A nova Torre de Babel e o preconceito contra o que não compreendemos
Por Mariângela Borba
Os textos, às vezes, começam muito antes da primeira frase.
Começam num áudio atravessado por risadas, numa noite inesperadamente bem dormida ou numa missa em que a homilia parece responder silenciosamente às perguntas que carregamos há dias.
Esta semana vivi essas três experiências. E, olhando agora com mais calma, percebo que todas falavam da mesma coisa: a dificuldade humana de escutar aquilo que não compreendemos imediatamente.
Tudo começou com um áudio de um amigo querido. Daquele jeito rude, afetuoso e absolutamente sincero que só algumas amizades conseguem sustentar sem cerimônia.
Ele confessou que tinha demorado a ler um artigo meu. Contou do corre-corre da vida, dos livros, das providências, da cabeça de velho — “que só serve pra separar as orelhas”, como ele mesmo disse. E então veio a frase que me fez parar para ouvir de verdade:
“Comecei a discordar… talvez meu machismo, né?”
Não havia pose de perfeição. Não havia preocupação em parecer moderno, desconstruído ou intelectualmente correto. Havia apenas um homem pensando em voz alta, reconhecendo o próprio desconforto diante de um tema que mexia com suas referências.
Ri quando ele reclamou dos filósofos e os definiu como “malucos que falavam sobre a vida inteiramente ao contrário”. Mas, passada a gargalhada, percebi algo precioso: ele continuou lendo.
Poderia ter abandonado o texto na primeira estranheza. Poderia ter me encaixado em algum rótulo conveniente — feminista demais, intelectual demais, complicada demais. Não fez isso. Permaneceu na conversa. E terminou reconhecendo que a comunicação valia a pena, mesmo atravessada pela divergência.
No dia seguinte, vivi outra experiência aparentemente sem relação com a primeira.
Fiz uma sessão de ventosaterapia após a aula de Pilates, por causa de um desconforto na coluna.
Não pretendo transformar uma experiência pessoal em tratado científico. Mas também não consigo ignorar um fato simples: após o Pilates, a ventosaterapia e as sessões de fisioterapia dos dias anteriores, dormi oito horas seguidas sem acordar de madrugada, algo que não acontecia havia bastante tempo.
E olha que preferi não recorrer a relaxantes musculares — não por desacreditar na medicina alopática, mas por optar, naquele momento, evitar possíveis efeitos colaterais.
Para quem repousa bem todas as noites, isso pode soar banal. Para alguém que há meses convivia com despertares sucessivos, tensão muscular, cansaço acumulado e a sensação de nunca concluir verdadeiramente o descanso, acordando cansada, não foi banal.
E foi justamente aí que os dois episódios se encontraram dentro de mim.
Percebi como somos rápidos em desqualificar aquilo que não cabe imediatamente em nossos esquemas mentais. Seja um texto que desafia nossas convicções, seja uma prática de cuidado sobre a qual sabemos pouco, a reação costuma ser instantânea:
“Placebo.”
“Bobagem.”
“Coisa de intelectual.”
“Exagero.”
“Mimimi.”
“Charlatanismo.”
Talvez exista uma arrogância silenciosa na necessidade de concluir tudo depressa.
E então veio a missa de hoje.
O padre Sérgio Absalão na homilia falou sobre a Sabedoria de Amenemope, sobre o alerta do Papa Leão XIV a respeito de uma humanidade que estaria construindo uma nova Torre de Babel, e terminou lembrando a oração de Pedro:
“Senhor, salva-me!”
Enquanto eu o ouvia, algo começou a fazer sentido.
A antiga sabedoria egípcia aconselhava prudência, humildade, escuta atenta e domínio da própria arrogância. O Papa falava de um mundo hiperconectado que já não consegue verdadeiramente se compreender. E Pedro, afundando nas águas, reconhecia aquilo que nossa cultura frequentemente tenta negar: o ser humano não é autossuficiente.
Foi impossível não pensar em mamãe.
Os ensinamentos de Amenemope me lembraram imediatamente aqueles conselhos simples que só entendemos plenamente depois de adultos: ouvir antes de responder, não humilhar ninguém, desconfiar das certezas excessivas, lembrar que cada pessoa carrega dores invisíveis.
Talvez toda grande sabedoria sobreviva porque um dia foi dita por alguém que nos amava.
E foi nesse ponto que compreendi o verdadeiro tema deste texto.
A nova Torre de Babel não é feita apenas de tecnologia, algoritmos ou redes sociais. Ela também é construída quando transformamos diferenças em trincheiras permanentes; quando reduzimos pessoas a rótulos políticos — direita, esquerda, Lula, Bolsonaro —; quando uma divergência vale mais do que uma história de vida; quando preferimos vencer discussões a preservar a humanidade do outro.
Vivemos cercados de vozes, opiniões e diagnósticos instantâneos, mas cada vez mais pobres em escuta verdadeira.
Jung dizia que a experiência humana é maior do que os compartimentos em que tentamos organizá-la. Muitas vezes somos transformados por algo antes mesmo de conseguirmos explicá-lo plenamente.
Lacan, por sua vez, lembrava que o sujeito nunca é totalmente transparente para si mesmo. Talvez por isso resistamos tanto ao que nos desloca: uma ideia, uma pessoa, uma fé, uma terapia, uma dor ou uma alegria que não conseguimos explicar completamente.
O problema do nosso tempo talvez não seja a existência de diferenças.
O problema é a incapacidade de permanecer humanos diante delas.
Não precisamos aceitar tudo sem senso crítico. Questionar é saudável. Investigar é necessário. Mas existe uma diferença profunda entre examinar algo com honestidade e descartá-lo por puro preconceito contra aquilo que ainda não compreendemos.
Hoje penso que tanto o áudio do meu amigo quanto minha noite de sono inesperadamente tranquila me ensinaram a mesma lição: há experiências que merecem, antes de qualquer julgamento, um pouco mais de escuta.
Escutar o outro.
Escutar o corpo.
Escutar a própria resistência.
Escutar aquilo que Deus talvez esteja tentando dizer através de caminhos que
não escolheríamos espontaneamente.
Num mundo que fala cada vez mais alto e compreende cada vez menos, prosperar pode ser um gesto surpreendentemente simples:
trocar a pressa de julgar pela coragem de escutar.
E talvez seja justamente essa coragem — humilde, imperfeita e profundamente humana — que ainda possa nos salvar da Babel que nós mesmos estamos construindo.
Mariângela Borba é jornalista (DRT-PE 4095), especialista em Cultura Pernambucana, produtora cultural, estudante de psicanálise e pesquisadora da palavra como território de poder. É autora da coluna #SendoProsperidade 🌻