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domingo, 30 de agosto de 2026

#SendoProsperidade com Mariângela Borba


Quando o corpo fala, não o mande calar
Por Mariângela Borba

Há momentos em que o corpo nos obriga a pensar.

Não porque necessariamente esteja anunciando uma doença grave, mas porque alguma coisa muda: a respiração fica diferente, o sono não repara como antes, uma dor aparece, o coração acelera, o intestino para, o nariz entope. E então começa a investigação mais íntima de todas: o que está acontecendo comigo?

Recentemente, vivi uma dessas experiências e achei importante não terceirizar a minha própria capacidade de pensar.

Acordei de madrugada com a sensação de que minha respiração estava curta. Meu nariz estava obstruído, embora não houvesse catarro, secreção, gripe ou resfriado. Eu conseguia respirar, mas precisava fazer mais esforço para puxar o ar. E quanto mais eu tentava, mais estranha ficava a sensação; a cabeça também começava a incomodar.

A primeira pergunta que me fiz foi justamente aquela que tantas pessoas fariam: será ansiedade?

Não descartei a hipótese. Afinal, uma sensação respiratória assustadora pode produzir medo, alterar o padrão da respiração e aumentar a percepção do próprio corpo, principalmente quando você olha para um lado e para o outro e se vê sozinha — e prefere continuar assim para não sair acordando e incomodando a casa toda.

Foi justamente por não descartar a hipótese que recorri a um chá de camomila. Não fui logo em busca de um analgésico. Fiz lavagem nasal. Mas, mesmo assim, a situação estava lá.

Mas também não aceitei a hipótese como resposta.

Porque havia um dado concreto: minha respiração mudava conforme mudava o estado do meu nariz. Quando ele abria, eu sentia a liberdade do ar. Quando congestionava, a respiração ficava mais curta e frequente. Por estar mais frequente, surgia um incômodo na caixa torácica. Preferi, então, um lugar arejado, com ventilação natural e corrente, e não canalizada. Mas, justamente por me conhecer, percebi que aquela sensação não vinha acompanhada de outros sinais que me fizessem pensar em algo mais grave.

Em determinado momento, percebi algo ainda mais curioso: conseguia respirar, mas os cheiros não chegavam como antes. O ar passava, mas parecia haver um filtro entre mim e o mundo, uma barreira.

Foi aí que compreendi uma coisa simples e, ao mesmo tempo, poderosa: pensar também é se conhecer. E conhecer-se inclui conhecer o próprio corpo. É por isso que estudo, pesquiso e procuro ampliar meus conhecimentos.

Não somos obrigados a escolher entre corpo e mente.

Essa divisão talvez seja uma das nossas maiores pobrezas contemporâneas. Ora reduzimos tudo ao organismo; ora transformamos qualquer sofrimento em questão psicológica. E, no caminho, deixamos de escutar a pessoa inteira.

Uma pessoa pode ter ansiedade e uma doença física. Pode ter uma doença física e ficar ansiosa por causa dela. Pode sentir medo diante de um sintoma real. Pode, inclusive, ter uma experiência corporal intensa sem que isso apareça imediatamente em um exame.

O oxímetro pode registrar uma saturação normal. Isso não significa que a pessoa não esteja sentindo falta de ar. Afinal, ele mede a saturação de oxigênio no sangue; não avalia, por si só, a passagem de ar pelas vias nasais.

É preciso saber o que cada instrumento mede — e, principalmente, o que ele não mede.

Foi então que comecei a pensar em outras possibilidades: rinossinusite, alterações nos cornetos, pólipos, questões respiratórias e até mesmo a necessidade de uma avaliação otorrinolaringológica mais cuidadosa. Afinal, havia uma história anterior: há cerca de dez anos, passei por uma cirurgia no nariz para aliviar uma sinusite.

E foi justamente nesse momento que uma coincidência me chamou a atenção.

Ao chegar ao cardiologista no dia seguinte, pois já estava marcada uma consulta de rotina, ele tinha um curativo no nariz. Perguntei o que havia acontecido. Ele passara recentemente por uma rinoseptoplastia.

Eu estava ali, justamente tentando compreender o que acontecia com o meu nariz, e encontrava, no consultório do meu cardiologista, alguém que acabara de passar por uma cirurgia nasal.

Coincidência?

Pode ser.

Mas gosto de pensar que há encontros que nos fazem prestar atenção.

E isso também é prosperidade: estar atento aos sinais, às perguntas e às possibilidades que a vida coloca diante de nós.

Foi nesse movimento de observar, investigar e não me contentar com uma resposta pronta que pensei também sobre a psicofarmacologia.

Medicamentos que atuam sobre o sistema nervoso têm seu lugar, sua importância e suas indicações. Psicoterapia também tem seu lugar. Não se trata de colocar um contra o outro.

O problema começa quando a pressa substitui a escuta.

Quando “pode ser ansiedade” vira “é ansiedade”.

Quando “pode ser depressão” vira “é depressão”.

Quando um sintoma ainda não investigado recebe rapidamente uma explicação psicológica e, às vezes, uma prescrição para silenciá-lo. É por isso que costumo evitar emergências hospitalares sem antes escutar o meu corpo. Não por desconfiança, mas por conhecer, por dentro, a urgência de uma emergência hospitalar.

Silenciar não é necessariamente cuidar.

Às vezes, cuidar é justamente suportar a pergunta por mais algum tempo.

Freud viveu em uma época em que a chamada histeria revelava, de maneira perturbadora, como o corpo podia expressar aquilo que a linguagem não conseguia dizer. A história da histeria é complexa e não cabe nas caricaturas que fazemos dela hoje. Mas há uma lição que permanece atual: corpo e psiquismo não vivem em compartimentos estanques.

Jung, que depois seguiria por outros caminhos teóricos, também nos ajuda a compreender que corpo e psique não precisam ser pensados como territórios isolados. A experiência humana é mais complexa do que qualquer explicação que tente reduzi-la a uma única dimensão.

O que não podemos fazer é repetir o erro pelo avesso.

Se antes se corria o risco de transformar manifestações do sofrimento psíquico em “fraqueza” ou “histeria”, hoje podemos cair na tentação de transformar manifestações corporais não compreendidas em “ansiedade” antes de investigá-las.

Escutar o corpo não é negar a mente. É respeitar a pessoa inteira.

Talvez seja por isso que o autoconhecimento seja uma forma tão profunda de prosperidade.

Prosperidade não é apenas acumular. É ampliar a capacidade de perceber, compreender, escolher e cuidar.

É saber quando procurar um médico.

É saber quando procurar um analista.

É saber que um medicamento pode ser necessário — e também saber que medicamento nenhum deveria substituir uma escuta cuidadosa.

É perceber que uma noite mal dormida, uma casa empoeirada, uma mudança hormonal, uma dor, uma lembrança, um medo ou uma palavra podem participar de uma mesma experiência humana sem que precisemos reduzir tudo a uma única causa.

Talvez pensar seja exatamente isso: não se conformar com a primeira resposta disponível.

Perguntar.

Observar.

Investigar.

Escutar.

E, quando necessário, mudar de ideia.

Porque prosperidade também é isso: ter liberdade suficiente para não precisar de uma resposta pronta.

Até para poder dizer, diante do próprio corpo:

eu ainda não sei ao certo o que é. Mas eu estou escutando.

Foi também assim que cheguei a uma passagem proclamada na missa deste domingo: “não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente”. (Romanos 12, 1-2).

Foi um convite da coordenadora da equipe de liturgia, não uma escolha minha, mas acredito que todo convite tem um direcionamento. Nada vem do acaso. A minha fé diz isso. E eu acredito.

E talvez seja justamente isso que chamamos de prosperidade: perceber que, enquanto procuramos respostas, a vida também vai colocando perguntas no nosso caminho.

A resposta do futuro, muitas vezes, está no agora.

E a do passado também, por que não?

Mariângela Borba é jornalista (DRT-PE 4095), especialista em Cultura Pernambucana, produtora cultural, psicanalista em formação, pesquisadora da palavra como território de poder e autora da coluna #SendoProsperidade.