ÚLTIMAS NOTÍCIAS
Carregando manchetes...

Faça sua pesquisa aqui no Blog

terça-feira, 27 de outubro de 2026

#SendoProsperidade com Mariângela

 


A tolerância não exige concordância

A democracia depende da capacidade de conviver com diferenças sem transformar divergências em inimizades

Por Mariângela Borba 

Nem toda pergunta nasce da vontade de saber. Algumas são feitas para testar lealdades, confirmar suspeitas ou descobrir de que lado alguém está. Quando a resposta importa menos do que a posição de quem responde, o diálogo já começa comprometido.

A democracia é construída também nas relações cotidianas, na capacidade de conviver com escolhas alheias e reconhecer que a liberdade não é um privilégio reservado a quem concorda conosco.

Em suas reflexões sobre tolerância e democracia, Norberto Bobbio ajuda a compreender que respeitar a diferença não significa concordar com todas as opiniões. Significa reconhecer que a convivência exige limites à imposição das próprias convicções e disposição para enfrentar divergências sem transformar o outro em inimigo.

Tolerar não é ser indiferente, tampouco renunciar aos próprios princípios. É discordar sem humilhar, questionar sem desqualificar e defender ideias sem reivindicar o monopólio da verdade.

Jürgen Habermas, ao refletir sobre a ação comunicativa, destaca a importância do diálogo na construção da vida democrática. Comunicar não deveria ser apenas uma tentativa de convencer ou derrotar o outro, mas também uma disposição para apresentar argumentos, ouvir objeções e rever posições.

Essa tarefa se torna mais difícil quando os fatos cedem espaço a versões da realidade moldadas pelas convicções de cada grupo. Opiniões são legítimas, mas não tornam todos os argumentos igualmente verdadeiros. Podemos divergir sobre a interpretação de um acontecimento sem dispensar a verificação do que efetivamente ocorreu.

Por que, então, discordar se tornou tão difícil?

Em Psicologia das massas e análise do eu, Sigmund Freud investigou os vínculos de identificação que unem os indivíduos a determinados grupos. Suas reflexões ajudam a pensar como o pertencimento pode influenciar nossas convicções e alimentar a hostilidade contra quem está do lado de fora.

Quando a identidade coletiva depende da rejeição do diferente, questionar uma ideia pode ser percebido como uma ameaça pessoal. A necessidade de defender o grupo passa a falar mais alto do que a disposição para escutar.

As consequências ultrapassam o debate político. Alcançam famílias, amizades, ambientes de trabalho e comunidades religiosas. Relações construídas ao longo dos anos podem se desgastar quando a concordância se torna uma condição para a convivência.

Uma sociedade democrática precisa de divergências. O desafio é criar condições para que sejam discutidas sem comprometer os direitos, a dignidade e a liberdade de ninguém. Podemos contestar ideias sem desumanizar seus defensores e sustentar convicções sem exigir que todos pensem como nós.

A liberdade de expressão protege a manifestação do pensamento, mas o silêncio também pode ser uma escolha legítima. Ninguém precisa transformar todas as suas convicções em declarações públicas, assim como a ausência de manifestação não autoriza os outros a presumir o que essa pessoa pensa.

Talvez a pergunta mais importante seja esta: conseguimos continuar reconhecendo a dignidade de alguém depois de descobrir que essa pessoa pensa diferente de nós?

A democracia não se revela apenas no direito de escolher, mas também na maneira como tratamos aqueles que fizeram escolhas diferentes das nossas.

Prosperar em sociedade também é aprender a conviver.


Mariângela Borba é jornalista (DRT-PE 4095), assessora de imprensa, especialista em Cultura Pernambucana, produtora cultural, psicanalista em formação, pesquisadora da palavra como território de poder e autora da coluna #SendoProsperidade.