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quarta-feira, 28 de outubro de 2026

🎬 Sons do Cariri: O Legado e a Emoção da Banda Os Extras em Documentário Histórico

 



🎙️ A jovem pesquisadora e realizadora audiovisual Cibele Moraes (foto abaixo) transformou memórias afetivas de família em um valioso resgate cultural ao produzir o documentário sobre a banda Os Extras, expoente da Jovem Guarda no Cariri cearense. O projeto nasceu das lembranças contadas por seu avô, baterista do grupo, ecoando histórias de juventude, sonhos e resistência artística em uma época de poucos recursos.

🎸 Durante o processo de pesquisa e gravação, um dos maiores desafios enfrentados foi a escassez de registros fotográficos, limitados devido à falta de condições financeiras da época para custear imagens. Paradoxalmente, essa ausência de material visual acabou enriquecendo o documentário, pois transferiu o peso da narrativa para as memórias afetivas e os ricos depoimentos dos integrantes.

🎺 Os Extras marcaram profundamente a cena musical do Crato ao introduzirem novas sonoridades e dinamizarem as opções de lazer para a juventude dos anos 1960. O grupo destacou-se pela força de vontade de seus integrantes, jovens humildes que aprenderam a tocar instrumentos sozinhos de ouvido, muitas vezes improvisando com equipamentos emprestados para materializar o sonho de fazer música.

📸 O ápice emocional da produção ocorreu durante as gravações, especialmente no contato direto com seu avô, cujo depoimento resgatou sentimentos guardados por décadas e transportou a diretora no tempo. Para Cibele, dar visibilidade a essas narrativas regionais reforça a importância vital de preservar a memória e a rica diversidade cultural do interior do Ceará.






📸 Fotos: Arquivo Pessoal / Cibele Moraes

🏆 Fica o convite para conhecer a trajetória desse e de outros marcos fundamentais da cultura caririense, perpetuados por meio do olhar sensível do audiovisual e de iniciativas de preservação histórica. 

1. Como surgiu a ideia de transformar a história da banda Os Extras em tema do seu trabalho de conclusão de curso?
Eu passei a vida inteira ouvindo as histórias do meu avô. Ele sempre tocou bateria e contava sobre a adolescência, sobre como aprendeu a tocar e sobre a convivência com os meninos. Ele falava dos Extras, tinha sempre aquela icônica foto dos quatro juntos, e tudo isso despertava a minha curiosidade. Na faculdade, quando passei a ter mais proximidade com o audiovisual, e depois de já ter produzido outro documentário, pensei: por que não contar essa história? Logo quis contar a história do meu avô e dos outros amigos que fizeram parte daquela banda. Os Extras nasce, então, de uma memória de infância e adolescência, tanto a minha quanto a deles.

2. O que mais chamou sua atenção quando começou a pesquisar a trajetória dos Os Extras no contexto da Jovem Guarda no Cariri?
O que mais me chamou atenção foi a forma como eles aprenderam tudo sozinhos. Eram jovens humildes, de vida simples, mas que tinham o sonho de formar uma banda. E, a partir disso, fizeram de tudo para realizar esse sonho. Eles se empenharam, aprenderam a tocar os instrumentos sozinhos, muitas vezes apenas ouvindo as músicas e tentando reproduzi-las. Não tinham muitas condições, mas encontraram formas de fazer acontecer com aquilo que tinham. E acho que essa é uma das coisas mais bonitas da história dos Extras: eles tinham pouco, mas aquele pouco foi suficiente para que deixassem uma marca na história musical do Crato e do Cariri.

3. Quais foram as maiores dificuldades para resgatar informações e memórias sobre uma banda que fez sucesso há várias décadas?
Uma das maiores dificuldades foi justamente a falta de fotografias para compor o documentário. Naquela época, eles não tinham muitas condições financeiras para tirar fotos, porque era algo caro. Conseguiram fazer isso apenas uma vez e, nessa ocasião, registraram os quatro em quatro posições diferentes. Eu consegui algumas dessas fotografias, mas outras já não tinham qualidade suficiente para serem utilizadas no filme. Então, trabalhei com as imagens que consegui recuperar. Por outro lado, acho que essa falta de recursos imagéticos acabou sendo, de certa forma, positiva para a pesquisa. Como havia poucas fotografias, os depoimentos ganharam ainda mais importância. Eles precisaram reconstruir aquela época pela memória, descrevendo detalhes, lugares, situações e experiências que talvez não estivessem registrados em nenhuma imagem. E isso tornou essas lembranças ainda mais ricas.

4. Houve algum depoimento de integrante, familiar ou fã que a emocionou especialmente durante a produção do documentário?
Todos eles, mas especialmente o depoimento do meu avô. Lembro que, quando estávamos testando o microfone e eu estava ali, na frente dele, pronta para começar a entrevista, nós dois já estávamos emocionados. Ele passou muito tempo com essa história guardada, e poder colocar tudo isso para fora, comigo guiando essa jornada, foi muito especial. Todos eles mereceram aquele momento e, de alguma forma, todos me emocionaram. Enquanto eles contavam suas histórias, era como se eu pudesse vê-los adolescentes novamente.

5. Na sua avaliação, qual foi a principal contribuição dos Os Extras para a cultura musical do Crato e da região do Cariri?
Acho que os Extras trouxeram um novo estilo de música para a juventude do Crato. Havia, de certa forma, um freio nas possibilidades de diversão e de contato com novas sonoridades entre os jovens cratenses dos anos 1960. Os Extras chegaram com uma proposta diferente, trazendo novas músicas, novos estilos e uma forma diferente de viver a música. Eles ajudaram a movimentar essa juventude, que passou a sair mais, conhecer novos sons e se divertir de outras maneiras. A partir daí, outros estilos também começaram a ganhar espaço, e acredito que os Extras fizeram parte desse movimento de transformação da cena musical do Crato e do Cariri.

6. Você acredita que a história da música do interior do Ceará ainda é pouco documentada e reconhecida?
Em partes, sim. Aqui no Cariri, além dos Extras, tivemos outras bandas e artistas fundamentais para a construção desse cenário musical. Por meio da minha página, Notas de Arquivo, tenho buscado levar um pouco dessas histórias tanto para quem ainda não as conhecia quanto para as novas gerações. Acredito que esse é um processo que acontece aos poucos: à medida que essas memórias são pesquisadas, registradas e compartilhadas, elas passam a alcançar novos públicos e a ocupar novamente o espaço que merecem.

7. Durante a pesquisa, descobriu algum fato curioso ou pouco conhecido sobre a banda que surpreenderia o público?
Um dos fatos que mais me intrigam, e que já mencionei outras vezes, é que eles aprenderam praticamente sozinhos a tocar seus instrumentos. Ouviam as músicas e tentavam reproduzir aquilo que escutavam, aprendendo de ouvido, na prática. Muitas vezes, sequer tinham instrumentos próprios: tocavam com instrumentos emprestados e precisavam aproveitar aquele curto período para aprender antes de devolvê-los. Isso ainda me impressiona muito. Como quatro garotos do interior do Ceará, sem muitos recursos e sem acesso à formação musical formal, conseguiram aprender sozinhos a tocar instrumentos tão complexos? Talvez a resposta mais simples seja também a mais verdadeira: pelo amor à música.

8. Como você vê a influência da Jovem Guarda na formação musical de artistas e bandas do Cariri?
A Jovem Guarda influenciou profundamente uma geração de jovens músicos do Cariri. Ao mesmo tempo, havia outros movimentos musicais e culturais em efervescência, como a Tropicália, que também encontraram eco na região. Eram referências differentes que conviviam e ajudavam a formar um cenário musical muito rico. Diversos artistas e bandas surgiram nesse contexto e se tornaram parte importante da história cultural do Cariri. Os Extras são um exemplo disso: mesmo décadas depois do fim da banda, sua trajetória continua despertando lembranças, encontros e novas histórias.

9. O documentário mudou sua percepção sobre a importância da preservação da memória cultural e musical da região?
Não. Na verdade, o documentário me ajudou a traduzir em imagens uma percepção que eu já carregava: histórias importantes merecem ser contadas. Para mim, o audiovisual foi a melhor maneira de contar a história dos Extras, porque me permitiu reunir as vozes, as lembranças, as músicas e os registros que ainda existiam. Enquanto eu tiver oportunidade, quero continuar resgatando histórias e encontrando maneiras de fazê-las chegar a novos públicos.

10. Depois desse trabalho, existem outros personagens, bandas ou movimentos culturais do Cariri que você gostaria de pesquisar e transformar em documentário?
Existem vários. O Cariri é extremamente diverso e berço de uma riqueza cultural imensa, com muitas histórias que ainda merecem ser pesquisadas e registradas. Além de Os Extras, já realizei O Reino da Glória, documentário sobre o lendário cabaré de Glorinha, considerado o maior do interior do Nordeste. Também produzi uma reportagem sobre o Gaibu, que foi a maior casa de shows do interior do Ceará. Quero continuar pesquisando outros espaços, personagens e acontecimentos que fazem parte da memória do Cariri e, sempre que possível, encontrar novas formas de traduzir essas histórias para o audiovisual. Acho que ainda há muita coisa por descobrir, preservar e contar.

Que tal assistir o vídeo a seguir? É o documentário!!!