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sábado, 7 de novembro de 2026

#SendoProsperidade com Mariângela Borba

#SendoProsperidade — Quando existir parece depender do olhar do outro
Por Mariângela Borba

No marketing político, uma máxima orienta estratégias de comunicação: quem não é visto não é lembrado. A visibilidade funciona como instrumento de reconhecimento e permanência na memória coletiva. Mas o que acontece quando essa lógica ultrapassa a comunicação e passa a interferir na maneira como construímos nossa identidade?

Em uma entrevista, a filósofa Marilena Chauí chamou a atenção para uma nova subjetividade, marcada pelo narcisismo e pela dependência do olhar alheio. Sua reflexão provoca uma pergunta: estamos diante de uma mudança tecnológica ou de uma mutação civilizacional?

Nas redes sociais, parece que não basta viver: é preciso mostrar que se vive. Viagens, conquistas, encontros e momentos de intimidade ganham outra dimensão quando convertidos em publicações, curtidas e comentários. O reconhecimento, tão necessário às relações humanas, pode se tornar uma dependência quando a aprovação externa passa a determinar o valor que atribuímos a nós mesmos.

Freud observou nossa dificuldade de renunciar a uma satisfação experimentada. Lacan aprofundou essa discussão ao desenvolver o conceito de gozo, uma satisfação inconsciente que pode persistir mesmo quando produz sofrimento. Talvez isso ajude a compreender por que continuamos buscando aprovação, mesmo quando percebemos o quanto dependemos dela.

Essa aceleração também alcança as relações afetivas. Multiplicamos as possibilidades de encontro, mas será que ainda sabemos cultivar o prazer de conhecer alguém? O flerte, a troca de ideias, a descoberta de afinidades e a conquista exigem tempo e disponibilidade. Nem todo encontro precisa ser vapt-vupt. Afinal, a vida como ela é, para lembrar Nelson Rodrigues, também tem seus encontros e desencontros.

No mundo do trabalho, a mesma cultura de desempenho cobra produtividade, disponibilidade e superação constantes. Em Sociedade do Cansaço, Byung-Chul Han analisa como o indivíduo contemporâneo incorpora a exigência de produzir cada vez mais, tornando-se, muitas vezes, seu próprio cobrador. Nesse contexto, merece atenção a síndrome de Burnout, relacionada ao estresse crônico no trabalho que não foi administrado com sucesso.

Redes sociais, relações afetivas e ambientes profissionais são experiências distintas, mas podem compartilhar uma mesma pressão: a necessidade de demonstrar continuamente que somos interessantes, desejáveis e relevantes.

Talvez uma das contradições do nosso tempo esteja justamente aí: ampliamos os canais de conexão, mas isso não significa, necessariamente, que estejamos construindo vínculos mais profundos.

Prosperidade também é poder trabalhar sem adoecer, relacionar-se sem representar e reconhecer a própria existência mesmo quando ninguém está olhando.
Afinal, quem somos quando não estamos sendo vistos?

🌻 Mariângela Borba é jornalista (DRT-PE 4095), especialista em Cultura Pernambucana, produtora cultural, em formação em Psicanálise, pesquisadora da palavra como território político e relacional e autora da coluna #SendoProsperidade.