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domingo, 20 de setembro de 2026

🎭 De quatro pessoas na plateia à comoção nacional: Renato Scarpin transforma frustração em lição de amor ao teatro

 



🎭 O ator, dramaturgo e diretor Renato Scarpin viveu recentemente uma situação que poderia abalar qualquer artista: apresentar seu espetáculo para apenas quatro pessoas na plateia. O que parecia ser mais uma noite difícil na rotina do teatro independente acabou ganhando repercussão nacional após um vídeo sincero publicado nas redes sociais. Com honestidade e sensibilidade, Renato compartilhou sua experiência e emocionou milhares de pessoas.

🎭 Longe de demonstrar revolta, o artista encarou o momento como parte da profissão. Acostumado às oscilações de público ao longo de quase três décadas de carreira, ele revelou que entrou em cena com a mesma dedicação de uma apresentação lotada. Apesar da apreensão inicial, os risos e gargalhadas dos poucos espectadores mostraram que o espetáculo havia cumprido sua missão, independentemente dos números.

🎭 O episódio trouxe uma recompensa inesperada. Entre os presentes estava um casal que visitava o teatro pela primeira vez. Ao final da apresentação, eles contaram ao ator que haviam adorado a experiência e que pretendiam transformar o teatro em um hábito. Para Renato, esse retorno teve um significado muito maior do que qualquer estatística de bilheteria, reforçando sua crença no poder transformador da arte.

🎭 Ao longo da entrevista, Scarpin também destacou os desafios enfrentados por quem vive do teatro independente no Brasil. Custos elevados com aluguel de espaços, equipe técnica, divulgação, figurinos e direitos autorais tornam cada montagem uma verdadeira aposta financeira. Segundo ele, a maioria dos artistas trabalha sem grandes incentivos e depende diretamente da presença do público para manter seus projetos vivos.

🎭 Mais do que falar sobre dificuldades, o ator refletiu sobre vocação, persistência e legado. Renato afirmou que já pensou em desistir inúmeras vezes, mas continua motivado pelas histórias de espectadores que tiveram suas vidas impactadas por seus personagens e espetáculos. Para ele, o verdadeiro reconhecimento não está na fama, mas na capacidade de tocar a alma das pessoas e contribuir para uma sociedade melhor por meio da arte.


📸 Fotos: Reprodução Instagram

Entrevista - Renato Scarpin | Taís Paranhos

1. O desabafo — Naquele momento em que você percebeu que só havia quatro pessoas na plateia, o que passou pela sua cabeça como artista e como ser humano?

Claro que adoraria ter 300 pessoas na plateia... mas a profissão tem disso. Às vezes lota, às vezes tem 4 pessoas... hehehe Na hora pensei: Só 4? Que pena... mas paciência...faz parte né? Me concentrei, rezei, como faço antes de toda a apresentação e entrei em cena como se tivesse lotado. Numa comédia, poucas pessoas na plateia tornam o espetáculo mais difícil, porque as pessoas acabam tendo vergonha de rir ou gargalhar... mas para minha surpresa, os risos e gargalhadas aconteceram mesmo assim... então, no fim das contas como artista pensei: faz parte do jogo fazer para 4 pessoas, é minha obrigação. Como ser humano a gente pensa: o que estou fazendo de errado? Mas ao final, quando o casal me disse que era a primeira vez deles no teatro, que adoraram e que iriam adquirir o hábito de frequentar teatro, fiquei muito feliz, porque ao fim e ao cabo, o resultado final foi muito melhor do que eu esperava!

2. Persistência artística — Depois de quase três décadas de carreira, o que ainda te faz levantar todos os dias e escolher o teatro, mesmo quando o retorno é tão incerto?

Sempre digo que ser ator ou artista de uma forma geral é como um sacerdócio... Só tem uma regra estável e verdadeira: a instabilidade. Hehehe Eu tive muita sorte na carreira e tive oportunidades que muitos atores não tiveram... assim como tem atores que tiveram mais oportunidades que eu. Logo, cada um constrói sua história, seu caminho... O sucesso é efêmero, o reconhecimento nem sempre vem... mas tive a chance de ouvir relatos, conhecer histórias do público que creditaram a algum trabalho meu uma mudança, uma percepção de vida, uma nova visão sobre algo ou algum alívio em função de algo viram em minhas peças ou personagens da tv. Isso é o que me alimenta. Ouvir de um casal que ia se separar que eu e a atriz que trabalha comigo que salvamos nào só o casamento deles como o bem estar dos 3 filhos. Ou ouvir de um senhora idosa que após muitos anos ela voltou a se sentir mulher após ver um espetáculo que escrevi e dirigi. São muitas historias bonitas que me motivam a continuar e insistir na profissão.

3. Vulnerabilidade pública — O vídeo viralizou justamente por sua honestidade. O que te deu coragem para expor uma dor tão íntima num país onde artistas são frequentemente julgados?

Na verdade eu jamais pensei que o vídeo viralizaria desse jeito. Eu só queria compartilhar com os amigos que me seguem o fato de ter tido apenas 4 pessoas naquele dia, mas que o que me deixou muito feliz foi fato do casal ter ido pela 1ª vez a um teatro... e terem gostado da experiência... Acho que não foi coragem... foi ingenuidade mesmo hehehehe

4. O valor do público — Como muda a energia de um espetáculo quando a plateia é pequena demais? E o que você aprendeu com essas quatro pessoas que estavam lá?

Ter um bom público é sempre bom ne’? hehehe Mas num drama a quantidade não interfere tanto no estado do ator. Numa comédia faz toda a diferença... Mas nesse espetáculo especificamente, onde faço 7 personagens, consigo abstrair se pouca gente e me concentro na própria personagem para não ficar mal caso o riso não aconteça... então entro em cena fazendo o melhor que posso, com 300 ou com 3 na plateia... Não foi a 1ª vez que tive pouco público, nem será a última... assim como já fiz para mais de 1000 pessoas e sei farei novamente... Amaria só fazer para 1000 pessoas, mas se tiver 1 farei com o mesmo amor e dedicação.

5. Teatro independente — Quais são os maiores desafios invisíveis do teatro independente no Brasil que o público não vê, mas que moldam o cotidiano de quem vive de palco?

As pessoas não fazem ideia de como é feito ou de quanto custa uma peça de teatro. Um aluguel de teatro custa em média R$ 1500,00 a R$ 4.000,00 por sessão!!! Há o custo do autor do texto, do ensaio, do técnico, do cenário, figurino e da divulgação... e quando você faz uma planilha de custos e chega numa conclusão qe o ingresso deve custar R$ 50,00 e ter pelo menos 100 pessoas para empatar no investimento, você lembra que tem a meia entrada e só vai receber R$ 25,00, logo 100 pessoas já não pagam os custos... Então no meu caso, tento baratear ao máximo. Escrevo, dirijo, ensaio por conta própria e banco os custos inevitáveis... teatro, técnico, divulgação...). Se der certo ganho dinheiro, se der errado vou à falência... mas arrisco hehehe As pessoas tem na cabeça que artistas vivem de Lei Rouanet... isso é um equívoco... POUQUISSÍMOS se beneficiam da Lei... só a casta de cima consegue captar recursos através da Lei,... a IMENSA MAIORIA faz como eu... rala e rala e rala e reza para ter público e para a peça ser um sucesso!

6. Reconhecimento — Você já esteve em novelas de grande audiência e também em peças intimistas. O que significa “reconhecimento” para você hoje?

As pessoas perceberem que sempre houve honestidade no trabalho, que meu trabalho pôde proporcionar emoções que modificaram de alguma forma suas vidas e que isso aconteceu de forma positiva. Claro, dar autógrafo, fazer foto com o público é legal... sempre fui muito carinhoso com o público e sei que o tal “grande reconhecimento” passa pelo crivo daquela pequena bolha que elege quem vai ser o famoso da vez... Eu nunca fui muito de buscar a fama, muito menos a qualquer custo. A fama tem seus altos e baixos e facilita bastante a vida do ator, claro, mas ouvir – depois que te vi fazendo o velhinho, percebi que preciso ir mais na casa dos meus pais – ou ouvir – depois que te vi fazendo a criança percebi que preciso dar mais atenção aos meus filhos – isso sim faz diferença porque esse tipo de reconhecimento me faz pensar que atingi a alma de outra pessoa de uma forma bacana, pró-ativa e isso deixa mais feliz... Mas ser “famoso” é legal, mas sem conteúdo, sem propósito, não quer dizer nada...

7. Criação artística — Como a experiência de se apresentar para plateias pequenas influencia a forma como você escreve, dirige ou escolhe seus projetos?

Nunca pensei nisso pra falar a verdade. Sempre que sento para escrever um texto ou ensaiar uma peça ou me preparar para algum personagem para a tv, pensei em fazer o melhor possível em 1º lugar e principalmente, onde esse personagem ou esse texto vai atingir as pessoas. Tenho textos ainda não montados que falam de diversos assuntos (a vida de um uber e seus passageiros/a história do mundo desde a criação até hoje onde só existem brasileiros no planeta/um homem que dorme com 40 anos e acorda com 83/o que o diabo falaria pro mundo se pudesse... e por aí vai. Já recusei inúmeros trabalhos por não acreditar na força do texto ou não compartilhar do objetivo final daquele projeto. Sempre busquei temas em que pudesse dizer algo relevante ou mesmo que seja, apenas divertir... Mas sempre algo que possa despertar uma vontade de ser uma pessoa melhor... é como aquela frase: você quer deixar um mundo melhor para seus filhos ou filhos melhores para o mundo? Ninguém muda o mundo para melhor... você muda a si mesmo para melhor e isso sim, torna o mundo melhor!

8. Relação com o fracasso — Em algum momento da sua trajetória você pensou em desistir? O que te fez continuar?

Inúmeras vezes heheheehe o ator que nunca pensou em desistir é porque não viveu a carreira de ator... hehehe mas o que me faz continuar? Acho que é a vocação. Talento e vocação são necessárias. Mas um ator com talento e sem vocação não aguenta a carreira. Um ator com pouco talento mas com vocação, melhora com o tempo e segue em frente. Acho que ao desistir da carreira de engenheiro civil e seguir a carreira artística, me descobri como pessoa, qual era a minha função no mundo... pode nao ser muita coisa para algumas pessoas, posso não ser o mais famoso do mundo... mas se contribuo de alguma forma, nem que seja para 4 pessoas na plateia, já vale para mim. Se for para 1000 pessoas tanto melhor... O resto vem como tem que vir... tenho fé... acredito que Deus dá aquilo que vc busca e se vc busca o bem, a harmonia, a evolução, Ele te dá a força e resiliência necessária. Meu pai foi o cara mais resiliente que conheci, por isso sigo e seguirei o seu exemplo até meus últimos dias.

9. Impacto da viralização — Como você recebeu o carinho e a mobilização do público depois do vídeo? Isso mudou sua visão sobre o papel das redes sociais na cultura?

Com muita, mas muita surpresa. Jamais esperava essa repercussão toda! Nem em sonho hehehehe Vi o quanto as pessoas querem o bem... quanta gente boa tem nesse mundo... a gente vive tempos de ódio e guerra, é a impressão que temos dos dias de hoje, mas esse caso me mostrou o contrário. As pessoas querem fazer o bem, ajudar, colaborar, torcer... fiquei super, mas super comovido com tanto carinho e acolhimento. Isso me deu muita força e um sentimento de gratidão gigante. Só posso agradecer e honrar todas as pessoas que escreveram, compraram ingresso, compartilharam... todas as matérias que ajudaram a divulgar o espetáculo... Hoje, depois de ter tido 3 sessòes com um ótimo público, a peça é a melhor avaliada num site de vendas de ingressos... ou seja, eu só precisava que as pessoas soubesses que a peça existe e que tivessem a experiência de assisti-la. Me honraram com a presença e depois com os comentários super positivos que fizeram... Agradeço a todos, um por um por isso! Sobre as redes sociais, confesso que sempre fui meio avesso à elas... nunca usei ou dei muita importância em “aparecer” nelas. Aprendi que preciso me render à elas e que da mesma forma que elas podem te destruir, elas podem te alavancar. No vídeo em questão, tem centenas de comentários... praticamente todos sendo gentis e muito carinhosos... mas tem 2 que o próprio Instagram ocultou e que só vi depois. Um me chamando de Bolsolixo safado e outro me chamando de Petista safado, mas ambos dizendo que 4 pessoas ainda era muita gente... tive que rir... fazer o quê? Eu não me meto com posição partidária. Só quero liberdade de escolha e boas condições de vida para todo mundo... Os políticos são como jogadores de futebol. Prometem o Paraíso, falam do cássico o tempo todo, aí no campo brigam, se xingam, inflamam a torcida e depois do jogo vào tomar um whisky e comer um churrasco juntos e dar risada às escondidas enquanto a torcida se mata pelas ruas... já passei da fase de ter paixão política.. e as redes sociais estão perigosas por isso, elas definem se você será exaltado ou crucificado... sem chance de apelação... isso acho perigoso de mais.

10. Legado — Quando você pensa no futuro, qual legado gostaria de deixar para o teatro brasileiro e para os artistas que estão começando agora?

Criou-se no Brasil a lenda de que teatro é para gente rica. Mentira. Fiz apresentações em CEU’s da periferia e foi sensacional. Já tive gente milionária e paupérrima na plateia e ambos tiveram a mesma experiência e gostaram. Ainda tenho esperança que os jovens REdescubram o teatro, que criem o hábito de conhecer novos textos, que tenham liberdade de criticar ou elogiar qualquer tema, que possam se aprofundar em discussões sem cair na armadilha do slogam pronto como argumento. O teatro é diferenciado porque é vivo, é feito ao vivo e isso é completamente diferente de qualquer outra forma de arte. O Paulo Goulart me disse isso uma vez:

- quantos acidentes de carro você já viu em filmes?
- Inúmeros, respondi.

- Lembra de todos com detalhes?
- Não mesmo, respondi.

- Você já viu um acidente ao vivo?
-Sim?

-Lembra dos detalhes?
-Lembro.

- Porque viu ao vivo. Tudo que você experencia ao vivo, faz parte da sua memória e constrói o seu eu... Por isso o teatro jamais vai morrer.

E acho que ele estava certo!


O vídeo-desabafodo ator.