cantora Vanusa, e como músico convidado em álbuns de ícones do cenário musical brasileiro como Rita Lee e Zé Ramalho, e de bandas de diferentes estilos e gêneros musicais cujos integrantes consideravam “um sonho” ter o músico tocando com eles. Manito fundou também bandas que iam do rock progressivo ao jazz e que se tornaram referência em seus gêneros musicais. O convite feito por César Camargo Mariano e Elis Regina a Nenê Benvenuti, um baixista de rock, para acompanhar a turnê nacional e internacional de Elis Regina realizada em 1979, também merece destaque por ser um momento de confirmação daquilo que o cenário musical já sabia, o de ser ele um dos melhores baixistas do país. Além de músico multi-instrumentista, Nenê foi também compositor e ator chegando a participar da novela Cinderela 77 realizada pela TV Tupi, de São Paulo. O ecletismo musical de Rubinho Ribeiro que faz da voz o seu principal instrumento merece também ser mencionado.
A filmografia resgatada mostra a banda em movimento. Qual registro audiovisual te transportou imediatamente para a atmosfera da época?
O filme Os Incríveis neste mundo louco realizado em 1966. Rodado em cinco países da Europa, e no Brasil, o filme carrega, em seu enredo, as marcas da juventude dos anos 60, augame que resgata o auge do rock nacional. O lançamento aconteceu no dia 25 de junho de 1967, no cine OLido, de São Paulo, e contou com a transmissão direta da TV Excelsior do show que a banda e os artistas que integravam o cast fixo do programa apresentado por Os Incríveis semanalmente naquele canal de televisão fizeram, antes da estreia do filme. O anúncio do lançamento do filme divulgava o prêmio a que os espectadores concorreriam: um calhambeque amarelo Hupmobile, 1928, que estava em exposição no Cine Marabá. A partir do dia 26 de junho do mesmo ano, o filme foi exibido em rede nacional de cinemas, tendo ficado muitas semanas em cartaz lotando os cinemas de todo o país.
Entre tantas entrevistas de TV, qual depoimento você considera um marco para compreender a juventude musical brasileira dos anos 60 e 70?
Acredito que não seja uma entrevista, mas sim os dois especiais de TV realizados pela TV Tupi, in 1970, e pela TV Cultura, em 1972, que deixaram evidente a liderança da banda perante a juventude brasileira daquele momento. Em uma época em que era muito raro emissoras de televisão dedicarem programas inteiros a um só artista, a banda Os Incríveis, pelo sucesso alcançado e pelos prêmios conquistados, ganhou dois especiais em duas emissoras diferentes comprovando a liderança que a banda exercia perante a juventude brasileira dos anos 60 e 70.
Nos bastidores, os integrantes atuaram como produtores influentes. Que contribuição deles você acredita que ainda é subestimada pelo grande público?
Penso que as carreiras solo dos músicos que integraram e integram a banda Os Incríveis ainda não foram suficientemente valorizadas. Os músicos de todas as formações da banda Os Incríveis atuaram e atuam, como músicos convidados, com artistas de renome, e essas atuações são pouco conhecidas. Talvez pela ausência dos devidos créditos nas gravações e roteiros de shows, ou talvez pela falta de divulgação do elenco artístico que integra cada evento promovido pelos artistas.
Comparando os shows de 50 e 60 anos, o que mudou mais: a banda, o público ou o contexto histórico?
Os shows comemorativos aos 50 e 60 anos da banda foram promovidos pelo baterista Netinho que poderia responder melhor a essa questão, mas, como espectadora, acredito que a banda tenha passado por mudanças em suas formações que acabaram influenciando nos arranjos das músicas e na própria performance dos músicos nos palcos.
As lives do projeto criaram momentos espontâneos. Qual foi o episódio mais inesperado ou emocionante que aconteceu ao vivo?
Para mim, o momento mais marcante das três lives que realizei com integrantes e ex-integrantes da banda Os Incríveis dentro do projeto 60 anos da banda Os Incríveis foi o encontro entre integrantes, ex-integrantes e os artistas gráficos contratados pelo projeto. Foi importante receber a resposta afirmativa dos músicos e dos artistas plásticos ao convite que fiz para eles participarem da live. Consegui, nesse momento, reunir sete dos oito músicos da banda que ainda estão atuando, que relembraram momentos vividos por eles e ouviram, dos artistas plásticos, as explicações de como as homenagens gráficas feitas por eles foram idealizadas. Foi uma oportunidade única e rara que me deixou muito feliz.
Entre os depoimentos de produtores e empresários, qual relato trouxe uma perspectiva inédita sobre a convivência com a banda?
Com certeza o depoimento do radialista e produtor musical Antonio Aguillar. Primeiro empresário da banda, Aguillar do alto de seus 93 anos prestou um longo depoimento em que relembrou fatos marcantes da carreira dos músicos que ele lançou no distante ano de 1962 quando, procurado pelo guitarrista Mingo e pelo baixista Neno, aceitou o desafio de, sob sua orientação, montar uma nova banda. Em seu depoimento, Aguillar relembra como os demais integrantes da banda foram sendo sugeridos: “Manito, já multi-instrumentista, eu conheci tocando na noite paulistana. Na Rádio Nacional, onde eu apresentava o programa Ritmos para a juventude, sempre aparecia um rapaz tímido que sorria muito e tocava guitarra, o Risonho, que passou a integrar o grupo. Faltava o baterista. Neno lembrou que seu irmão, Irupê, conhecia de Itariri, um jovem que tocava bateria e que poderia ser convidado para compor o grupo. Como a bateria havia sido dada pelo avô, o nome artístico já estava pronto: Netinho”. Com a banda formada pelos músicos Manito, Mingo, Neno, Netinho e Risonho, Aguillar passou a pesquisar um nome para o novo grupo musical encontrando, em um dicionário inglês-português, o nome Clevers, “astuto, esperto, inteligente, hábil”. Ali nascia a banda The Clevers, origem da banda Os Incríveis. O grupo permaneceu com Antonio Aguillar de 1962 a 1964 e a história da convivência do radialista e apresentador de televisão, conhecido como o “timoneiro da juventude feliz e sadia”, e os meninos “astutos, inteligentes e hábeis” é contada por ele nesse depoimento exclusivo para o projeto 60 anos Banda Os Incríveis. Hoje, após a morte de Aguillar, esse depoimento se transformou em um documento raro dentro da história da banda. Deixo o link de acesso ao depoimento exclusivo do Aguillar para o projeto 60 anos Banda Os Incríveis para quem quiser assistir:
O Portal Banda Os Incríveis é um acervo monumental. Qual seção você considera mais desafiadora de manter atualizada — e por quê?
Manter atualizado o item Discografia com todos os seus desdobramentos é um gigantesco desafio. Não só pela minha permanente tentativa de resgatar as gravações que ainda estão retidas em acervos particulares, como também pela atenção exigida para a diferenciação entre os álbuns que realmente foram lançados pelas gravadoras que tiveram a banda em seu cast artístico, e os que são produtos de criações aleatórias de fãs da banda. O importante é estar atenta ao que vai surgindo, e saber reconhecer o que é verdadeiro do que foi criado por fãs, ou por IAs.
Sobre o livro que está chegando: qual é a principal verdade histórica que você acredita que finalmente será compreendida pelo público após a leitura?
O da importância incontestável da banda no cenário artístico nacional. A banda Os Incríveis se tornou um marco indiscutível da música de qualidade realizada no Brasil. Nos anos 60 e 70, as rádios e emissoras de televisão disputavam espaços com a agenda lotada da banda para levar os músicos para entrevistas e apresentações. Nas paradas de sucessos, as músicas gravadas pela banda ocupavam por meses os primeiros lugares. As gravadoras tinham, na banda, o seu carro chefe de vendas. Revistas e jornais concorriam para ver quem conseguia publicar mais matérias exclusivas e de capa com a banda. Clubes, sociedades culturais, e auditórios tinham as bilheterias esgotadas rapidamente com shows e bailes programados com Os Incríveis. Todas essas atividades e as influências que os músicos deixaram para muitas gerações de artistas estão fartamente documentadas no livro que conta a história de uma das mais emblemáticas bandas do cenário musical brasileiro.
Aqui uma participação deles no programa Ensaio, da TV Tupi (1970), onde o baterista Netinho está no vocal enquanto Manito assume a bateria

