🎶 Nascido Hyldon de Souza Silva em Salvador, Bahia, no dia 17 de abril de 1951, o cantor, compositor, guitarrista, baixista e produtor construiu uma das trajetórias mais marcantes da música brasileira. Ao lado de nomes lendários como Tim Maia e Cassiano, consolidou-se como um dos grandes pilares da soul music nacional, colecionando discos clássicos como Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda, O Vendedor de Sonhos e o recente projeto analógico Festa na Aldeia.
🎤 Atualmente, o artista celebra um dos momentos mais especiais de sua carreira com a indicação ao Grammy Latino na categoria de Melhor Canção em Língua Portuguesa. A faixa responsável por essa conquista internacional é "Águas de Um Mar Azul", composta em parceria com Fábio Stella e resgatada após cinco décadas de silêncio para ganhar uma nova e elogiada interpretação na voz da cantora Urias.
🎸 Acompanhando a evolução da música brasileira ao longo de décadas, Hyldon reflete sobre o papel essencial do hip-hop como o grande herdeiro da soul music. Nascido das raízes africanas e dos tambores que fascinam o público, o género cresceu exponencialmente desde os anos 90. Inicialmente, os criadores do rap recorriam aos discos clássicos para extrair samples com facilidade. Com o tempo e a melhoria dos equipamentos, conquistaram autonomia e elevaram o patamar das letras nacionais.
🎹 Cinquenta anos após o lançamento do emblemático "Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda", o artista mantém a mesma essência e verdade artística de 1975. O confronto inicial com as gravadoras multinacionais, focadas estritamente no lucro comercial, moldou a sua independência. Se em jovem nutria a utopia de transformar o planeta através das suas canções, hoje compreende que tocar profundamente o coração de uma única pessoa já justifica todo o percurso.
🎺 A simplicidade e a espontaneidade continuam a ser os pilares fundamentais para a criação de obras atemporais que resistem à passagem do tempo. Em contraste com a massificação algorítmica e a compra de likes na internet, a verdadeira música sobrevive através de histórias genuínas com as quais o público se identifica. Para o compositor, o segredo reside na emoção crua e na capacidade de dialogar diretamente com o espírito romântico inerente ao ser humano.
🎷 A intensa convivência com Tim Maia deixou marcas profundas na trajetória e na maneira como Hyldon enxerga o universo criativo e profissional. Desde o primeiro encontro nos estúdios da Philips até às parcerias na guitarra e no baixo, o "síndico" transmitiu-lhe lições valiosas. Entre elas, destaca-se a importância fundamental de saber ouvir atentamente a música, um preceito que guiou toda a sua carreira nos palcos e nos estúdios de gravação.
🥁 Rever a própria história através do documentário "As Dores do Mundo" proporcionou uma viagem emocionante aos recantos da infância em Senhor do Bonfim. A imersão nos cenários baianos e o contato com as memórias afetivas despertaram influências marcantes da cultura nordestina. Além disso, o filme eterniza depoimentos de grandes ícones da nossa música que testemunharam e partilharam esta imensa jornada artística ao longo dos anos.
🎻 O mais recente álbum, "Festa na Aldeia", materializa uma escolha estética e afetiva em prol da pureza sonora dos estúdios analógicos. Gravado em apenas dois dias com participações lendárias como a de Maurício Einhorn, o projeto recupera composições guardadas há décadas. Lançado em formato físico de vinil pela Rocinante, o disco reafirma a resistência do artista contra a hipervelocidade do consumo digital contemporâneo.
🎤 A troca geracional constante revelou-se uma fonte inesgotável de aprendizado, permitindo ao compositor dialogar com novos talentos de diferentes vertentes musicais. Desde a frequência em batalhas urbanas até ao incentivo precoce a nomes como o produtor Papatinho, a ausência de preconceitos manteve-o sempre ativo. Essa abertura constante reflete-se na sua banda e na cumplicidade com artistas que abrangem desde o rock instrumental até ao rap.
🪗 A conquista da liberdade artística exigiu coragem para romper com as grandes estruturas corporativas e fundar o seu próprio selo discográfico. Gerindo a própria carreira e editora com o apoio da Warner Chappell, assumiu o controlo criativo total das suas produções. Essa autonomia permitiu-lhe priorizar a integridade da sua obra artística em detrimento das pressões comerciais e das tendências passageiras do mercado.
🎺 Enfrentando as transformações radicais da indústria fonográfica, do vinil ao streaming, o compositor mantém-se otimista quanto ao futuro da nossa cultura. Embora encare com cautela as inovações tecnológicas e o efêmero digital, enxerga no ressurgimento do vinil um porto seguro essencial. Para o autor, a necessidade humana fundamental de expressar o amor e a poesia através da arte jamais deixará de existir.
Foto: Eduardo Galetto
🎼 Projetando o seu legado para as próximas décadas, a principal mensagem transmitida baseia-se na busca intransigente pela atemporalidade criativa. Influenciado pelas leituras de ficção científica na juventude, o seu compromisso sempre foi compor com a seriedade da música clássica. O objetivo supremo permanece inalterado: criar melodias sinceras que continuem a tocar a alma de quem as escuta, independentemente da época.
🏆 A recente indicação internacional ao Grammy Latino, fruto da colaboração no projeto com a artista Urias, trouxe nova visibilidade à sua obra. Mantendo uma postura reservada em relação aos bastidores comerciais e burocráticos dos grandes prémios, o autor celebra a excelente qualidade artística envolvida. O foco absoluto permanece na beleza do trabalho realizado e no reconhecimento genuíno por parte do público e dos pares.
🎹 Olhando para trás com a serenidade de quem construiu um legado incontestável, a maior realização reside na lucidez e no prazer de continuar a criar. Mantendo intacta a curiosidade infantil diante da natureza e da vida, Hyldon segue firmemente no jogo musical. A certeza de que a sua identidade sonora continuará a inspirar novas gerações coroa uma trajetória dedicada inteiramente à arte e à emoção.
Fotos: Site Oficial do Artista
Ao lado de Tim Maia e Cassiano, você ajudou a construir os alicerces da soul music brasileira. Quando olha para o Brasil de hoje, qual acredita ser o papel da música negra na discussão sobre identidade, pertencimento e transformação social?
Olha, eu acho que a partir dos anos 90, o hip hop cresceu muito. No começo eles usavam a gente para samplear, né? E os equipamentos foram melhorando e eles começaram a fazer suas próprias bases. Mas no início, eram nossas músicas que faziam Vários artistas, tipo Racionais, DJ Room, com o Taíde, Pavilhão 9, que era um grupo lá do Carandiru. Cara, era muito mais fácil pra ele pegar um disco nosso e samplear. E assim foi feito. E eu acho que o grande herdeiro da soul music, não só aqui, mas lá nos Estados Unidos também, É o hip-hop, sabe? O hip-hop teve um crescimento muito grande. Você vê o BK, Lothar, o Allianz Parque. Cara, esse, porra, maravilhoso. E apareceu muita gente. Tem essa geração do MC, do Racionais, sabe? E tem do Dexter. E tem essa geração nova, agora que é uma geração, o Leno, o... O próprio Gabriel Pensador, que já é da nova geração, né? Ele é novo, né? Então, assim... Existe... Eu acho que o hip-hop veio pra melhorar principalmente as letras, sabe? E eu, no fundo, no fundo, é tudo... A origem é a África. São as músicas com tambores, com baixo, principalmente os tambores, é o que atrai os negros.
Cinquenta anos depois do lançamento de "Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda", o que você enxerga naquele jovem Hyldon de 1975 que talvez só tenha compreendido plenamente agora, após meio século de carreira?
Olha, 50 anos depois, do lançamento da "Na Rua, Na Chuva Na Fazenda", o que eu enxergo em mim mesmo? Eu sempre soube o que eu queria. O meu problema é que as gravadoras nunca estavam interessadas em arte. Eram todas multinacionais, elas queriam vender discos. E eu nunca foi esse meu objetivo vender, foi fazer uma coisa de coração, de sentimento, uma coisa que viesse lá do meu âmago, sabe? No âmago do meu ser, sabe? Eu pudesse tocar as pessoas. A única diferença é que naquela época eu achava que eu ia mudar o mundo, entendeu? Com a minha música. E mais pra frente você vai ser desiludido com isso, E hoje em dia eu já penso diferente. Eu acho que se eu conseguir mudar uma pessoa, fazer essa pessoa sonhar, amar, esclarecer alguma coisa pra essa pessoa, já é muita coisa, cara. Sabe? Então, o importante é eu ser sincero com a minha arte. Eu considero a minha música arte. Essa é a diferença. Continuo pensando do mesmo jeito que eu pensava antigamente.
Canções como "Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda" permanecem atuais justamente por sua simplicidade emocional. Você acredita que a música contemporânea perdeu a capacidade de transformar sentimentos simples em obras duradouras? O que faz uma canção atravessar gerações?
Olha, eu acho que existe a simplicidade, existe a espontaneidade. Quando uma coisa é espontânea, ela é simples. Por isso que uma pessoa pode começar a rebuscar, buscar sinônimo, fazer que nem o Chico Buarque, que usa um monte de dicionário para mudar as palavras e tal. Eu nunca usei um dicionário de rima para compor, nem de antônimo, nem de nada. Entendeu? Então, assim... A música contemporânea, existem duas músicas. As músicas que você ouve, né? E as músicas que você não ouve. De artistas bons que não conseguem entrar nesses nichos de internet. Porque, hoje em dia, só resta isso para o artista novo. É tentar ver se for o bloqueio da internet, dos... Dos ritmos, esqueci o nome, que é a coisa da matemática, né? É mais ou menos isso. Então, assim, se você consegue furar o bloqueio, tanto é assim que você vai, o que acontece, você tem artistas que lotam lugares.
Eu fui num show do Lagoon, que é uma banda de rock, Cara, tava lotado o Circo Voador e todo mundo sabia as letras todas. E acontece muito isso. E às vezes você vai num show de um artista que tem milhares de seguidores e não consegue botar 500 pessoas num lugar. Então tem muita falsidade, coisa falsa nesses algoritmos, né? Então, assim, o cara pode comprar. Comprar like. Pode comprar like, né, cara? Investir dinheiro. Tem empresário. De repente, tem o cara do sertanejo. Faz isso. Eles compram tudo. Até horário. Em televisão, em rádio. Aí massifica. Massifica, mas não fica. Daqui a três, quatro meses, a música desaparece. Porque as músicas não têm sentimento. São feitas por cinco, seis pessoas que... Se concentra para fazer aquela música ali, é tipo um jingle, sabe? Então eu acho que o que marca são as músicas que têm história, sabe? Uma música que tem história, as pessoas se identificam, porque o ser humano é muito parecido com o outro. E quando é romântico, então mais ainda, porque o brasileiro é romântico, não é, cara? Assim como eu.
Sua convivência com Tim Maia foi intensa e marcante. Existe alguma lição artística ou humana que você aprendeu com ele e que continua orientando suas decisões, dentro e fora dos palcos?
Olha, eu tive uma convivência maravilhosa com o Tim. Eu conheci o Tim quando ele tinha terminado o primeiro disco, numa gravação da Elis Regina. O irmão do Cassiano me levou lá na Philips. Ele pegou o violão, tocou uma música, eu toquei algumas coisas. E aí ele... Ficamos amigos ali naquela hora e nos encontramos depois na casa dos amigos nossos, no Solar da Fossa, ali em Botafogo. E a vez seguinte que a gente se encontrou foi num apartamento que eu tava morando na Figueiredo, junto com um percussionista chamado Chacal e mais dois paulistas, cantores. E aí o Tim apareceu lá e tinha levado um perdido da namorada dele. Pô, eu peguei o violão, ele começou a cantar, nós fizemos uma música que ele gravou no segundo disco, chamado "I Don't Know What To Do To Myself". Isso é uma lição que eu trago comigo, de poder... Eu tenho um monte de afilhados, sabe? De poder ajudar, dividir, passar meu conhecimento. Foi isso que o Tim fez comigo.
E ele me ensinou uma coisa muito importante pra mim, a vida inteira. A saber ouvir, sabe? Foi a primeira vez que eu encontrei com ele, que eu mostrei minhas músicas, ele fechava o olho assim, ficava ouvindo, absorvendo a música, sabe? E foi muito legal. Depois eu fui tocar com ele, toquei nos discos, nesse disco, o segundo disco, eu já tô tocando ali, guitarra, que tem "Não Quero Dinheiro", Festa do Santo Rei, tem muito sucesso esse disco, né? E, por incrível que pareça, com orquestra e tudo, feito em quatro canais, cara. E aí ele me chamou e falou, poxa, eu já tenho um guitarrista, que é o Paulinho, que era o Paulinho Guitarra, gravava as duas guitarras. Eu fazia a guitarra base e o Paulinho os solinhos. Aí ele falou, pô, então você podia tocar baixo. Eu falei, beleza.
Aí eu fui tocar baixo com ele, ele me ensinou algumas coisas no baixo, e eu tenho ouvido bom, né? Então eu me tornei baixista na banda do Tim Maia. Durante algum tempo. Depois eu fui, eu comecei a produzir, comecei a ter minhas coisas, fazer tocar com outras pessoas. Eu era muito requisitado para gravação. Era muito músico de estúdio, né? E foi assim. Depois eu gravei com ele, com o Tim, eu gravei cantando uma música chamada "Velho Camarada", que também foi o maior hit. Fizemos um monte de televisão, fizemos o Fantástico. E tinha o Fábio, que hoje é conhecido como Fábio Stella, e que compôs comigo essa música chamada "Águas de um Mar Azul", que Urias gravou e gravou muito bem. Adorei a gravação. E não fugiu do original. O Gorky (produtor do álbum de Urias) produziu muito bem.
Ao assistir à sua própria história sendo contada no documentário "As Dores do Mundo: Hyldon", houve alguma descoberta ou reflexão sobre sua trajetória que o surpreendeu? Como foi se enxergar através do olhar de outros realizadores?
Olha, foi muito emocionante fazer esse documentário, que eu estive nos lugares que eu vivi, tipo a cidade que eu morei, na Bahia, no interior, Copacabana, o apartamento que eu fiz a música com o Tim, na Figueiredo Magalhães, a gente filmou lá. E o que mais me emocionou foram os depoimentos dos amigos meus. Tipo do Mano Brown, do Arnaldo, Arnaldo Antunes, da Wanderleia, da Rosa Maria, que gravou uma música minha em 68, que talvez tenha sido a primeira mulher a gravar uma soul music, uma música chamada "Tentei Me Esquecer", que era meio do Pedrinho, Pedrinho da Luz, que era o Pedrinho dos Tíveres, que era meu primo. E assim... Existe uma lição artística que eu acho que é... É assim... É você ser verdadeiro. Eu li um livro que foi muito importante para mim, quando eu pulei da Jovem Guarda para umas coisas mais alternativo, mais som, mais coisa. Foi tudo junto. Conheci o Tim, conheci o Cassiano e li esse livro chamado "As Dores do Mundo", do Schopenhauer, que inclusive dá nome ao documentário. E a música foi sucesso. Ninguém imagina que eu fiz essa música dentro do túnel. Eu vou contar essa história no filme, mas não vou fazer spoiler, não!
Seu novo álbum, "Festa na Aldeia", foi gravado em estúdio analógico numa época dominada por ferramentas digitais. Essa escolha foi uma busca estética, afetiva ou uma forma de resistência à velocidade do consumo musical atual?
Esse disco, Festa na Aldeia, ele nasceu depois que eu gravei um disco em Los Angeles com o produtor Adrian Young, do Jazz Is Dead. Era um Mamão de bateria, o Mamão nos deixou dois anos atrás. O Adrian só trabalha com analógico. Aquelas fitas antigas e tal. E para a gente gravar, ele veio aqui para eu botar voz, botar coro e produzir a voz e o coro. E foi muito bom. A gente gravou com o pessoal que canta com a Iza, cara. Maravilhoso o vocal. E esse disco saiu lá nos Estados Unidos. Jazz is Dead, 23. Ele é um dos caras que ama música brasileira. E eu fiquei com aquele som de bateria na cabeça, que é um som mais puro, mais aberto, diferente quando passa no MP3, quando vai para as plataformas digitais e tal. E eu queria fazer um disco, aí eu resolvi fazer um disco, chamei uma galera, que era um pessoal que eu já tinha gravado um disco, que está aí represado, deve sair agora em novembro, e o ao vivo no João Caetano, no teatro.
E eu estou segurando esse disco. Aí eu falei, cara, vou lançar esse disco agora, antes do outro. Aí comecei a gravar. Na verdade, eu gravei em dois dias. A gravação foram quatro músicas por dia, assim como gravava antigamente também. Chegava, passava a música e já fazia logo. E chamei uns músicos maravilhosos, que é o pessoal da banda do Léo Gadiman, Léo Garibaldi me emprestou os músicos dele, mesmo sem saber. E tem um batera que tocava comigo, o Cássio tocou sete anos comigo, o Cássio Tepeson. Maravilhoso. André Vasconcelos, o Dudu Farias. E chamei vários guitarristas para... Acrescentei mais alguma coisa. Chamei percussão, uma forma anacanã. Chamei o naipe. Todas têm naipe, quase. Só uma que não tenho, acho. Que é o Marlon Serti, trombone, Diogo Gomes, trompete, e Zé Maria, saxofone e flauta. Deu uma incrementada no que estava ali. Chamei o Paulinho de Tarra, chamei o Maurício Einhorn, que é um 94 anos e tocando igual um menino. A cereja do bolo foi ele no disco.
E assim, As músicas eram músicas que eu tinha, tinha músicas que eu fiz, e tinha música que eu tinha feito há alguns anos atrás, porra, alguns anos que eu digo é 40 anos atrás, 50 anos, e eu gravei, aí eu fiz uma segunda parte, tem uma música lá chamada Aconteceu em Jeribá, que eu fiz em Jeribá aqui no Rio, na praia, perto ali de Cabo Frio, perto de Búzios, e fiz uma segunda parte para a música, Cara, é um disco que eu gosto muito. Tem algumas músicas inéditas e músicas que já foram gravadas. Festa na Aldeia é uma música minha de um cara que estuda Tupi. Então, metade da música é em Tupi, metade em português. É uma música que eu gosto muito, ficou meio... Uma música meio indígena, meio afro. Diferentona, né, cara? E é isso. O disco, eu quando terminei, no início, quando eu comecei, eu queria gravar, mas não sabia o que ia fazer. Eu falei, eu vou lançar mesmo, no digital e tal. Quando eu terminei, eu falei, cara, tá muito bom o som, eu não vou lançar em digital não, eu vou lançar o disco, eu quero desenvolver isso no vinil. Aí procurei a Rocinante, fábrica, né, que tem na Petrópolis, na Aipava, né, e mandei fazer os discos, para poder ter o prazer de ouvir. E aí ele distribuiu o disco em algumas lojas, na Tropical, aqui no Rio, e na Petroleum Music, que é uma loja de um amigo meu, do Brechó, lá de São Paulo. Quer dizer, quem quiser comprar o disco, procure esses caras aí.
Ao longo da carreira você trabalhou com nomes históricos e também com artistas mais jovens, do rap ao rock. O que aprendeu com essa troca geracional e o que os novos músicos ainda podem ensinar a um artista com mais de 50 anos de estrada?
Ao longo da carreira você trabalhou com nome e história também, né? O que aprendeu com essa troca de geracional e o que as novas músicas ainda podem... Cara, eu acho que a música tem uma coisa que é muito louca, que é assim... Você nunca aprende tudo sobre música, entendeu? Então você tem sempre alguma coisa a aprender. E eu gosto de trocar tanto com os mais velhos, Como tem lá no meu disco, tem gente de vinte e pouco. E tem Maurício Arroni com 94 anos, cara. E você ali tocando, junto ali, é uma troca, né? É uma troca. Você sempre aprende alguma coisa. E eu tô sempre aberto. Eu acompanho tudo, eu ouço tudo, eu vejo as coisas na internet, eu vejo... Eu vejo os lançamentos, eu vou em show, vou em batalha que eu gosto, batalha de hip-hop, batalha do conhecimento, batalha de sangue, tem muita... Já levei o Marechal, o Marechal e o... Eu só levei o Marechal pra cantar comigo no Canecão, cara. Porque tinha gente que nem conhecia hip-hop na época. Depois o Canecão fechou. Logo em seguida o Canecão. Foi um dos últimos shows, ainda tava fazendo aquela coisa de resistência, pra ver se não fechava. Mas já estava muito encalacrado lá, já estava mesmo fechando, fechou, né? Dizem que vai reabrir. É uma pena que é um ótimo lugar, bien localizado, com o metrô ali do lado, e era uma casa tradicional, né? Enfim, vamos seguir aqui.
Ah, e outra coisa, tô sempre botando a galera nova na minha banda também, pra tocar, pra participar. Então eu tive uma experiência muito boa com o Papatinho, que é da Conicri, hoje é um excelente produtor, mundialmente conhecido, né? O Papatinho começou aqui em casa, fazendo as coisas comigo. Hoje ele é um dos maiores produtores do Brasil, né? Snoop Dogg, esses caras todos já gravaram com o Papatinho. Anitta... Ludmilla, essa galera toda. E lá fora, muita gente. Aquele... Black... Eu esqueço os nomes. Black Pierce, né? Tocou no festival agora. Papatinho fez até uma participação ao vivo. Ele me chama de padrinho. Eu tenho um monte de afilhado, cara. Tenho um monte de afilhado. Ele todo é assim. Desde rock and roll até hip-hop, até música instrumental, jazz. Eu acho que é porque eu vim do baile. No baile a gente tocava todo tipo de música, então eu não tenho preconceito, nem com idade, nem com tipo de música.
Eu comecei com rock and roll, tocando nas minhas bandinhas de Niterói, chamada Os Abelhas. Ao que momento eu senti a liberdade? Com o tempo, vou te falar. Comecei trabalhando para multinacionais. Que já era uma guerra para os caras não se meterem no meu trabalho. Então eu gravei na Universal, depois gravei na CBS, que era a Sony, depois fui para a Continental, aí começou a. Ir para as pequenininhas, gravadora lá do. Chico Recarrei, Lebron Records. Até a hora que eu falei, cara, eu tenho que encarar, vou fazer meu selo, Porque aí eu tenho uma liberdade total mesmo e tenho... E dou sequência às coisas. Então eu montei meu selo, hoje eu tenho meu selo, tem minha editora, que é administrada pela Warner Chappell. Entendeu? E faço o que eu quero. Eu que sou o presidente da gravadora. Então quem manda sou eu. Engraçado, né? Sou o presidente!
Você já foi músico de banda, produtor de grandes artistas, compositor, cantor e dono do próprio selo. Em que momento sentiu que conquistou verdadeira liberdade artística? E qual foi o preço dessa independência?
Tendo atravessar diferentes fases da indústria, LP, stream... Qual os caminhos que você enxerga para a música brasileira nos próximos anos? Cara, é imprevisível isso, né? Porque a gente já passou por tantas coisas. Já tentaram agora relançar o cassete, que é uma bosta. O cassete faz barulho... Entendeu? O vinil... É muito melhor do que o cacete é mais puro o som tudo bem voltar para o vinil acho que o vinil a turma do vinil é que segura a onda da música popular brasileira cara e agora teve um revival né do vinil o vinil tem tem aumentou 25% na de vendas isso é muito interessante agora Eu não sei como é que vai ficar, cara. Sinceramente, eu não sei. Eu quero fazer minhas músicas e botar minhas músicas aí pra rodar. Como vai ficar? Eu não posso ficar pensando nisso, sabe? Eu não sou... Eu não estudei ciências futurísticas. Eu sou otimista, porque eu sempre acho que a música, a arte, sempre vai ter necessidade. O cara que ama precisa de uma música para cantar para a mulher, para ouvir, para dançar. Eu acho assim. Quem não ama também. Tipo Lupicínio Rodrigues, naquela música Vingança. Você há de rolar como as pedras que rolam na estrada, sem ter nunca um cantinho de seu para poder descansar. Lupicínio Rodrigues.
Quando as futuras gerações ouvirem Hyldon daqui a 50 anos, qual mensagem ou sentimento você gostaria que permanecesse vivo através de suas canções?
Olha, eu vou falar um negócio para você. Eu, quando eu estava gravando, eu lia muito livro de ficção científica. Então, eu lia Isaac Asimov, eu lia aquele cara que escreveu 2001, Odisseia no Espaço, Eu tinha muito livro de ficção, eu era tarado por livro de ficção. Então, estava para rolar uma guerra nuclear entre Estados Unidos, era nessa época aí, Estados Unidos e Rússia. Vai ter uma terceira guerra mundial, o planeta vai acabar. Aí eu tava já gravando meu disco e falei, cara, eu tenho que caprichar nesse disco porque se a Terra acabar e chegar uns caras de outro planeta aqui e acharem meu disco. Então eu tenho que fazer um disco para o cara olhar o disco e falar, porra, eu tenho que fazer a música da boa aqui. Então essa era a minha preocupação. Então eu acho que até... Isso aí me norteou um pouco, sabe? E eu sempre pensei com cabeça de música clássica, sabe? Eu não estudei música, mas é a minha cabeça de música clássica, de fazer coisas atemporais, sabe? Eu não penso no agora, no que vai ser agora, se eu vou ter. Dinheiro, se eu não vou ter dinheiro,. Se as pessoas vão gostar, se não vão gostar. Cara, eu faço a música do que eu estou sentindo. Vindo lá de dentro, lá da minha alma. É soul music.
Sua música indicada ao Grammy levou sua obra para um novo patamar de reconhecimento internacional. Como você recebeu essa indicação e o que ela representa para um artista que ajudou a construir a história da soul music brasileira ao longo de mais de cinco décadas?
A música indicada no Grammy levou sua obra para um novo patamar de... Olha, essa música é a segunda música que eu tenho indicada para o Grammy. Eu acho que eu não acredito muito. Nesse negócio do Grammy, eu acho que. Tudo que tem dinheiro, tem coisa, tem falcatrua, entendeu? Então, é legal dar uma divulgação e tudo. Tomara que ganhe, porque o disco está muito bom, a Urias canta muito bem, sabe? E a produção está muito boa, a parte visual também. Tomara que ela ganhe, eu estou torcendo. Mas eu já fui indicado com uma música chamada "Calma Aí Coração", que é minha e do Zeca Baleiro. Foi indicado para Melhor Música, tem uns 10 anos já. Cara, eu não me abalo, eu participei de festival, sabe? Na época do festival, tu achava que ia ganhar, não tirava nem ideia.
Depois de tantos sucessos, regravações consagradas, festivais internacionais e reconhecimento da crítica, qual foi o momento de maior realização da sua carreira: o sucesso popular, o respeito dos seus pares ou a certeza de que sua obra continuará influenciando novas gerações?
Olha, uma das coisas que mais me marcou foi a primeira vez que eu ouvi o "Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda". Eu estava de carro com um amigo meu, que era o irmão do Maurício do Vale, o Sérgio do Vale. O Maurício do Vale era parceiro do Glauber Rocha, ele que fez "Deus e o Diabo na Terra do Sol". E o Sérgio estava comigo, Porra, de repente o Coutinho voando aí, pê, entrou minha música. Cara, eu parei o carro, fiquei ouvindo. Foi uma grande emoção de ainda mais ter... Foi na JB, Jornal do Brasil. Ter uma música tocada junto com os caras que eu gostava, sabe? De repente, quando eu ouvi a música, no início, a música foi para o primeiro lugar. Muita gente não sabe isso, acha que "Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda" foi o sucesso do Kid Abelha. Cara, 20 anos atrás, "Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda" foi o primeiro lugar nas paradas todas. E na segunda também, "As Dores do Mundo", a mesma coisa. Então, do disco, "Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda", teve umas sete músicas, oito músicas, que tocaram muito no rádio, sabe? Até hoje, né? Tem muita regravação. Mas é isso.
Cara, eu tô igual como comecei, entendeu? Eu agora acabei de fazer esse disco aí, O "Festa Na Aldeia", vou lançar o disco ao vivo, segundo o Faustão, quem sabe faz ao vivo, E queria mandar um beijo pro Faustão. Eu vi ali o programa do... O programa do... Ai, meu Deus. Do Bial. Entrevistando ele. Ele é um cara muito maneiro, sabe? Muito maneiro. O programa dele nunca teve jabá. Eu fiz algumas vezes o programa dele. Então... É assim, cara. Eu espero... Que eu tenha capacidade, né? Eu já tô com 75 anos. Capacidade de estar lúcido, pra compor. E sempre com essa curiosidade infantil de viajar, de ver coisas, de olhar a natureza. Às vezes você não precisa ir longe, né, cara? Você mora a quatro quadras do mar. Aí você vai ali no mar, vê uma flor, vê uma borboleta, vê passarinho cantando. Cara, já é inspiração. Entendeu? Então você acaba falando das mesmas coisas.
Se você pegar Olavo Bilac, pegar os poetas Bandeira, pegar esses caras mais antigos, os assuntos são os mesmos assuntos, só muda a maneira de falar. A internet teve isso também. A internet cortou muita coisa. Ficou mais parecendo telegrama. Então tem que tomar cuidado com isso. Hora de escrever as canções e vambora, vambora pra cima. Tô aí ao jogo. E queria dar os parabéns pra Urias, cara. Pô, muito bom ter... Poxa, começar já assim, né? Novinha, né? E eu tô aqui na torcida por ela e pelo Ork, né? Que produziu, né? Teve a ideia, foi lá pegar minha música. Cara, ele pegou minha música no arquivo morto da Universal. Ele descobriu a música, sabe? Então, esse sucesso aí todo... Agora, cara, música não é feita pra ficar comparando uma com a outra, por isso que eu não gosto. Eu não gosto dessas coisas de prêmios, de coisas assim, sabe? Não gosto. Eu acho que não dá pra comparar. Cada música é cada música. É a mesma coisa comparar um filho com outro, sabe? Não tem nada a ver. Mas... Tamo no jogo, né? Então tô torcendo aqui, tô torcendo. Toda a sorte do mundo pra Urias. Valeu!




